Diretores do FBI e MI5 juntam-se para um aviso conjunto (e sem precedentes) sobre a China

7 jul, 16:19
O diretor-geral do MI5, Ken McCallum, à esquerda, e o diretor do FBI, Christopher Wray  (Dominic Lipinski/PA via AP)

Pela primeira vez, os dois diretores da polícia federal norte-americana e dos serviços secretos britânicos partilharam a mesma plataforma pública, em Londres

Os diretores do FBI e do MI5 deram esta quinta-feira uma conferência de imprensa conjunta sem precedentes para alertar para a espionagem chinesa no Ocidente, classificando o governo de Pequim como "a maior ameaça" para a segurança mundial.

"Temos visto consistentemente que o governo chinês representa a maior ameaça à nossa segurança económica e nacional - e por 'nossa' quero dizer as nossas duas nações [EUA e Reino Unido], bem como os nossos aliados na Europa e noutras regiões do mundo", assinalou o diretor da agência federal norte-americana, Christopher Wray, num discurso em Londres, na sede do MI5, ao lado do diretor dos serviços secretos britânicos, Ken McCallum.

Dirigindo-se aos líderes empresariais, Wray advertiu que o governo chinês "procura roubar a vossa tecnologia, seja o que for que impulsione a sua indústria, e utilizá-la depois para minar o vosso negócio e dominar o vosso mercado".

Por sua vez, Ken McCallum garantiu que o serviço de inteligência britânico está cada vez mais atento aos passos do governo chinês, estando atualmente a fazer "sete vezes mais investigações do que há quatro anos", numa estratégia que deverá ser alargada à medida que a ameaça se for tornando maior.

Salientando que esta é a primeira vez que os dois diretores do serviço de inteligência britânico e da polícia federal norte-americana partilham a mesma plataforma pública, McCallum reforçou que o governo chinês e a sua "pressão secreta em todo o mundo" representam mesmo "o desafio mais revolucionário que o mundo alguma vez enfrentou.

"Isto pode parecer abstrato. Mas é real e urgente. Precisamos de falar sobre isto. Precisamos de agir", defendeu, citado pelo The Guardian.

China acusa EUA de "espalharem mentiras"

Em comunicado enviado à Associated Press, um porta-voz da embaixada chinesa em Washington, Liu Pengyu, rejeitou as alegações dos diretores do FBI e MI5, considerando as acusações infundamentada e assegurando que a China "opõe-se firmemente contra todos os ataques cibernéticos". 

"Nunca encorajaremos, apoiaremos ou toleraremos ataques cibernéticos", sublinha no texto.

Mais tarde, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Zhao Lijan, foi questionando pelos jornalistas durante um briefing sobre as declarações do responsável pela segurança dos EUA em específico, ao que respondeu que aquele funcionário "relevante" dos EUA [Christopher Wray] está a "jogar com a chamada ameaça da China", aproveitando-a para "difamar e atacar" o país.

"Os factos provam que os EUA são a maior ameaça à paz mundial, à estabilidade e ao desenvolvimento. Pedimos a este funcionário dos EUA que assuma a perspetiva correta, que observe os desenvolvimentos da China com um olhar objetivo e razoável e que pare de espalhar mentiras e de fazer comentários irresponsáveis", apontou.

A ameaça da invasão de Taiwan

Durante o discurso em Londres, os dois funcionários chamaram também a atenção para as consequências de uma eventual invasão da China a Taiwan, considerada por Pequim uma província separatista que deveria voltar ao domínio chinês. Desde logo, as consequências desastrosas para a economia mundial, acrescentou Christopher Wray, frisando que qualquer avanço de Pequim sobre Taiwan "representaria uma das mais horríveis interrupções nos negócios que o mundo já viu".

Questionado sobre se a invasão de Taiwan será agora mais provável tendo em conta a invasão russa da Ucrânia, o diretor da polícia federal norte-americana admitiu não ter "nenhuma razão para pensar que o interesse dos chineses em Taiwan tenha diminuído de forma alguma", mas disse esperar que a China já tenha aprendido a lição com a Rússia, que está cada vez mais isolada do resto do mundo a todos os níveis, da política à economia.

Na semana passada, a responsável pela inteligência dos Estados Unidos, Avril Haines, disse que não havia indicações de que o presidente chinês, Xi Jinping, estava prestes a tomar Taiwan através da força militar. Mas acrescentou depois que o chefe de Estado chinês parecia estar a "perseguir o potencial" para tomar tal ação como parte de um objetivo mais amplo de reunificação do país com Taiwan.

Em maio, o presidente norte-americano, Joe Biden, garantiu que os EUA iriam responder militarmente se China invadisse Taiwan, com uma das declarações mais contundentes da Casa Branca em apoio ao governo de Taiwan em décadas. As declarações foram de tal forma fortes que, mais tarde, a Casa Branca viu-se obrigada a esclarecer que o chefe de Estado norte-americano não estava a delinear qualquer mudança na política dos EUA em relação a Taiwan.

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