Sobre a vitória de Trump e as presidenciais nos Estados Unidos
Recuemos às eleições de 2020. No outro lado da vitória de Joe Biden, uma dúvida lancinante: para onde vão agora 74 milhões de votos?
A invasão do Capitólio que encerrou o longo caos da contestação dos resultados, ensaiou uma primeira resposta - mas ilusória. Aí chegados, a um ponto sem retorno e nunca visto na América, tomou-se por garantido que dezenas de milhões de votos altamente mobilizados, obviamente, se dissipariam; que o Trumpismo, obviamente, teria de colapsar; que o Partido Republicano, obviamente, entraria numa reflexão existencial; e que Trump, obviamente, tinha chegado ao fim.
No espírito dos tempos, esta também será sempre a questão quando se assume aquilo que se gostaria que o mundo fosse e não o que ele é verdadeiramente na sua infinita complexidade. Pressupostos tornados certezas geram estratégias falhadas e distorções da realidade com custos políticos. E ninguém é verdadeiramente culpado, porque querer encontrar respostas ou conclusões naturais que, para qualquer moderado que defenda as instituições democráticas, é do domínio mais elementar da sensibilidade e do bom senso. Mas estes são tempos incomuns. É por isso que tudo agora parece tão óbvio e cristalino na vitória de Donald Trump (mais do que uma vitória dos Republicanos) e na derrota dos Democratas (mais do que uma derrota de Kamala Harris).
Regressados de 2020, para onde iriam mesmo 74 milhões de votos?
O tempo passou, os insurretos do Capitólio foram condenados e encarcerados, Trump manteve-se em campanha, aparentemente incólume perante tudo o que acontecera antes e aconteceu depois, e Biden, sem grande espaço para estados de graça, mergulhou numa inflação que continuou a morder até hoje onde mais dói a qualquer povo: o bolso. Um golpe aberto perfeito para o populismo lá fora, fora do reduto da Casa Branca, que se alimenta das frustrações do cidadão comum. E por mais que a economia, lá fora, mostre uma pujança incomparável entre os seus pares e adversários, quando dois terços do povo não sente o mesmo, vale mesmo a pena insistir na negação? Sensibilidade e bom senso.
Pode existir na vitória de Trump em 2024 a continuidade de um movimento, popular e populista, a definitiva materialização da metamorfose do Partido Republicano começada em 2016 na fúria contra a globalização e a imigração, e como se a vitória de Biden em 2020 fosse, ela sim, uma anomalia no sistema. O tempo dirá. Certo é que, com progressos em quase todos os segmentos e zonas predilectas dos Democratas, Trump capturou o cidadão e o trabalhador comum, irremediavelmente farto de agendas descoladas da sua realidade, sem soluções fáceis e práticas para o primeiro imperativo de pagar as contas. Diante de um discurso polarizador mas simples e eficaz (independentemente da sua violência condenável), vindo de alguém comprovadamente inimputável (com todas as ameaças fundadas que representa), o pragmatismo foi enfiado na gaveta. Mais bom senso, na resposta ao “senso comum” falacioso que contaminou o debate de outras batalhas que a sociedade, efetivamente, indubitavelmente, deve debater. Mas escolher batalhas não significa necessariamente abdicar de convicções. No espírito destes tempos, tudo deve ter o seu próprio momento e amplificação. A grandiloquência da defesa da democracia também se joga nessa gestão. Especialmente quando 74 milhões de votos andam aí.
E para onde foram, outra vez?