Enquanto Trump acusa a China de roubar dados dos eleitores, Xi Jinping apresenta Pequim como um líder tecnológico responsável

CNN , Análise de Simone McCarthy
17 jul, 17:13
O líder chinês Xi Jinping participa na cerimónia de abertura da Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em Xangai, no dia 17 de julho (Pool/Getty Images)
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Esta é a tecnologia que promete mudar o mundo. E, logo, a relação entre duas grandes potências mundiais

Enquanto o presidente norte-americano, Donald Trump, acusava Pequim de explorar dados eleitorais norte-americanos, num discurso em Washington transmitido pelas televisões, do outro lado do mundo, na China, Xi Jinping transmitia uma mensagem bem diferente.

Pequim é um líder global responsável, empenhado em moldar o futuro da tecnologia para o bem, declarou o presidente chinês a centenas de executivos da área tecnologia, investigadores e outras figuras da indústria que se reuniram em Xangai esta sexta-feira para a abertura da principal cimeira de inteligência artificial (IA) da China.

“Com a IA a avançar a uma velocidade impressionante, devemos garantir que o seu desenvolvimento é positivo, para o bem e para a humanidade”, afirmou Xi Jinping no seu discurso de abertura da conferência. “Devemos tornar a supervisão e governação da IA precisas e eficazes, e melhorar constantemente as medidas para evitar a perda de controlo”.

Xi Jinping falava minutos depois de Trump ter apresentado uma série de acusações contra o governo chinês, incluindo a de que este teria adquirido ilicitamente 220 milhões de registos de eleitores norte-americanos, no âmbito de um esforço mais amplo para influenciar as eleições nos EUA. A China nega estas acusações.

A justaposição destas duas mensagens dá destaque às crescentes fissuras e ansiedades dentro da competição tecnológica entre os EUA e a China, que o rápido avanço da IA ​​só está a aprofundar.

A mensagem do presidente chinês – que é uma clara tentativa de o seu país liderar a definição das regras globais em torno da IA ​​​​– surge num momento de acirrada competição entre os EUA e a China pela tecnologia, bem como de intensa preocupação com as suas implicações para a segurança nacional, incluindo a capacidade de a IA explorar vulnerabilidades de programas e bases de dados.

No seu discurso, Xi Jinping rebateu as críticas de que “se extrapola o conceito de segurança nacional no domínio da IA” ou de que "se coloca a segurança de um país acima da segurança de outros" – alusões veladas à forma como Pequim vê a abordagem americana em relação a esta tecnologia.

Em vez disso, a China tem procurado promover a mensagem de que a tecnologia deve ser um "bem público global" e de que está disposta a trabalhar com os países para a desenvolver em conjunto.

Na véspera da conferência, a China lançou a sua Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial (WAICO, na sigla inglesa), um grupo de 29 países que inclui a Rússia, a Indonésia e o Paquistão, aliados da China e dos seus objetivos.

“Xi Jinping vê a IA como uma oportunidade para conseguir mais aliados na competição contra os EUA, não só na tecnologia de IA, mas também nas relações internacionais – isto é, na diplomacia da IA”, diz George Chen, presidente da área de prática digital da consultora The Asia Group, com sede em Hong Kong.

A China sente que perdeu a oportunidade de definir as regras para o desenvolvimento global da internet nas últimas décadas, acrescenta. A chegada da IA ​​coloca-a, todavia, numa posição muito mais forte.

“Há trinta ou quarenta anos, a China era um país muito pobre, mas toda a gente sabe que isso hoje está diferente. E, se a IA é a nova internet, a China não quer perder essa oportunidade outra vez”.

 

Um visitante posa para uma fotografia em frente a um cartaz que mostra um robô humanoide na Exposição Internacional da Cadeia de Abastecimento da China, em Pequim, no mês passado (Kevin Frayer/Getty Images)

Corrida acirrada

É amplamente reconhecido que as empresas americanas estão numa corrida para alcançar a vanguarda da tecnologia - é a sua estratégia central para vencer a concorrência. Os modelos americanos detêm ainda, em grande parte, a liderança em termos de capacidades, assim como no equipamento utilizado para os treinar e melhorar.

Ainda assim, a diferença está a diminuir. E quando se trata de vencer a corrida da IA, Pequim aposta numa estratégia diferente: aplicar e ampliar a tecnologia de IA na robótica e na automação, bem como a sua adoção em larga escala a nível global, dizem os especialistas.

As empresas chinesas de inteligência artificial, como a DeepSeek e a Zhipu, deram grandes passos para reduzir as suas diferenças de desempenho em relação às empresas americanas.

As empresas chinesas representavam, em maio, 20 dos 50 modelos de inteligência artificial com mais acessos diários no OpenRouter, uma plataforma que permite aos utilizadores interagir com uma grande variedade de modelos. É uma subida face aos cinco modelos que se registavam no início de 2025, segundo uma análise da Our World In Data. Nas restantes empresas, a maioria é americana.

Nos últimos meses, Washington vem alegando que as entidades chinesas estavam a envolver-se em "campanhas deliberadas à escala industrial para destilar a inteligência artificial de ponta dos EUA", referindo-se a um processo pelo qual um modelo mais pequeno se baseia num modelo maior para melhorar as suas próprias capacidades.

No início deste mês, um regulador chinês alertou ter identificado um sério risco existir uma “porta das traseiras” na ferramenta Claude Code, da empresa norte-americana Anthropic. A Anthropic afirmou que a chamada “porta das traseiras” se tratava de um mecanismo experimental para rastrear o uso indevido da sua plataforma e que o acesso à mesma não era permitido na China.

Em Washington, existem também preocupações profundas de que os agentes estrangeiros possam utilizar modelos de IA avançados para encontrar e explorar vulnerabilidades de cibersegurança na infraestrutura crítica dos EUA. A Casa Branca lançou, no início desta semana, uma iniciativa para lidar com estas preocupações.

Pequim está também a explorar a possibilidade de restringir o acesso estrangeiro aos modelos de IA mais avançados da China, como noticiou a Reuters no início deste mês, citando fontes ligadas ao processo.

Ambos os países concordaram iniciar um diálogo sobre IA após a cimeira de maio entre Trump e Xi Jinping, em Pequim.

O ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, conversa com outros responsáveis durante a cerimónia de assinatura do acordo da Organização Mundial de Cooperação em matéria de Inteligência Artificial, a 16 de julho (Ng Han Guan/Pool/Reuters)

Estabelecer normas

A crescente presença global dos modelos de IA chineses pode contribuir para as ambições da China em liderar a proliferação e a regulamentação desta tecnologia.

A conferência em Xangai demonstra tanto a extensão como as limitações do seu alcance, com uma participação restrita de empresas americanas, apesar daquilo a que os meios de comunicação estatais chamaram de público recorde no evento deste ano.

Entre os participantes na conferência de quatro dias em Xangai, estiveram o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, nove laureados com o Prémio Nobel e vencedores do Prémio Turing de Computação, bem como mais de mil empresas globais, anunciaram os organizadores.

Esta foi a primeira vez que Xi Jinping participou no evento principal desde que este foi lançado em 2018 - um sinal claro da importância que Pequim atribui à IA e da crescente competição com os EUA para liderar o seu futuro.

Os analistas ocidentais têm manifestado preocupação com o facto de Pequim estar a assumir um papel crescente na definição de normas globais em torno da IA, ​​permitindo ao país exportar as normas do seu próprio ambiente mediático e de internet, que é altamente restritivo.

Além disso, existem dúvidas sobre quanto interesse global conseguirá Pequim gerar no seu novo organismo internacional, a WAICO.

Segundo Paul Triolo, sócio da consultora DGA-Albright Stonebridge Group, em Washington, é improvável que um grande país ocidental venha a integrar uma organização controlada pela China, que, provavelmente, terá um mandato alargado para a promoção da IA, bem como a governação e segurança da mesma.

“Para os EUA, a principal ação passará por construir um diálogo bilateral credível com Pequim em torno da governação de modelos de IA de ponta”, nota.

“Os dois lados têm de lidar com desafios burocráticos complexos em torno desta questão - e com a profunda desconfiança mútua”.

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