Perante militares, Trump ataca a cidade de Los Angeles, insulta o governador da Califórnia e acusa-o (sem provas) de financiar os “insurreccionistas”

10 jun, 22:59
Donald Trump em Fort Bragg (AP)

O Presidente dos Estados Unidos usou um discurso em Fort Bragg para atacar duramente os responsáveis democratas da Califórnia, acusando-os de financiarem agitadores. Trump prometeu ainda “libertar” a cidade de Los Angeles e sugeriu aos militares que recusassem um aumento salarial para que esse dinheiro fosse entregue ao governador Gavin “Escumalha” Newsom, "para ele o desperdiçar em Los Angeles"

Donald Trump regressou esta semana a uma das suas arenas favoritas — um palanque improvisado diante das tropas norte-americanas — para, num discurso que rompeu com o tradicional dever de neutralidade política dos presidentes em ambiente militar, lançar um ataque cerrado à Califórnia, ao seu governador e, em particular, à cidade de Los Angeles.

A intervenção teve lugar na base militar de Fort Bragg, na Carolina do Norte, e depressa trocou o tom institucional por uma diatribe partidária. “Los Angeles passou de ser uma das cidades mais limpas, seguras e belas do planeta a um monte de lixo, com bairros inteiros sob controlo de gangues transnacionais e redes criminosas”, afirmou Trump perante os soldados, antes de prometer: “Muito simplesmente, vamos libertar Los Angeles e torná-la novamente livre, limpa e segura”. 

A frase ecoou entre os militares, mas o discurso — transmitido em direto — viria a subir ainda mais de tom. Num momento que não escapou ao simbolismo político, o Presidente norte-americano ofereceu um aumento salarial às tropas presentes, embora o tenha feito com sarcasmo e uma provocação dirigida ao governador da Califórnia, Gavin Newsom, a quem Trump voltou a chamar, publicamente, pelo seu epíteto preferido: “Gavin Newscum” (trocadilho insultuoso com a palavra “scum”, que em inglês significa “escumalha”).

“Agora, não têm de aceitar este aumento se não quiserem”, disse, em tom trocista. “Podem ser grandes patriotas e dizer: ‘Não quero o aumento, não o aceito, deixem-no voltar para o nosso país. Vamos dá-lo ao Gavin Newscum, para ele o desperdiçar em Los Angeles’.”

O momento já estava a gerar polémica, mas haveria mais. Antes de abandonar o púlpito ao som do clássico “YMCA”, de Village People —que Trump adoptou como banda sonora de campanha desde 2020 —, o Presidente avançou com uma teoria da conspiração sem qualquer prova ou fundamento, mas apresentada como se fosse facto: acusou Newsom e a presidente da câmara de Los Angeles, Karen Bass, de financiarem manifestantes e agitadores para atacarem agentes federais.

“Em Los Angeles, o governador da Califórnia, a presidente da câmara… são incompetentes. Pagaram a arruaceiros, agitadores e insurreccionistas. Estão envolvidos numa tentativa deliberada de anular a lei federal e facilitar a ocupação da cidade por invasores criminosos”, afirmou, sem apresentar qualquer indício que sustentasse as alegações.

As declarações surgem num momento em que Trump tenta consolidar o seu discurso de “lei e ordem”, que já vem da corrida às presidenciais de 2024, insistindo numa retórica de confronto com os estados governados por democratas e fazendo da imigração e da criminalidade urbana bandeiras da sua presidência. Mas o uso político das Forças Armadas, e a forma como instiga o ressentimento entre militares e instituições civis, está já a gerar desconforto entre antigos responsáveis da Defesa norte-americana.

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