Kennedy (e Trump) cancelam contratos de quase 500 milhões de dólares para vacinas de mRNA - e isso deixa-nos desprotegidos contra pandemias

6 ago 2025, 16:08
Robert F. Kennedy Jr. Donald Trump
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O secretário da Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., suspendeu um conjunto de financiamentos para vacinas de mRNA, numa decisão que gera inquietação na comunidade científica sobre o futuro da inovação na proteção contra pandemias

Robert F. Kennedy Jr. anunciou esta quarta-feira a revogação de quase 500 milhões de dólares em subvenções e contratos destinados ao desenvolvimento de vacinas baseadas na tecnologia mRNA. A decisão representa mais um duro golpe para a investigação nesta área, já que, em maio, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos já havia cancelado um contrato de quase 600 milhões de dólares com a Moderna para uma vacina contra a gripe das aves.

A tecnologia mRNA, que esteve no centro da resposta à pandemia de Covid-19, por exemplo, através das vacinas da Pfizer-BioNTech e Moderna, funciona ao instruir o organismo a produzir um fragmento do vírus, desencadeando a resposta imunitária. Ao contrário das vacinas tradicionais, que podem demorar anos a desenvolver, as vacinas de mRNA são rápidas de fabricar e fáceis de adaptar às mutações virais - motivo pelo qual a tecnologia recebeu o Nobel de Medicina em 2023.

Mas Kennedy Jr., um crítico da tecnologia, já apelidou as vacinas Covid como “as mais mortíferas alguma vez feitas”.

Numa publicação recente nas redes sociais, fez afirmações falsas (o que já vem sendo habitual; o secretário da Saúde dos EUA é um conhecido negacionista anti-vacinas) ao dizer que as vacinas de mRNA "não protegem contra doenças respiratórias" como a Covid e a gripe, e que uma única mutação do vírus "as tornaria inúteis". Os cientistas desmentiram-no de imediato.

Jennifer Nuzzo, diretora do Centro de Pandemias da Brown University, afirmou que estas declarações “são erradas e revelam um compromisso em semear dúvidas sobre todas as vacinas”. E acrescentou: “Sem estas vacinas de mRNA, teríamos milhões de mortes por Covid a mais”.

Segundo o Departamento de Saúde, o cancelamento afeta 22 projetos da Biomedical Advanced Research and Development Authority (BARDA), que passará a privilegiar vacinas mais tradicionais, como as de célula inteira - uma técnica centenária e abandonada nos EUA desde os anos 90 devido aos seus efeitos colaterais severos, como febres altas e convulsões.

Rick Bright, ex-chefe da BARDA e especialista em gripe, criticou duramente a decisão, afirmando que “esta escolha mina a nossa capacidade de reagir rapidamente a futuras ameaças biológicas” e é “uma falha estratégica que se medirá em vidas perdidas”. Já Chris Meekins, antigo secretário assistente para preparação pandémica, alertou que o fim do trabalho em vacinas de mRNA representa uma “vulnerabilidade de segurança nacional”, já que a rapidez desta tecnologia é “um ativo fundamental na defesa biológica dos EUA”.

O The New York Times destaca que, com estas decisões, a administração Trump (com Kennedy à frente da Saúde) está a afastar-se da vanguarda da inovação em vacinologia num momento em que o mundo continua a enfrentar ameaças infecciosas emergentes.

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