Com a sua consideração pelo líder norte-coreano, o presidente americano colocou um adversário nuclear dos EUA acima de um aliado de longa data. Para Donald Trump, já enfraquecido no palco mundial pela guerra em curso com o Irão, trata-se de mais um erro autoinfligido, avisam especialistas
Ao reduzir repentinamente a dimensão dos exercícios militares com a Coreia do Sul, o presidente dos EUA, Donald Trump, corre o risco de contrariar o seu próprio objetivo de fazer com que Seul assuma maior responsabilidade pela sua própria defesa.
Os exercícios anuais Ulchi Freedom Shield, que envolvem dezenas de milhares de militares, foram reduzidos para metade a pedido de Washington, depois de Trump ter afirmado no passado fim de semana que os exercícios antagonizavam o seu amigo, o líder norte-coreano Kim Jong-un, além de custarem muito dinheiro aos EUA.
Estes exercícios “enviam um sinal que é totalmente inadequado e hostil”, escreveu Trump, no domingo, na Truth Social, naquela que pareceu ser uma tentativa de apaziguar o reservado Kim, com quem Trump está ansioso por voltar a reunir-se.
A parte do “hostil” é difícil de conciliar com a natureza defensiva dos exercícios e é surpreendentemente semelhante à forma como os meios de comunicação estatais norte-coreanos têm descrito as manobras. Washington e Seul afirmaram repetidamente que estas se destinam à dissuasão e à defesa, e não à tomada de território a norte da zona desmilitarizada que divide as duas Coreias desde o armistício de 1953.
No âmbito dos exercícios militares existe um treino destinado a dar à Coreia do Sul algo que não possui desde o início da Guerra da Coreia, em 1950: o controlo operacional, em tempo de guerra, das forças combinadas sul-coreanas e norte-americanas na península, salientam os analistas.
É um objetivo fundamental para ambos os países. Assim que Seul demonstrar que consegue assumir essa responsabilidade, Washington poderá assumir um papel secundário num eventual conflito futuro, fornecendo algum poder de fogo, mas deixando a Coreia do Sul assumir a maior parte da responsabilidade e dos custos da sua defesa.
O atual sistema de controlo surgiu pouco depois do início da Guerra da Coreia, quando a Coreia do Sul entregou o comando das suas forças a Washington, que - estando muito melhor equipada e tendo mais experiência - estava mais preparada para lidar com a ameaça comunista na linha de divisão.
O controlo das tropas sul-coreanas foi assumido pelo Comando das Nações Unidas e, em 1978, pelo Comando das Forças Combinadas (CFC), que sempre foi liderado por um general norte-americano.
O CFC devolveu a Seul, em 1994, o controlo operacional das forças sul-coreanas em tempo de paz, mas o controlo em tempo de guerra permaneceu com Washington. Os apelos à mudança e os prazos para concretizá-la foram adiados várias vezes desde então, mantendo um status quo que já não é necessário.
Nos últimos anos, a Coreia do Sul tornou-se numa potência militar de nível mundial - não exatamente ao nível dos EUA ou da China, mas certamente capaz de se defender contra a Coreia do Norte.
Invocando essa capacidade, o presidente sul-coreano Lee Jae Myung aproveitou na terça-feira o início dos exercícios deste ano para tentar dar um novo impulso a uma promessa eleitoral que fez em 2025: devolver a Seul o controlo operacional em tempo de guerra até 2030.
“Do ponto de vista dos sistemas de armas e do poderio militar, as nossas capacidades de defesa já estão entre as melhores do mundo. Não é exagero dizer que somos mais do que capazes”, afirmou Lee na terça-feira.
Mas Trump veio complicar as coisas.
O plano consistia em utilizar os exercícios Ulchi Freedom Shield para avaliar os sistemas, de modo a que Seul pudesse assumir o controlo operacional em tempo de guerra, escreveu Yu Ji-hoon, investigador do Korea Institute for Defense Analyses, no The Diplomat.
“Uma grande alteração de última hora poderia, portanto, afetar mais do que a prontidão; poderia complicar um projeto de aliança que os próprios EUA têm incentivado há muito tempo”, escreveu Yu.
“Reduzir os exercícios, especialmente sem uma discussão prévia, torna mais difícil concretizar a partilha de encargos, mesmo quando Washington exige mais dessa partilha”, afirmou.
Lee Jeong-kyu, investigador convidado do Sejong Institute da Coreia do Sul, escreveu no início deste ano que a ideia de a Coreia do Sul ter um controlo maior estava a ganhar força, algo que ficou estabelecido claramente na Estratégia de Defesa Nacional dos EUA publicada em janeiro.
O documento constituiu “um sinal claro da intenção de reforçar a partilha de encargos dentro da aliança, que deverá fornecer fundamentos para acelerar as condições para a transferência do controlo operacional”, escreveu Lee.
Com a sua consideração por Kim Jong-un, Trump colocou um adversário nuclear dos EUA acima de um aliado, ao abrigo de um tratado, que quer fazer aquilo que Trump lhe pediu.
Isso mantém as forças norte-americanas ocupadas com responsabilidades na península, numa altura em que poderão ser urgentemente necessárias num local como o Irão ou em possíveis conflitos futuros, tanto na Ásia como noutras partes do mundo. E significa que os futuros orçamentos de defesa não podem contar com poupanças de custos na Coreia, numa altura em que a procura por novas armas só está a aumentar.
A Coreia do Sul tem sido há muito um aliado próximo dos Estados Unidos. Desde o fim da Guerra da Coreia, os dois países mantêm um tratado de defesa mútua destinado principalmente a proteger o Sul das ações da Coreia do Norte.
Mas a relação pessoal de Trump com Kim - que expandiu significativamente as capacidades militares do seu país desde o primeiro mandato de Trump e que se acredita agora possuir dezenas de ogivas nucleares - colocou à prova a parceria de longa data.
Por sua vez, a Coreia do Norte não respondeu positivamente à nova abertura de Trump. A poderosa irmã de Kim, Kim Yo Jong, uma importante dirigente, afirmou que a redução da dimensão dos exercícios não altera “a sua natureza provocadora e ofensiva” e que não deve ser vista como uma “medida de boa vontade”.
Antes de a notícia da redução dos exercícios ser divulgada na manhã de quarta-feira, os meios de comunicação estatais norte-coreanos KCNA classificaram os exercícios como “a ameaça mais imediata e aberta” a Pyongyang e à segurança regional.
A intervenção repentina de Trump parece estar a obrigar a repensar algo que vai muito além dos próprios exercícios, tendo os chefes militares de Seul afirmado na quarta-feira que os dois lados terão agora de discutir “a postura de defesa conjunta daqui para a frente”.
Para o presidente norte-americano, já enfraquecido no palco mundial pela guerra em curso com o Irão, trata-se de mais um erro autoinfligido, afirmaram os analistas.
“As poupanças de custos resultantes da redução dos exercícios são marginais, enquanto os benefícios diplomáticos para as relações com a Coreia do Norte são duvidosos”, afirmou Leif-Eric Easley, professor na Universidade Ewha, em Seul.
Não está claro aquilo que Trump poderá querer alcançar ao voltar a reunir-se com Kim. No seu primeiro mandato, não conseguiu pressionar o líder norte-coreano a abandonar as suas ambições nucleares, que apenas aumentaram. Entretanto, Kim aproximou-se da Rússia e da China.
Donald Trump poderá considerar que reduzir os exercícios é “não ameaçador e respeitoso”, mas a Coreia do Norte tornou-se numa potência militar muito mais forte na década que passou desde que Trump assumiu pela primeira vez a Presidência.
“Reduzir os exercícios pode prejudicar a coordenação dentro da aliança, atrasar o processo de a Coreia do Sul assumir maior responsabilidade pela sua própria defesa e enfraquecer a dissuasão contra possíveis conflitos na Ásia”, alertou Easley.
