Chefe das vacinas de Trump liga a vacina da Covid à morte de crianças nos EUA e pede um travão nos ensaios. Mas será que é mesmo assim?

30 nov, 11:01
Robert F. Kennedy Jr. Donald Trump

Um memorando interno e confidencial da FDA afirma que uma revisão de casos ligou a vacina da Covid-19 à morte de pelo menos dez crianças nos Estados Unidos e defende mudanças profundas na forma como os ensaios e aprovações de vacinas são feitos. No entanto, os especialistas em saúde pública contestam as conclusões e pedem acesso aos dados antes de se tirarem ilações: "Esta foi uma forma irresponsável de lidar com um tema crítico como a vacinação". O secretário da Saúde de Trump, Robert F. Kennedy Jr., tem promovido várias teorias da conspiração sobre vacinação, sempre desmentidas pela comunidade científica

O texto é assinado por Vinay Prasad, director da divisão de vacinas da FDA (Food and Drug Administration, na sigla em inglês), e circulou entre funcionários esta sexta-feira. Nele, Prasad descreve a descoberta como uma “revelação profunda” e escreve que, pela primeira vez, a FDA irá reconhecer que vacinas contra a Covid-19 “mataram crianças americanas”, atribuindo as mortes a casos de miocardite.

O memorando não identifica as idades, eventuais doenças pré-existentes ou o fabricante das vacinas em causa, nem explica como foi estabelecida a relação causal, e as conclusões não foram publicadas em revista científica, o que alimenta a desconfiança de críticos das políticas do secretário da Saúde, Robert F. Kennedy Jr., conhecido pelas posições contra a vacinação (e que tem defendido repetidamente diversas teses desmentidas pela comunidade científica e promovido teorias da conspiração sobre alegadas ligações entre vacinas, autismo e figuras como Anthony Fauci ou Bill Gates) apesar do consenso científico de que as vacinas são seguras e salvam vidas.

No mesmo documento, Prasad diz que vai propor uma reformulação profunda da supervisão da FDA, a agência do Governo dos EUA que avalia e autoriza medicamentos e vacinas. Quer que os ensaios que comparam vacina e placebo incluam todos os subgrupos, como as grávidas; que o processo anual de ajuste das vacinas da gripe à estirpe em circulação seja revisto, depois de o classificar como uma “catástrofe de evidência de baixa qualidade”; e que as farmacêuticas sejam obrigadas a fazer estudos maiores antes de promoverem a toma em conjunto de vacinas, como a da gripe e a da Covid.

Para vacinas como as da pneumonia, já não bastaria provar geração de anticorpos e seriam exigidos dados de redução efectiva de casos.

As mudanças, se avançarem, vão encarecer e prolongar o desenvolvimento de vacinas e chegam numa altura em que a equipa de Kennedy já restringiu o acesso às doses da Covid a pessoas com mais de 65 anos e a alguns grupos de risco, ao mesmo tempo que chama à revisão imunizações usadas há décadas.

Vários especialistas ouviram o alarme. Citado pelo The New York Times, Michael Osterholm, epidemiologista da Universidade do Minnesota e crítico da nova linha da tutela, considerou que fazer afirmações desta gravidade por via de um memorando não escrutinado é “uma forma irresponsável de lidar com um tema crítico como vacinação e efeitos adversos”.

Por sua vez, Paul Offit, pediatra e especialista em vacinas do Hospital Infantil de Filadélfia, disse ver no documento um exemplo de ciência “por comunicado” e notou que falta contexto básico, como o número de mortes por Covid entre crianças vacinadas e não vacinadas. Offit lembra que os casos de miocardite associados à vacina que chegaram ao hospital foram, em geral, ligeiros e de resolução rápida, ao contrário dos quadros graves de inflamação cardíaca provocados pelo próprio vírus, que levaram crianças à unidade de cuidados intensivos.

O memorando chega na véspera de uma reunião do comité de vacinas dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC), agora com membros indicados por Kennedy e alinhados com a chamada comunidade da “liberdade médica”, que se opõe a mandatos de vacinação e questiona o calendário infantil.

Vinay Prasad também aproveita o texto para criticar a administração Biden, acusando as obrigações de vacinação em escolas e locais de trabalho de terem “coagido” as pessoas a receber vacinas que “podem resultar em morte”, e para censurar técnicos da própria FDA que discordam do rumo da divisão e terão feito chegar informação ao exterior, chegando a indicar-lhes o caminho para apresentar a demissão.

O antecessor de Prasad, Peter Marks, disse ter ficado surpreendido com o “tom claramente político” da comunicação e admite que os casos de morte merecem ser abertos ao escrutínio, mas antecipa que muitas das atribuições poderão ser “discutíveis”, pela complexidade clínica dos dossiês.

Durante as fases mais agudas da pandemia, em 2020 e 2021, a Covid-19 esteve associada a cerca de 375 mil mortes nos Estados Unidos só no primeiro ano e a mais de 460 mil no segundo, ajudando a empurrar o total de óbitos para acima de um milhão de pessoas, segundo dados dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças e estimativas compiladas pela Organização Mundial da Saúde.

Foi também nesse período que Donald Trump, então Presidente, insistiu em comparar o novo coronavírus a uma gripe sazonal, minimizou repetidamente o risco em público — mesmo depois de admitir em entrevistas gravadas com o jornalista Bob Woodward que sabia tratar-se de um vírus “mais mortal do que a gripe mais forte” — e chegou a sugerir em conferência de imprensa o uso de desinfectante “dentro do corpo”, posições que mereceram rectificações urgentes de especialistas e alertas por desinformação sobre saúde pública.

Houve muita contestação política, processos contra departamentos federais e discussões sobre se deveria haver responsabilidade criminal, mas nenhum tribunal chegou a acusar ou julgar Trump, pessoalmente, pela forma como geriu a pandemia.

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