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Nesta festa, toda a gente tem a mesma altura

CNN , Lily Hautau
10 mai, 11:00
Nesta festa, os convidados usaram sapatos personalizados que os tornaram todos com 1,95 metros de altura. Lucian Novosel

 

 

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Uma festa experimental nos EUA colocou todos os participantes à mesma altura através de sapatos personalizados. O resultado foi uma experiência social e psicológica que alterou perceções de confiança, interação e espaço, revelando como a altura influencia o comportamento humano

Com quase 1,57 metros de altura, raramente consegui alcançar as prateleiras mais altas na biblioteca ou na minha cozinha sem um banco, se é que conseguia. Num concerto, no meio de uma multidão, percebi rapidamente que a zona em pé não era para mim, porque tudo o que via ao olhar em frente eram as costas das pessoas.

Sempre me perguntei como mudaria a minha perspetiva e confiança se tivesse a altura do meu pai, que mede 1,93 metros. Ou se fosse apenas alguns centímetros mais alta do que sou, sem ter de usar saltos que me fazem doer os pés e que, mesmo assim, só me dão uns poucos centímetros — se tanto.

Depois surgiu a festa da mesma altura: um evento construído em torno de uma ideia simples, ligeiramente louca de que toda a gente na sala, independentemente da altura real, podia ficar ao mesmo nível dos olhos.

A ideia remonta ao artista alemão Hans Hemmert, que criou “Level” em 1997.

A sua instalação artística participativa é conhecida por usar calçado de plataforma personalizado para igualar a altura dos participantes, transformando uma diferença física em algo de que se pode entrar e sair.

Décadas depois, Lucian Novosel organizou a sua própria festa da mesma altura num espaço artístico de estilo industrial em Oakland, com cerca de 15 pessoas. Novosel tem fama entre os amigos de criar projetos que parecem loucos até serem vistos. Um desses projetos foi um alimentador de roedores em tamanho humano e outro um cavalo de origami em tamanho real. Com um novo objetivo, decidiu recriar esse efeito de “nivelamento” como uma experiência social usável. Este é um projeto que gostaria de ter vivido pessoalmente, mas falei com Novosel e alguns convidados sobre a experiência.

Não se tratava apenas de “fazer sapatos altos” para tornar as pessoas mais altas. Queria perceber como colocar o amigo mais baixo — cerca de 1,50 metros — ao nível dos olhos do mais alto — cerca de 1,96 metros. Novosel usou o amigo mais alto, Spencer, que preferiu não divulgar o apelido por razões de privacidade, como referência: “Sei quem é o mais alto que vai, agora todos os outros terão de ter sapatos feitos à medida”, disse.

E assim criou a sua versão com uma impressora 3D.

Como fazer com que todos tenham a mesma altura

Bengalas ajudaram os participantes a manter o equilíbrio ao caminhar com maior altura. Os convidados tinham alturas muito variadas, assim como diferentes ligações a Novosel. Para alguns, era a primeira vez que se encontravam. Lucian Novosel

Novosel começou meses antes da festa, porque o efeito de nivelamento só funcionava se os cálculos e os materiais resistissem ao uso real, sendo que precisava de tempo para criar protótipos e garantir que conseguia construir plataformas seguras antes de convidar amigos.

Cerca de três meses antes, o evento começou a ganhar forma. Definiu a lista de convidados, recolheu medidas e garantiu um espaço adequado à estabilidade. “Foi difícil”, explicou — em parte porque uma lista de convidados em mudança pode significar refazer sapatos do zero — por isso fechou a lista com cerca de três meses de antecedência.

Depois foi altura de recolher dados. Aos convidados foi pedido que indicassem a altura descalços, o número de sapato e a altura do calçado habitual. Seguiu-se a construção dos sapatos, que demorou quase quatro semanas de corte, empilhamento e reforço. Novosel utilizou placas de espuma rígida de 2,5 cm para construir plataformas que alargavam progressivamente em direção ao chão.

A forma piramidal não foi pensada pela estética, mas sim pelo equilíbrio, para evitar oscilações. “Imagine um elefante a caminhar numa área muito pequena”, explicou Novosel. “Não vai funcionar.”

Utilizou suportes personalizados impressos em 3D e abraçadeiras na montagem, mantendo o modelo adaptável a vários tamanhos de calçado.

Recomendou a marca “Pink Panther” de espuma rígida para quem quiser recriar o projeto, bem como lâmina térmica e máscara respiratória para cortar o material.

Os sapatos mais altos? 45 centímetros.

Mesmo quando os sapatos resolviam a diferença de altura, o equilíbrio continuava a ser um desafio. Quanto maior a elevação, mais o centro de gravidade muda, podendo causar dificuldades de coordenação, pelo que criou bengalas de apoio. Para uma versão económica, sugeriu tábuas de madeira de cerca de 2,5 metros com fita na pega, ou bastões de caminhada. Também aconselhou marcar obstáculos com fita de sinalização e escolher espaços sem escadas.

De pé na festa

Os participantes jogaram jogos para testar como a nova altura afetava o equilíbrio e a coordenação. Lucian Novosel

Matilde Miranda, a segunda pessoa mais baixa no evento, com 1,57 metros, disse que conhecia Novosel através do dodgeball. Na festa, tinha cerca de 30 centímetros adicionais, espuma debaixo dos pés e uma bengala na mão.

Novosel considera as bengalas essenciais para quem quiser recriar o conceito. Já Miranda disse que se sentia como Gandalf (de “O Senhor dos Anéis”).

“É uma sensação muito diferente porque normalmente estou a olhar para cima para falar com as pessoas em eventos ou festas”, referiu. “Nunca fui tão alta na minha vida.”

Os primeiros minutos da festa centraram-se na reajustagem — qual deve ser a amplitude das curvas, como posicionar cuidadosamente o pé, como o corpo hesita antes de confiar no apoio que tem por baixo. Miranda disse que o grupo também aproveitou esse início para se orientar: testando passos, transferindo o peso e aprendendo a andar com a bengala antes que a sala enchesse.

Assim que o ambiente ficou mais tranquilo, começou a parte social: o estranho alívio de falar com alguém sem ter de esticar o pescoço, a novidade de olhar em frente e cruzar o olhar com o da outra pessoa, em vez de com o queixo dela.

Os convidados participaram em jogos e testaram o que os seus corpos eram capazes de fazer com a nova altura. Agachavam-se para apanhar algo com os dentes e depois voltavam a levantar-se, um movimento que se tornou um desafio de equilíbrio. Numa versão do jogo, os convidados revezavam-se a agachar-se para apanhar um saco de papel ou uma caixa com os dentes. Se todos conseguissem, a caixa ficava mais baixa para a ronda seguinte, enquanto os outros participantes ficavam por perto para apanhar quem vacilasse. A certa altura, os convidados também jogaram bilhar, reaprendendo a sua postura a partir de um novo ponto de vista, contou a convidada Xitlalli Zavala, que mede 1,63 m.

Spencer, a pessoa mais alta do grupo, disse que estava habituado a andar por aí um pouco mais alto do que a maioria. No liceu, passou de 1,73 m para a sua altura atual de 1,96 m em cerca de um ano, contou ele. “De repente, fiquei muito alto e magro e sentia-me desconfortável por me destacar tanto.” 

Na festa, essa pressão desapareceu de uma forma que não esperava.

“Senti que me misturava”, disse. Normalmente tenta “parecer mais baixo”, chegando mesmo a alargar a postura para se colocar mais próximo do nível dos olhos das outras pessoas. Aqui, não precisou de fazer esse ajuste. “Foi muito bom não ter de estar atento à minha altura.”

Esse alívio não foi exclusivo dos mais altos.

Miranda disse que só conhecia duas pessoas, mas o formato ajudou a quebrar o gelo. A determinada altura, os convidados alinharam-se por altura e o calçado tornou as diferenças visíveis de uma nova forma.

Quando a perspetiva muda

Os participantes usaram sapatos com correias ajustáveis para diferentes tamanhos. Lucian Novosel

Zavala descreveu o momento em que a sua perspetiva mudou como “Uau, é assim que as outras pessoas vêem o mundo”, afirmou. Zavala contou que foi acompanhante de uma amiga e que, no início, estava nervosa porque não conhecia as outras pessoas presentes, mas o formato serviu imediatamente para quebrar o gelo. 

Durante o evento, recordou que alguns homens mais altos tiraram os sapatos de plataforma para experimentar o ângulo oposto, alternando entre pontos de vista e comparando as sensações.

“Consigo perceber por que razão as pessoas mais altas podem sentir-se mais confiantes ao ver o mundo daquele ponto de vista”, comentou Zavala. “Mas também compreendo que possa ser um incómodo, porque é preciso inclinar-se um pouco mais para baixo para agarrar alguma coisa.”

O seu momento favorito foi a fila — ver a altura dos sapatos aumentar ao longo da fila.

Novosel organizou a noite com foco na segurança, começando por alugar um espaço muito plano para que as pessoas pudessem conviver sem escadas e, em seguida, assinalando potenciais riscos de quedas. Para o anfitrião, toda a premissa tinha uma vertente psicológica, além da técnica.

O organizador descreveu a elevação repentina — 20 centímetros, 30 centímetros — como uma «sensação de poder». As pessoas começam a esbarrar nas coisas e a ocupar o espaço de forma diferente. Novosel disse que está curioso para saber como a atração e a confiança mudam quando todos são forçados, por algumas horas, a ter uma linha de visão comum.

Depois da festa, os sapatos continuaram a viver: alguns foram oferecidos a um professor em Berkeley e outros foram doados para que pudessem ser reutilizados.

"A parte mais fixe dos sapatos é que a abordagem de plataforma permite que sejam combinados de forma a que outras pessoas os possam usar", afirmou.

Como organizar uma festa da mesma altura

Os participantes usaram sapatos personalizados para ficarem ao nível do mais alto, com 1,96 metros. Lucian Novosel

Todos tinham algo em comum: gostariam de repetir a experiência. Novosel deixou algumas recomendações:

Começar cedo: fechar a lista de convidados com pelo menos três meses de antecedência.

Recolher medidas: altura descalço, número de sapato e altura do calçado habitual. O Novosel partilhou esta folha de cálculo para ajudar.

Planear recursos: cerca de 25 dólares em materiais por convidado e mais de uma hora por par (muitas vezes mais, no caso de ajustes personalizados).

Materiais/ferramentas: espuma de 2,5 cm de espessura, espaço para guardar e trabalhar numa folha de 100 x 200 cm, lâmina térmica e máscara respiratória.

Design que privilegia a estabilidade: alargue em direção à base (por exemplo, 14 cm de largura na parte superior, aumentando gradualmente até 21,5 cm na parte inferior) e mantenha a parte inferior em forma de pirâmide para reduzir o risco de queda.

Equipamento de segurança para os convidados: forneça bastões para caminhar. Novosel sugere bastões de 2,4 metros com punhos isolados com fita adesiva; assinale claramente os riscos de queda.

Escolha o local certo: pisos planos, sem escadas. 

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