ENSAIO || Os Estados Unidos são demasiado idealistas para aceitarem confortavelmente as suas injustiças e demasiado comprometidos com elas para as corrigirem sem conflito. Não evitam crises, metabolizam-nas. A questão americana é mais antiga do que Trump e sobreviverá a Trump
Donald Trump é frequentemente tratado como se fosse o facto central da vida americana, o grande acidente, o bárbaro que ocupou Roma. Isso dá-lhe crédito em excesso – e retira demasiado à história do próprio país. Trump importa, sem dúvida. É perigoso porque expôs a forma como instituições podem tornar-se vulneráveis ao espetáculo, ao ressentimento e à personalização do poder. Mas a história maior não é a de um homem que aparece e devasta uma República. É a de um sistema que, ao longo de 250 anos, foi produzindo crises que parecem ingeríveis e depois, de forma irregular e dolorosa, encontrou modos de sobreviver a elas.
Não porque a América seja particularmente virtuosa. Mas porque nasceu com uma contradição no centro. A nação começou por declarar princípios universais e, em seguida, negá-los na prática. Proclamou igualdade enquanto aceitava a escravatura. Cresceu em nome da liberdade enquanto expandia um projeto de conquista. Afirmou um governo por consentimento dentro de uma ordem que excluía mulheres, povos indígenas, afroamericanos e muitos brancos pobres. Esse desfasamento entre credo e realidade nunca se resolveu por completo. Em vez disso, gerou as convulsões recorrentes da história americana.
O essencial não é que os EUA tenham ideais elevados – Thomas Jefferson encarna as mais profundas contradições da história americana. É que foram repetidamente obrigados a confrontar as consequências de incumprir esses ideais, e esses confrontos acabaram muitas vezes por refazer o país. A República não avança de forma contínua. Nem hoje, nem ontem.
Avança aos solavancos. Nega. Rompe equilíbrios. Consolida injustiças em lei. Depois, sob pressão, reconfigura-se. Por vezes de forma nobre, outras de forma incompleta, muitas vezes com atraso de uma geração ou de um século. Mas o padrão é decisivo: a estabilidade americana depende menos de evitar crises do que de as transformar em correções.
A primeira grande revisão veio através da catástrofe. A contradição em torno da escravatura, evitada na fundação e adiada por compromissos sucessivos, acabou por produzir uma guerra civil. Nada menor poderia resolver a questão. A guerra destruiu a ordem esclavagista e, através da Reconstrução, reescreveu a própria Constituição. As 13.ª, 14.ª e 15.ª Emendas redefiniram o significado jurídico – e o horizonte político – dos novíssimos Estados Unidos da América.
A Reconstrução foi depois traída, e a supremacia branca regressou com uma força devastadora. Ainda assim, algo irreversível tinha sido inscrito. A arquitetura constitucional da igualdade sobreviveu tempo suficiente para servir de base à revolução dos direitos civis um século depois. A primeira solução foi imperfeita, mas deixou fundações aproveitáveis.
O padrão repetiu-se nas convulsões do capitalismo industrial. A Idade Dourada concentrou fortunas extremas, produziu condições laborais brutais, monopólios, corrupção e miséria. Confirmava-se que a democracia tinha sido capturada pelo dinheiro. E, no entanto, dessa desordem emergiram movimentos operários, legislação antitrust, jornalismo de investigação, regulação e um Estado mais capaz. Os Estados Unidos não rejeitaram o capitalismo – redefiniram as condições em que ele podia funcionar. Aquilo que parecia uma plutocracia terminal acabou por forçar novos instrumentos de responsabilização pública.
A reforma logicamente não suprimiu o conflito. Tornou-o parcialmente governável. A Grande Depressão levou essa lógica mais longe. Já não se tratava apenas de desigualdade ou corrupção, mas da aparente implosão da ordem económica. Bancos colapsaram, o desemprego disparou e a fé em mercados autocorretivos perdeu credibilidade. O New Deal não restaurou o passado. Alterou as expectativas sobre o Estado. Segurança social, proteção laboral, seguro de depósitos, obras públicas e programas de apoio expandiram o perímetro da ação pública. Não eliminou a pobreza nem a instabilidade. Mas consolidou a ideia de que um governo democrático podia intervir em larga escala sem destruir a liberdade. Salvou o sistema ao transformá-lo.
Algo semelhante ocorreu, noutra escala, nas crises da metade do século XX. A Segunda Guerra Mundial consolidou os Estados Unidos como uma superpotência, mas também reforçou a noção de que a ação coletiva e construção institucional não eram sinais de fraqueza. Da depressão e da guerra emergiram Bretton Woods, as Nações Unidas, a NATO, o Plano Marshall e uma ordem internacional robusta. Os EUA saíram do conflito não apenas mais fortes, mas mais organizados – mais dispostos a integrar poder em sistemas e alianças. A liderança americana do pós-guerra foi expressão de domínio, mas também de aprendizagem.
Mesmo a era dos direitos civis, frequentemente lembrada numa narrativa de progresso linear, seguiu esta lógica. A segregação, a privação de direitos e o terror racial persistiram durante gerações após a abolição da escravatura. O avanço não resultou de um despertar espontâneo das elites, mas de pressão organizada: ativistas locais, igrejas, movimentos estudantis, ações judiciais, intervenção federal, exposição mediática e protestos em massa. As instituições responderam porque foram forçadas a isso. A lição é sempre a mesma: os Estados Unidos não resolvem os seus problemas mais profundos por iluminação súbita, mas porque são forçados a responder aos próprios princípios que ainda os orientam.
É por isso que o país parece, ao mesmo tempo, frágil e resistente. As crises são reais porque as contradições são reais. Mas a resiliência também o é, porque o sistema contém múltiplos mecanismos de correção. O federalismo dispersa poder. Os tribunais – ainda – preservam princípios quando a política os abandona. As eleições legitimam conflitos em vez de os eliminar. A sociedade civil acelera movimentos que o Estado demora a reconhecer. Uma mitologia nacional, apesar das suas falhas, proporciona a linguagem que ainda permite exigir mudança.
Os americanos são muitas vezes salvos pela insistência em aproximar a realidade de ideais que nunca chegaram a concretizar plenamente. Trump inscreve-se nesta tradição, mas não a define. É antes um beneficiário de problemas acumulados: desindustrialização, desconfiança das elites, reações identitárias, fragmentação mediática, desgaste institucional e a longa reação ao Estado liberal do século XX. Não inventou a suspeita em relação ao governo, às instituições, aos especialistas ou às elites culturais. Herdou-a e reorganizou-a numa política do espetáculo. Vive das desilusões acumuladas do sistema.
Mas se Trump é sintoma, a questão não é saber se, sozinho, pode destruir a República. É perceber se a República ainda conserva capacidades de correção: absorver choques, expor fragilidades e responder com combinações variáveis de lei, reforma, mobilização e memória institucional. A história sugere uma resposta ambígua, mas não desesperada, apesar do estado comatoso de Republicanos e Democratas. Os EUA sobreviveram a crises mais graves: guerra civil, depressão, guerras mundiais, degradação urbana, violência política e episódios repetidos de erosão institucional. Raramente responderam com rapidez ou clareza. Muitas vezes o custo recaiu sobre os menos protegidos. Ainda assim, o sistema revelou uma capacidade quase única de adaptação.
A leitura séria do presente não passa nem pelo pânico nem pela complacência. Trump não deve ser minimizado – as normas podem degradar-se, os tribunais podem ser capturados, partidos podem transformar-se em veículos de personalização do poder e cidadãos podem habituar-se à erosão institucional. Mas também é interpretar os EUA como um objeto frágil, quebrável num único ciclo político. São uma ordem mais áspera, mais contraditória e mais resistente, construída através de conflito, reparada por conflito e raramente confortável em equilíbrio.
A história do país não oferece garantias. Oferece padrões. A América tende a adiar os seus ajustes mais profundos até que se tornem inevitáveis. Depois, sob pressão, reorganiza-se. Alguns entendimentos duram. Outros colapsam. Outros apenas suspendem o problema. Mas ao longo de dois séculos e meio, essa adaptação irregular tem sido a sua principal fórmula de sucesso.
A perspetiva adequada não é nem a do romantismo nem a da rendição. É a da proporção. Trump importa porque expôs fragilidades estruturais já existentes. Mostrou como a cultura democrática pode deslizar para formas de liderança personalizada quando a confiança se rompe e o ressentimento se torna uma identidade política. Mas não criou as tensões que o produziram, nem será o último teste imposto a essas tensões. A questão americana permanece mais antiga e mais exigente: saber se uma nação fundada em ideais universais e práticas excludentes consegue continuar a refazer-se sem esgotar a própria energia cívica que torna essa reinvenção possível.
Essa é a verdadeira dramaturgia da história americana. Um país simultaneamente demasiado idealista para aceitar as suas próprias injustiças e demasiado comprometido com elas para as ultrapassar sem conflito. Um país de Alexander Hamiltons e de Aaron Burrs.
Dessa tensão nasceram guerra civil, reforma, reação, reinvenção e renovação. É uma forma dispendiosa de desenvolvimento político. Deixa cicatrizes profundas. Mas é também o mecanismo através do qual a República tem sobrevivido. Que país é este que elege Barack Obama e, poucos anos depois, escolhe Donald Trump para lhe suceder? Que entregou as chaves constitucionais a James Madison para anos depois entregar o “edifício” a Andrew Jackson?
Duzentos e cinquenta anos de construção significam acumulação: instituições, hábitos, memória jurídica, tradições de reforma, mitos, feridas e capacidades de autocorreção. Oito anos podem degradar a linguagem pública, deteriorar o sistema de contrapoderes e amplificar impulsos perigosos. Mas não reescrevem sozinhos uma arquitetura política que foi reforçada por crises sucessivas. Os Estados Unidos sobreviveram porque, repetidamente, encontraram, ainda que tarde e de forma quase sempre imperfeita, maneiras de obrigar a realidade a regressar aos seus princípios. A sua história não garante resultados. Apenas mostra que a rutura nunca foi total e que será preciso mais do que um plutocrata de Mar-a-Lago para liquidar uma República.
