A guerra contra o Irão tem sido marcada por avanços e recuos da administração dos EUA quanto aos seus objetivos e linhas vermelhas. Donald Trump diz agora que o conflito pode chegar ao fim já no final de abril, deixando para outros a responsabilidade de reabrir o Estreito de Ormuz, fulcral para o tráfego mundial de petróleo e outras matérias-primas. Analistas falam numa estratégia "profundamente irresponsável" e a relativa imunidade económica dos EUA é uma miragem. Com os eleitores norte-americanos a sentirem o impacto da guerra no bolso, a popularidade das políticas económicas de Trump atingiu um novo mínimo histórico. E no atual contexto, "mesmo que haja um acordo de paz ou um cessar-fogo, o Irão vai continuar a ter mais controlo sobre a inflação dos EUA do que o próprio Trump"
O carrossel de “sensações” de Donald Trump levou o presidente norte-americano a indicar esta semana que poderá pôr fim à guerra contra o Irão “dentro de duas a três semanas” sem reabrir o Estreito de Ormuz – cujo encerramento tem levado a um aumento sustentado dos preços do petróleo, com reflexo imediato no preço por litro de combustível que cada consumidor paga nos postos de abastecimento.
“Nesta crise, como já estamos a ver com o encerramento do Estreito, a economia mundial fica completamente refém”, diz António Costa Silva, engenheiro de minas e petróleo e também ex-ministro da Economia de Portugal. “Antes da guerra, passavam pelo Estreito de Ormuz 20 milhões de barris de crude por dia, 5 milhões de barris de petróleo refinado, 20% do gás natural liquefeito, e também um terço dos fertilizantes mundiais e uma parte significativa de metais como o alumínio. A dependência é total.”
No dia em que Trump deu a indicação de que a guerra pode estar perto do fim sem que Ormuz reabra no imediato, já depois de ter proferido coisas semelhantes e o seu contrário ao longo das últimas semanas, o preço do Brent – referência global que influencia fortemente os preços da gasolina e do gasóleo – subiu para 114 dólares o barril.
Desde o início da guerra, a 28 de fevereiro, as famílias dos EUA têm estado a pagar quase 80 centavos de dólar a mais por galão (cerca de 3,78 litros) de combustível a cada abastecimento – o equivalente a mais de 300 milhões de dólares em custos adicionais diários. Posto de outra forma, estão em causa 10 mil milhões de gastos extra com combustíveis para os consumidores até ao final desta semana em comparação com os níveis pré-guerra – o que, segundo Patrick De Haan, analista-chefe da Gas Buddy, que acompanha a evolução dos preços dos combustíveis, corresponde a menos 35 dólares de rendimento disponível para cada família ao final do mês.
O impacto da guerra e do fecho do Estreito nos preços dos combustíveis “é apenas o início”, aponta a revista Time. Neste momento, as famílias americanas já estão a sofrer com o aumento dos preços dos combustíveis. E com o aproximar das férias de primavera e do verão, os americanos vão deparar-se também com o aumento dos preços dos voos, agora que o custo do combustível de aviação está 85% superior aos preços pré-guerra.
Nos supermercados, a situação não é muito diferente e o prejuízo será sentido duas vezes. Primeiro, no imediato, o aumento do preço do gasóleo elevará os custos do transporte dos produtos agrícolas do campo para as prateleiras dos supermercados; depois, daqui a uns meses, virá o choque de o aumento do preço dos fertilizantes se propagar a toda a cadeia de abastecimento agrícola. Tudo aponta para que haja uma inevitável crise do custo de vida e que os riscos de pressões inflacionistas, que já pairavam antes dos primeiros ataques ao Irão, se agravem nos próximos meses.
Mesmo que a guerra termine daqui a “duas ou três semanas”, como Trump sugere agora, o impacto não vai ficar por aqui nem se traduzirá num único aumento de preços, antes numa série de aumentos sucessivos com efeito imediato nas carteiras dos consumidores. Para que a situação volte ao normal, serão precisos vários passos, a começar pela reabertura do Estreito de Ormuz. E se, no início do conflito, o presidente norte-americano prometia uma solução rápida para o problema, agora, ao segundo mês da guerra, as autoridades federais estão a moderar as expectativas de reabertura do Estreito e a transferir a responsabilidade para o Irão, admitindo que tal pode não acontecer no curto prazo.
Trump também disse, entretanto, aos aliados para serem eles a ir “buscar o petróleo” a Ormuz, declarando ao New York Post que acredita que o Estreito irá reabrir automaticamente, mas que na sua perspetiva, depois de ter aniquilado “o país, eles [iranianos] não têm mais forças, então os países que usam o Estreito que o abram”.
É para tentar reabri-lo que Keir Starmer, primeiro-ministro do Reino Unido, vai hoje liderar uma reunião de 35 países para "avaliar todas as medidas diplomáticas e políticas viáveis para restabelecer a liberdade de navegação, garantir a segurança dos navios e marinheiros retidos e retomar a circulação de mercadorias vitais". Para os EUA, pôr fim às operações militares deixando a reabertura do Estreito a cargo de uma força distinta da coligação vai diminuir a sua influência sobre Teerão. Os europeus e as monarquias do Golfo estão apenas interessados numa missão restrita focada em Ormuz e não em alcançar objetivos estratégicos mais amplos por via de bombardeamentos a alvos estratégicos iranianos. E a grande questão é que mesmo que o Estreito reabra, o regresso aos preços pré-guerra está longe de ser imediato – e isso também se aplica aos EUA.
Para tal, as instalações de petróleo e de gás natural do Golfo Pérsico terão de conseguir retomar as suas operações a níveis mínimos, um processo que levará, no mínimo, semanas a estar concluído se o conflito terminar e que, no pior dos cenários, levará muito mais tempo, considerando as dificuldades de reconstruir as infraestruturas que ficaram parcial ou totalmente destruídas nos ataques de drones e mísseis iranianos.
"Não é possível isolar os EUA dos danos económicos"
Aparte a fúria de Trump com os aliados da NATO, que ontem levou o presidente norte-americano a retomar a ameaça de abandonar a aliança atlântica, fontes da administração dizem que o presidente norte-americano sabe que a situação atual é “insustentável”. Foi o que noticiou a Bloomberg em exclusivo na terça-feira, citando fontes próximas de Trump sob anonimato, já depois de a sua equipa ter sugerido que a reabertura do Estreito de Ormuz terá deixado de ser condição sine qua non para os EUA baterem em retirada do Irão.
A sugestão de um desfecho para breve até pode acalmar o nervosismo dos investidores. Mas deixar o futuro do Estreito indeterminado contribuiria muito pouco para amenizar a volatilidade da economia global nos próximos tempos. Como apontava ontem Suzanne Maloney, especialista em assuntos do Irão do Brookings Institute, pôr fim às operações militares sem garantias de que Ormuz será reaberto seria “incrivelmente irresponsável”.
“Os mercados energéticos são inerentemente globais e não há possibilidade de isolar os EUA dos danos económicos que já estão a ocorrer e que vão agravar-se exponencialmente se o Estreito continuar fechado”, disse a especialista ao Wall Street Journal, sublinhando que EUA e Israel não podem esquivar-se às consequências da guerra que decidiram iniciar em conjunto.
Como aponta a Bloomberg, todos os acontecimentos recentes sugerem que a guerra deixou de estar sob controlo exclusivo dos EUA e de Israel – e isso representa um enorme risco político para o presidente norte-americano, que fez campanha sob a promessa de não iniciar novas guerras e cujo Partido Republicano corre agora sérios riscos de perder o controlo do Congresso nas eleições intercalares de novembro.
É por isso que Trump está agora inclinado a pôr fim ao conflito sem realmente poder clamar vitória – o regime que dizia querer derrubar continua a controlar o Irão e as travessias marítimas no Estreito de Ormuz. Segundo uma das fontes citadas pela Bloomberg, “é o sofrimento económico causado pela guerra que mais preocupa a Casa Branca, já que há altos funcionários que estão cada vez mais apreensivos com o perigo que a situação económica representa para os legisladores republicanos candidatos à reeleição”.
A administração pode não querer admitir publicamente aquilo que vários responsáveis dentro do governo norte-americano assumem em conversas oficiosas com jornalistas, mas as sondagens mais recentes mostram os efeitos nefastos da estratégia bélica de Trump, ou falta dela, entre o eleitorado. De acordo com um inquérito de opinião da CNN divulgado esta quarta-feira, a taxa de aprovação do presidente em relação à sua gestão da economia atingiu um novo mínimo histórico de 31%, refletindo o crescente pessimismo dos norte-americanos sobre o tema que descrevem consistentemente como o mais importante.
Dois terços dos inquiridos na sondagem dizem que as políticas de Trump pioraram as condições económicas nos EUA, o que representa um aumento de 10 pontos percentuais em relação a janeiro; apenas 27% dos inquiridos aprovam a forma como a administração está a lidar com a inflação, contra os 44% que se posicionavam dessa forma há um ano.
"EUA entraram na guerra numa situação financeira insustentável"
Na última sexta-feira, após uma reunião do G7, o secretário de Estado dos EUA já tinha traçado uma linha entre acabar com a guerra e reabrir o Estreito de Ormuz, dizendo que seria inaceitável se, após o fim das operações militares, o Irão continuasse a ditar o controlo da passagem marítima, mas remetendo a responsabilidade para terceiros. “O mundo inteiro deveria estar indignado com isso”, disse Marco Rubio, antes de contrapor: “Nós somos afetados por isso um pouco, mas o resto do mundo é muito mais afetado.”
Isto é verdade, mas só até certo ponto. Como aponta Desmond Lachman, especialista em macroeconomia do American Enterprise Institute, “os EUA, sendo um exportador líquido de petróleo e alimentos, são menos impactados por uma crise energética do que outras grandes economias industrializadas, como a Europa e o Japão, mas os consumidores americanos são fortemente afetados por um aumento nos preços internacionais do petróleo e dos alimentos”. E no dominó de efeitos da guerra no Médio Oriente, os EUA também estão longe de estar imunes a outro fator, continua Lachman na sua análise. “Um obstáculo à recuperação económica ainda mais importante relacionado com o Irão pode vir de taxas de juro mais altas no longo prazo, especialmente relevante considerando que os EUA entraram na guerra numa situação financeira pública insustentável.”
Dados do Gabinete Orçamental do Congresso (CBO) mostram que, ainda antes de se incluir o aumento dos gastos com Defesa decorrentes desta guerra, já estava previsto que o défice orçamental dos EUA iria provavelmente ultrapassar os 6% do PIB por um longo período – com o CBO a antecipar que, ao ritmo atual, a dívida pública em relação ao tamanho da economia iria exceder, até 2030, o elevado nível do pós-II Guerra Mundial.
Na sua atualização periódica das condições económicas, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) previu esta semana que a inflação nos EUA deverá situar-se nos 4,2% em 2026, um aumento acentuado em relação à anterior projeção de 2,8% e bem acima dos 2,7% projetados pela Reserva Federal (Fed) na sua própria atualização periódica divulgada há uma semana. A OCDE diz que o Fed e os outros bancos centrais “têm de permanecer vigilantes” perante as ameaças inflacionistas, ainda que as avaliações sobre o impacto da guerra no Irão no médio e longo prazo sejam díspares.
Dentro dos EUA, os mercados acreditam que, face aos riscos, o Fed vai subir as taxas de juro ainda este ano, considerando que uma subida já em julho é 30% mais provável do que a manutenção ou a redução das taxas diretoras. Pelo contrário, os economistas norte-americanos acreditam num cenário menos negro, prevendo que podem ficar inalteradas até setembro e que poderá até haver uma redução ainda este ano, apesar das preocupações com a inflação.
Numa sondagem da Reuters divulgada na penúltima semana de março, quase três quartos dos economistas inquiridos – 61 de um total de 82, previram que o Fed vai manter as taxas inalteradas no próximo trimestre, contra cerca de dois terços de economistas que, duas semanas antes, acreditavam numa redução para entre 3,25% e 3,5% até ao final de junho. O inquérito foi divulgado uma semana depois de o banco central norte-americano ter mantido as taxas de juro inalteradas no intervalo entre os 3,5% e os 3,75%, o mesmo valor de dezembro – com vários membros do Fed a admitirem que os elevados riscos de inflação tornam improvável uma redução das taxas, apesar das pressões de Trump nesse sentido.
“As expectativas de inflação parecem estar bem ancoradas além do curto prazo, mas mesmo assim é algo que eventualmente talvez tenhamos de considerar em relação ao que fazer”, disse Jerome Powell, líder da Reserva Federal, há duas semanas. “Ainda não estamos a enfrentar realmente isso, porque não sabemos quais serão os efeitos económicos, mas teremos certamente em consideração esse contexto mais amplo quando tomarmos uma decisão.”
"O que se ouve falar é de 200 dólares" por barril de petróleo
Na terça-feira, no mesmo dia em que o presidente sugeriu que a guerra pode acabar até ao final de abril, a taxa de juro dos títulos do Tesouro americano a 10 anos ressentiram-se, após vários bancos centrais estrangeiros terem reduzido drasticamente as suas reservas desses títulos para o nível mais baixo desde 2012. Assustados com o impacto da guerra nas suas economias e divisas, países importadores de petróleo como a Índia, a Turquia e a Tailândia estão a vender títulos do governo dos EUA, com alguns bancos centrais a intervir nos mercados cambiais para sustentar as suas moedas – uma medida que, normalmente, envolve a venda de dólares americanos.
Entretanto, o Eurasia Group, que faz consultoria de risco político, fala em 55% de probabilidades de a guerra durar até maio e calcula que, se o Irão continuar a atacar as infraestruturas petrolíferas vizinhas, o preço por barril suba acima dos 150 dólares. “Não há opção política para impedir que os preços do petróleo subam para perto dos 200 dólares por barril se o Estreito de Ormuz permanecer fechado”, diz ao Axios, Jason Bordoff, diretor executivo do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia.
Na semana passada, numa conferência mundial de energia em Houston, no Texas, o historiador económico Daniel Yergin recusou-se a dar previsões específicas, mas assumiu que “o que se ouve falar é de 200 dólares [por barril de petróleo]” se a guerra não terminar em breve. E as reservas de curto prazo que têm ajudado a conter as subidas de preço do petróleo estão a diminuir. “Os navios que escaparam do Estreito de Ormuz antes do início [da guerra] chegaram ao porto”, disse o ex-secretário de Estado dos EUA, John Kerry, na mesma conferência. “Agora estão vazios.”
Na última madrugada, Trump discursou à nação, um discurso antecipado pela CNN internacional citando fonte da Casa Branca no qual o presidente confirmou que pretende pôr fim à guerra num prazo máximo de três semanas. No entanto, há pouco que Trump possa dizer por agora para reverter os danos já causados, em todo o mundo, mas também nos EUA. Como aponta o analista Manuel Serrano à CNN Portugal: “Chegámos a esta lógica em que, mesmo que haja um acordo de paz, um cessar-fogo, o que seja, o Irão vai continuar a ter mais impacto e mais controlo sobre a inflação nos Estados Unidos do que o próprio Donald Trump. Acho que esta ideia é essencial”.