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A guerra no Irão está a mostrar um mundo cada vez mais resistente às exigências de Trump

CNN , Análise de Stephen Collinson
14 abr, 20:04
Presidente dos EUA, Donald Trump (CNN)
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À medida que Donald Trump continua a orientar a guerra contra o Irão através da máxima da força, os líderes iranianos parecem estar cada vez mais dispostos a impor sofrimento ilimitado ao seu povo para vencer uma luta que se tornou existencial. Poderão ser necessários meses para que o bloqueio leve o Irão à submissão e o tempo é um luxo que os candidatos republicanos ao Congresso não têm

As leis de ferro do mundo que regem a presidência de Donald Trump - força, poder e domínio - estão a ser cada vez mais desafiadas, tanto interna como externamente.

Trump e os seus subordinados nunca esconderam a crença na sua própria soberania e a sua disposição para usar o poder americano sem restrições na busca por vitórias económicas, geopolíticas e internas. As suas políticas são uma extensão de uma marca pessoal construída com base no confronto e na escalada de disputas.

Mas uma situação internacional cada vez mais caótica e uma crescente agitação interna sugerem que a metodologia de escalada e coerção do presidente tem limites - e que poderá estar a conduzi-lo até becos políticos sem saída.

A guerra no Irão está a revelar-se o teste definitivo à abordagem de Trump.

Os seus instintos podem ajudar a explicar a decisão de lançar um ataque contra as ambições militares, nucleares e regionais do Irão, algo que presidentes anteriores evitaram fazer. Mas a recusa de Teerão em ceder às exigências de Donald Trump começa a revelar os limites do poder dos Estados Unidos - e do próprio presidente.

Tudo isto deixou Trump perante escolhas difíceis. Podia escalar o conflito para tentar forçar o Irão a cumprir as suas exigências, mas isso poderia fazer subir as baixas americanas e desencadear fortes repercussões económicas. Podia declarar vitória e retirar-se, mas o controlo iraniano do Estreito de Ormuz e a manutenção das suas reservas de urânio enriquecido desmentiriam tal alegação.

Para escapar a esta armadilha, o líder americano escolheu um caminho que combina o poder militar do país com a sua recusa em ceder terreno a um adversário que dá luta. O novo bloqueio do estreito, anunciado por Trump, é uma tentativa de estrangular a economia iraniana, apesar das potenciais consequências graves para os mercados globais de energia.

Uma embarcação no Estreito de Ormuz, ao largo da costa da província de Musandam, em Omã, a 12 de abril. (Stringer/Reuters)

A procura por um desfecho no Irão é a crise mais importante para o presidente. Mas a sua liderança errática na guerra já tinha sido antecipada noutras controvérsias.

Falhou em forçar os aliados da NATO a juntarem-se a uma guerra que não apoiavam e da qual não foram informados previamente. Nem mesmo as suas ameaças de abandonar a aliança convenceram os países a abdicar do que consideram ser os seus próprios interesses nacionais. A falta de adesão custou aos Estados Unidos opções que tiveram ao seu dispor em guerras passadas.

A abordagem brusca de Trump pode funcionar, como quando conseguiu alguns acordos ao recorrer à guerra tarifária contra parceiros comerciais dos EUA. Mas a China, ela própria uma superpotência económica, respondeu, ameaçando cortar exportações críticas de terras raras. Pequim utilizou o potencial de uma guerra comercial para abalar os mercados globais e forçar Trump a recuar.

O Irão parece ter aprendido com esse episódio que os Estados Unidos são vulneráveis a choques na economia global - e fez os possíveis para tirar partido disso ao encerrar o estreito.

A sensação de que parte do poder de Trump está a diminuir vai além do impasse com o Irão. O presidente foi confrontado com os limites do seu magnetismo político após mobilizar o seu movimento para apoiar o antigo primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán. Mas o esforço falhou no domingo, quando os eleitores rejeitaram o líder forte e prejudicaram o projeto de Trump de transformar a Europa numa versão do MAGA.

Tal como aconteceu com o seu homólogo húngaro, algumas das políticas internas de Trump estão a provocar reações negativas. A opinião pública forçou-o a recuar no seu programa de deportações em massa após a morte de dois americanos às mãos de agentes federais no Minnesota no início deste ano. E o fracasso da maioria das suas tentativas de usar a lei para punir adversários políticos - que contribuiu para a demissão da procuradora-geral Pam Bondi - mostra que algumas salvaguardas constitucionais ainda o limitam.

Até o Papa Leão XIV, um americano que irritou o presidente com a sua oposição vocal à guerra no Irão, afirmou na segunda-feira: “Não tenho medo da administração Trump.”

Porque é que Trump acredita que o seu poder é absoluto

Trump nunca escondeu a sua convicção de que detém um poder incontestado. “Eu [tenho] o direito de fazer tudo o que quiser. Sou o presidente dos Estados Unidos”, disse Trump em agosto passado. Ao The New York Times afirmou este ano que a única limitação às suas ações no estrangeiro era “a sua própria moral”.

Essa convicção reflete-se nos momentos em que recusa procurar o contributo do Congresso ou em preparar o país para o combate antes de lançar uma guerra que já dura há seis semanas.

O presidente Donald Trump chega à Casa Branca a 12 de abril. (Matt McClain/Getty Images)

Funcionários da Casa Branca, quando questionados sobre os próximos passos no Irão, respondem frequentemente com variações de “só o presidente… sabe o que vai fazer”, evidenciando uma tendência de rejeição dos princípios de partilha de poder do sistema republicano.

O credo de força e escalada que sustenta o segundo mandato de Trump foi bem explicado pelo vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller.

“Vivemos num mundo, no mundo real… que é governado pela força, que é governado pelo poder, que é governado pelo domínio”, disse Miller à CNN em janeiro, no contexto da euforia na Casa Branca pela captura do líder venezuelano Nicolás Maduro.

As estratégias de domínio de Trump pareciam funcionar melhor no início da sua carreira presidencial. Transformou o Partido Republicano num veículo da sua vontade, que continua relutante em conter os seus impulsos mais extremos, apesar da queda nos índices de aprovação.

A operação das forças especiais que permitiu a captura de Maduro em sua casa, em janeiro, foi um grande sucesso para Trump. E, sob a sua “Doutrina Donroe” de domínio do hemisfério ocidental, também utilizou a sua influência política para ajudar líderes alinhados consigo a vencer eleições na Argentina e nas Honduras.

Como o Irão está a minar a aura de omnipotência de Trump

Mas a sorte de Trump pode ter começado a esgotar-se no Irão.

A guerra começou com uma demonstração de destruição familiar quando comparada a outros conflitos americanos do século XXI, mas rapidamente começou a evidenciar a lição histórica de que uma vantagem esmagadora em poder aéreo, por si só, não garante vitórias inequívocas nem mudanças de regime.

Uma forma de interpretar o bloqueio do estreito conduzido por Trump é comparando-o uma tentativa de restaurar o seu próprio domínio - e o dos Estados Unidos - sobre o Irão, para melhorar as perspetivas de uma solução negociada. Estrangular as receitas petrolíferas e as importações iranianas poderá lançar a sua economia em queda livre. Nesse caso, poderia não ter outra opção senão pedir a paz nos termos de Trump.

Mas uma das lições da guerra é que os líderes iranianos acreditam estar perante uma luta existencial e estão dispostos a impor sofrimento ilimitado ao seu povo. Poderão estar a apostar que Trump não tem tolerância política para preços mais altos do petróleo e da gasolina e para um aumento da inflação num ano de eleições intercalares. Poderão ser necessários meses para que o bloqueio leve o Irão à submissão. O tempo é um luxo que os candidatos republicanos ao Congresso não têm.

Uma incapacidade semelhante de impor resultados está a desenrolar-se na Europa.

O antigo primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán saúda apoiantes em Budapeste durante as eleições gerais na Hungria, a 12 de abril. (Attila Kisbenedek/AFP/Getty Images)

O fim dos 16 anos de governação nacionalista de Orbán priva o movimento MAGA de um modelo que implementou repressões à imigração e à imprensa e que politizou grandes empresas, assim como o sistema judicial. A sua saída priva a administração de um aliado dentro da União Europeia, que Trump despreza. Trata-se de um revés para o vice-presidente JD Vance, que viajou recentemente para a Hungria para apelar aos eleitores que mantivessem Orbán no poder.

E o espetáculo de uma elevada participação eleitoral que rejeitou o populismo e o nacionalismo numa derrota demasiado expressiva para ser negada poderá preocupar a Casa Branca.

Mas há também lições para os democratas americanos. O resultado de domingo esteve longe de ser uma vitória de valores progressistas de esquerda. O candidato vencedor, Péter Magyar, é ele próprio um líder de centro-direita que foi anteriormente leal a Orbán. E, a menos que consiga ultrapassar a tendência dos líderes democráticos europeus e resolver problemas económicos e nos serviços de saúde, o populismo poderá continuar a ser uma força poderosa.

Num sentido mais amplo, o eclipse de Orbán sugere que o culto da liderança autoritária - pelo menos numa sociedade quase democrática - não consegue superar indefinidamente correntes políticas fortes e os desgastes do exercício do poder.

A convicção de Trump de que detém um poder sem restrições nunca teve fundamento na Constituição nem na tradição política americana. E o desgaste inevitável inerente aos segundos mandatos presidenciais poderá enfraquecê-lo ainda mais, precisamente quando o Irão está a desafiar externamente a sua aura de líder forte.

Mas isso levanta outra questão difícil: o que poderá ele fazer para provar que o seu poder não está a diminuir?

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