Como o lenço verde se tornou o símbolo da luta pela despenalização do aborto

5 jul, 09:33

Inspiração veio das Mães da Praça de Maio, na Argentina, que usavam bandanas brancas na cabeça. Verde foi escolhido por ativistas argentinas que quiseram desafiar os movimentos pró-vida e as bandanas acabaram por se tornar num símbolo por todo o mundo

Nas imagens das recentes manifestações nos EUA depois da anulação da proteção do direito ao aborto, em vigor no país desde 1973, saltou à vista a cor verde dos lenços empenhados pelas centenas de mulheres e homens que protestavam contra a decisão.

As fotografias fazem lembrar as imagens de outros tempos, captadas na Argentina, quando as Mães da Praça de Maio protestavam, com bandanas brancas na cabeça, feitas com o mesmo tecido das fraldas dos bebés, para denunciar a morte dos ativistas políticos e o sequestro dos filhos durante o regime militar.

Mas porque se tornaram os lenços verdes o símbolo da luta pela despenalização do aborto? Segundo o The Washington Post, em 2003, Marta Alanis, fundadora dos Católicos Pelo Direito de Decidir na Argentina, organizou um protesto para tentar conseguir um consenso pela legalização do aborto e planeou levar as bandanas para chamar a atenção para o tema, mas também para homenagear as Mães da Praça de Maio.

No entanto, Alanis queria uma nova cor e, juntamente com a amiga Susana Chiarotti, chegaram ao verde, que representa "crescimento, vida", que as ativistas queriam usar como um desafio aos movimentos pró-vida. A associação encomendou três mil lenços e as imagens do protesto, com mais de dez mil pessoas, fariam capa dos jornais argentinos.

O lenço acabaria por se tornar num símbolo por todo o mundo e prova disso são os protestos que acontecem nos EUA, em que centenas de homens e mulheres usam os lenços verdes na cabeça, no pescoço ou no pulso.

Verde como forma de protesto

De Washington, passando por Atlanta, até fora dos EUA, em Buenos Aires, milhares de mulheres e homens usaram o verde como forma de protesto contra a decisão de 24 de junho, que bane o direito ao aborto na maioria dos estados norte-americanos.

O cenário é semelhante ao que já tinha sido visto na Argentina, em 2019, ou na Colômbia, já este ano, quando o país descriminalizou o aborto durante as primeiras 24 semanas, seguindo os passos de outros países latino-americanos.

Manifestações na Colômbia em fevereiro de 2022 (EPA)

Os lenços usados nas manifestações são agora personalizados por cada país, com frases escolhidas pelos ativistas, para enfatizar a luta pela despenalização do aborto. No Brasil, lê-se "sem prisão, sem morte", enquanto que na Colômbia há frases como "Aborto Livre" e "Causa Justa".

Já nos Estados Unidos, onde desde a decisão do Supremo Tribunal as manifestações se multiplicam, nas bandanas leem-se frases como "Claro que não", "Aborto Livre", "Não vamos recuar" e "O meu corpo, a minha escolha".

Perante a decisão do Supremo, muitas foram as mulheres da América Latina que se juntaram aos protestos. Dias depois da decisão, em frente à embaixada dos EUA em Buenos Aires, centenas de argentinas, com as bandanas no ar, manifestaram-se debaixo de fumos verdes, para pedir a despenalização do aborto.

Protestos na Argentina após a decisão nos EUA (Associated Press)

Também na Colômbia voltou a haver protestos, com Catalina Martínez Coral, diretora-regional do Centro para os Direitos Reprodutivos, a afirmar que "os Estados Unidos raramente olharam para o sul e perguntaram o que podiam aprender" com a América do Sul, mas que agora talvez seja o momento para isso.

"Somos parte do mesmo movimento", afirmou Catalina.

O Supremo Tribunal dos Estados Unidos anulou, no dia 24 de junho, a proteção do direito ao aborto em vigor no país desde 1973, permitindo que cada Estado decida se mantém ou proíbe a interrupção voluntária da gravidez. Os juízes do Supremo, com uma maioria conservadora, decidiram anular a decisão do processo “Roe vs. Wade”, que protegia como constitucional o direito das mulheres ao aborto.

E.U.A.

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