Garfo para cima ou para baixo? As regras de etiqueta que denunciam qualquer um à mesa

CNN , Terry Ward*
14 jun, 11:00
Há mais do que uma forma correta de usar os talheres, dizem os especialistas em etiqueta. O estilo "continental" é amplamente utilizado. Alexander Spatari/Moment RF/Getty Images

 

 

 

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Conheça as diferenças de etiqueta à mesa que podem surpreender

Quando Brooke Black e o marido dinamarquês começaram a viver juntos nos Estados Unidos, ela não se recorda de as suas diferentes formas de comer à mesa terem sido um assunto relevante.

Só quando a mãe de dois filhos se mudou para a Dinamarca, em 2020, é que tomou verdadeira consciência de que utilizava os talheres de forma diferente do marido — e praticamente de todos os europeus à sua volta.

Crescida no estado norte-americano do Illinois, Black conta que a mãe apenas colocava garfos na mesa de jantar da família, exceto quando havia algo como um bife que exigisse uma faca para cortar.

“Não usei faca a vida toda”, diz Black, que partilha comentários sobre as diferenças culturais do quotidiano na Dinamarca na sua conta de Instagram. Embora brinque dizendo que “um garfo também pode servir de faca”, nunca aprendeu a comer da forma “em ziguezague” adotada por muitos norte-americanos, que cortam a carne com a faca na mão dominante e depois passam o garfo para essa mesma mão para comer.

Mas, em encontros familiares na Dinamarca, segurando o garfo na mão direita desde o início — com os dentes virados para cima — e deixando praticamente intocada a faca ao lado do prato, Black rapidamente percebeu que se destacava.

A norte-americana Brooke Black, que vive na Dinamarca com o marido dinamarquês, acabou por adotar gradualmente o estilo utilizado por muitos europeus. (Cortesia de Brooke Black)

“Estou constantemente a ser gozada pela família do meu marido. À mesa, na casa da minha sogra, perguntam todos: ‘O que estás a fazer?’, porque eles comem com o garfo na mão esquerda, os dentes virados para baixo, e a faca na mão direita”, conta.

Black diz que acabou por se adaptar, pelo menos em público, ao chamado estilo continental, utilizando o garfo na mão esquerda e a faca na direita para cortar pratos dinamarqueses como os delicados smørrebrød, as tradicionais sanduíches abertas.

Mas mesmo quando come “à dinamarquesa”, continua muitas vezes a sentir-se deslocada.

“Eles têm todos aquela forma silenciosa e sensata de fazer as coisas. E eu sou apenas uma mulher barulhenta a espetar comida”, brinca.

As nuances de como os talheres são utilizados em ambos os lados do Atlântico podem ser vertiginosas. Embora existam algumas diferenças óbvias, as subtilezas podem ser mais difíceis de dominar — e a forma como essas diferenças surgiram é incerta.

Estilo continental e o método americano "mais trabalhoso"

As mesas podem ser postas de forma semelhante em grande parte do mundo ocidental, mas os dois principais estilos de utilização dos talheres — o americano e o continental — apresentam diferenças que nem sempre são fáceis de dominar.

Jacqueline Whitmore, especialista em etiqueta empresarial e fundadora da Protocol School of Palm Beach, na Florida, resume assim as diferenças.

No estilo continental, a faca e o garfo são utilizados em simultâneo, segundo Jacqueline Whitmore. (Natalia V. Osipova)

“No estilo continental, utiliza-se simultaneamente a faca e o garfo, levando o garfo à boca com os dentes virados para baixo, sem nunca pousar a faca enquanto se está a comer”, explica. A faca permanece na mão dominante, pronta para cortar quando necessário ou para empurrar alimentos que não possam ser espetados sobre os dentes invertidos do garfo.

O que é considerado o estilo americano segue uma abordagem de cortar e trocar. A faca é segurada na mão dominante para cortar, com o garfo na mão não dominante a prender a comida no lugar, com os dentes virados para baixo. A faca é depois colocada em posição de repouso no prato, para que o garfo possa ser transferido para a mão dominante, com os dentes virados para cima, para comer.

“O estilo americano é um pouco como um estilo em ziguezague. Corta-se a carne, pousa-se a faca de lado no prato e muda-se o garfo de uma mão para a outra. Por isso, é um pouco mais trabalhoso”, admite Whitmore.

Os norte-americanos normalmente utilizam a faca e o garfo alternando a mão dominante. Depois de cortar, pousam a faca e transferem o garfo para essa mão. (Natalia V. Osipova)

Para tornar tudo ainda mais confuso, o estilo de refeição britânico tem a sua própria forma de utilização de talheres que difere, ainda que de forma subtil, do estilo continental, segundo o especialista britânico em etiqueta William Hanson, autor do livro “Just Good Manners”. Os estilos britânico e continental são frequentemente confundidos, diz Hanson, que tem quase quatro milhões de seguidores no Instagram.

Como se isso não fosse já suficientemente variado, nem todos os especialistas em etiqueta estão exatamente de acordo sobre quais práticas definem cada estilo. Mas, na sua essência, a etiqueta tem a ver com ser cordial e fazer com que os convidados se sintam confortáveis, independentemente de como estão a segurar os seus talheres.

Adaptar-se ou não?

Em países europeus como Espanha, é comum utilizar o estilo continental, levando "o garfo à boca com os dentes virados para baixo e sem pousar a faca enquanto se come", explica Jacqueline Whitmore. (benedek/iStock Unreleased/Getty Images)

Portanto, se estiver a visitar a Europa, ou outros lugares onde predomina o estilo continental de utilização de talheres, como americano habituado ao estilo “ziguezague”, deve mudar a forma como usa os talheres?

Depende da natureza da visita, considera Lizzie Post, copresidente do The Emily Post Institute e bisneta da reconhecida especialista em etiqueta Emily Post.

Em viagens de negócios na Europa, Post diz que pode tentar adaptar-se e jantar ao estilo continental. Ainda assim, não esperaria que alguém que a visitasse nos Estados Unidos, vindo do estrangeiro, escolhesse a forma americana de comer.

De um modo geral, defende, é aceitável comer da forma com que a pessoa se sente mais competente e confortável.

“Se vem de outro lugar, faça o melhor que consegue com aquilo que sabe fazer — e da forma como o faz confortavelmente”, afirma.

Mas, se estiver disposto a um desafio, Post diz que é ótimo ter a capacidade de se adaptar ao país que está a visitar.

Questões mais importantes

Algumas regras de etiqueta são universais, incluindo a ideia de que os talheres nunca devem voltar a tocar na mesa depois de a refeição começar. (littleclie/iStockphoto/Getty Images)

Em vez de se preocupar se está a ser grosseiro por segurar o garfo com os dentes virados para cima ou para baixo, é muito mais importante não segurar os talheres de forma incorreta na mão, considera Post. (Agarrá-los, por exemplo, como se fosse um punho, nunca é apropriado).

Um garfo deve ser segurado com o cabo a repousar na palma da mão, com o dedo indicador a parar antes da parte superior do garfo, esclarece Hanson. A faca é segurada com o dedo indicador a parar no ponto onde a lâmina e o cabo se encontram, enquanto os restantes dedos ficam dobrados à volta do cabo na palma da mão.

Post lamenta que a etiqueta geral à mesa não seja algo amplamente ensinado nos Estados Unidos.

“Não há nada no nosso sistema escolar que ensine isto de forma a torná-lo universal para nós, e acaba por ser algo que depende de cada família”, observa, referindo-se às regras à mesa.

Algumas regras de etiqueta são comuns a todos os estilos de refeição. Os talheres, por exemplo, nunca devem tocar na mesa depois de se começar a comer, indica Post, devendo ficar pousados no prato quando se faz uma pausa.

Posição de descanso no estilo americano. (Natalia V. Osipova)

Mas outras práticas, por exemplo onde pousar os talheres quando se quer fazer uma pausa durante a refeição, variam.

No estilo americano, diz Whitmore, o sinal de pausa ocorre quando a faca, com a lâmina virada para dentro, é colocada ao longo da parte superior direita do prato, num ângulo subtil. O garfo, com os dentes virados para cima e o cabo virado para fora, deve ser colocado com o cabo apontado para as 16 horas, na parte intermédia do prato, para indicar que a pessoa está em pausa. (Para os empregados que conhecem a etiqueta, esta posição é uma mensagem silenciosa de serviço para não perguntarem: “Ainda está a comer?”).

Nos estilos continental (e britânico), a posição de pausa envolve um cruzamento do garfo e da faca no centro do prato, com o garfo colocado por cima da faca e os dentes virados para baixo, segundo Hanson e Whitmore. Existem também diferentes posições dos talheres que indicam que a refeição terminou.

Posição de descanso no estilo continental, segundo Whitmore. (Natalia V. Osipova)

Whitmore, que afirma jantar no estilo continental apesar de ser americana e viver nos Estados Unidos, considera a técnica “menos ruidosa e menos intrusiva” e diz que aprendê-la permite integrar-se em qualquer lugar do mundo onde se usem talheres para comer.

“Porque não aprender outra forma, para ter opções — para conseguir misturar-se e para que as suas boas maneiras à mesa sejam secundárias em relação à conversa”, propõe.

Um verdadeiro campo minado

Para além dos estilos americano e continental de utilização de talheres, que são os mais amplamente usados, existem outras variações em todo o mundo.

No estilo britânico, por exemplo, os dentes do garfo nunca, nunca devem estar virados para cima em contextos formais quando a faca também está a ser utilizada, segundo Hanson. (Em contextos informais, quando se comem pratos como risoto que não exigem faca, isso é considerado aceitável, diz).

Para além de qual mão segura o quê e em que direção os dentes do garfo estão virados, alguns hábitos de mesa mais questionáveis serão certamente notados.

“Não diríamos nada, mas notaríamos se um americano cortasse toda a sua comida no prato, que é o que fazemos para as crianças neste país”, aponta Hanson, referindo-se ao Reino Unido.

Jacqueline Whitmore afirma que os comportamentos mais chocantes à mesa que observou ocorreram nos Estados Unidos. (Sally Watson)

Whitmore afirma que, ao longo das suas viagens pelo mundo, foi nos Estados Unidos, o seu país de origem, que testemunhou os atos mais “escandalosos” de má etiqueta à mesa. Entre os exemplos que refere estão pessoas a lamberem as facas ou a mexerem bebidas, como chá gelado, com um garfo ou uma faca por não terem uma colher à mão.

Como acontece com todas as regras de etiqueta, Hanson considera que “o conhecimento é poder”.

“Pode escolher quando utilizá-lo e quando não o fazer, ou decidir até que ponto quer aumentar ou diminuir o grau de formalidade, dependendo do contexto em que se encontra”, destaca.

E embora muitas pessoas no Reino Unido, nos Estados Unidos e na Europa saibam como fazer refeições de forma descontraída, “ainda há ocasiões, e haverá sempre ocasiões, em que é necessário recorrer a este nível da escala”, acrescenta Hanson, referindo-se às refeições mais formais.

Strachwitz diz que é perfeitamente normal sentir-se perante um “campo minado” quando se janta fora da própria cultura. Hugo Strachwitz é diretor da Debrett’s, uma autoridade em matéria de protocolo e etiqueta britânica e internacional.

No entanto, sublinha que qualquer eventual confusão é secundária face à importância de ser um bom convidado em casa de alguém ou à sua mesa.

“Seja gentil, cortês e aceite a cultura dominante ou as regras que prevalecem. E, se se deparar com algo que nunca viu antes, ou com o qual não está familiarizado ou confortável, pode perguntar educadamente: ‘Nunca tinha visto isto. Como funciona?’”, sugere.

Segundo Strachwitz, cabe ao anfitrião garantir que os convidados se sintam à vontade na sua companhia.

“Seja genuinamente você mesmo. Isso pode significar jantar ao seu próprio estilo. Assim, se um americano estiver a jantar num ambiente não americano, cabe ao anfitrião não chamar a atenção para essa diferença de uma forma que possa causar desconforto, ofensa ou fazer com que o convidado se sinta constrangido”, sublinha Strachwitz.

Uma história pouco clara

A razão exata para a evolução destas diferentes formas de utilizar os talheres continua envolta em alguma incerteza histórica. (Geo. R. Lawrence Co./Library of Congress)

A forma como estas diferenças à mesa surgiram não é totalmente clara. No entanto, os historiadores assinalam que os garfos de mesa apareceram muito mais tarde do que as facas e as colheres.

No século XVI, os garfos já eram habitualmente utilizados à mesa em Itália, segundo um artigo da revista Smithsonian, e o seu uso espalhou-se posteriormente pelo resto da Europa. No entanto, foi apenas em meados do século XIX que a utilização de garfos de mesa ficou verdadeiramente consolidada nos Estados Unidos.

É seguro afirmar que a forma como as pessoas faziam as suas refeições influenciou a maneira como utilizavam os talheres, diz Strachwitz.

No período anterior às Guerras Napoleónicas do início do século XIX, explica, a forma típica de servir refeições na Europa era o service à la française, ou serviço em estilo banquete, com todos os pratos colocados na mesa ao mesmo tempo. No início do século XIX, porém, o service à la russe, com pratos servidos por etapas e que exigiam diferentes talheres para diferentes iguarias, foi introduzido em França a partir da Rússia. Em meados do século XIX, este modelo já tinha conquistado popularidade e espalhava-se também pelo Reino Unido.

No entanto, é mais difícil determinar exatamente onde e quando os hábitos de utilização dos talheres começaram a divergir. Um especialista em história da alimentação disse ao Slate.com que os americanos adotaram dos franceses o método de cortar a comida e depois trocar os talheres de mão — um hábito que os próprios franceses acabariam por abandonar.

Helen Zoe Veit, professora associada de História na Universidade Estatal do Michigan, em East Lansing, trabalhou como consultora histórica na primeira temporada de "The Gilded Age", da HBO (a CNN e a HBO pertencem ao mesmo grupo empresarial). Quando começou a investigar a forma como os americanos seguravam os talheres nos Estados Unidos da década de 1880, período em que decorre a série, questionou-se se esse comportamento seguia ou não o estilo britânico.

A série "The Gilded Age" da HBO começa na década de 1880, quando os americanos eram "muito inseguros em relação aos seus bons modos", afirma a historiadora Helen Zoe Veit, especialista na história da culinária americana dos séculos XIX e XX. (Alison Cohen Rosa/HBO)

“Não existia uma autoridade definitiva sobre o assunto”, afirma Veit.

O que era evidente, porém, é que, entre meados e o final do século XIX, os americanos estavam “muito inseguros em relação às suas boas maneiras”.

“Estavam realmente a tentar definir o que significava pertencer à elite, o que significava ser sofisticado, o que significava ser instruído e refinado. E, por isso, procuravam estabelecer um conjunto de normas de etiqueta tipicamente americanas”, explica.

E as opiniões divergiam.

“Nem sempre sabiam o que isso significava. Questionavam-se se deveriam seguir a etiqueta britânica ou os costumes franceses. E havia quem dissesse: ‘Ao diabo com a Europa. Devíamos simplesmente criar a nossa própria forma de fazer as coisas do ponto de vista cultural’”, conta Veit.

Essa explicação pode servir de algum consolo aos americanos que se sintam perdidos numa mesa europeia.

“Penso que, desde que as pessoas comam de forma adequada, sem fazer barulho, consigam manter a comida no prato sem a deixar cair para a mesa ou pela camisa abaixo”, diz Hanson, isso deverá ser suficiente, acrescentando que há preocupações mais importantes na vida.

A principal recomendação que Hanson faz aos seus alunos é que segurem corretamente os talheres e só comecem a comer quando todos estiverem sentados e tiverem a comida à sua frente.

Strachwitz resume a questão de forma ainda mais simples: “A essência da boa etiqueta, esteja onde estiver, é a consideração e o respeito pelos outros.”

Com isto em mente, seja simpático e desfrute da refeição.

*Terry Ward é escritora de viagens e jornalista freelancer radicada na Florida, mais precisamente em Tampa. Viveu em França, na Austrália e na Nova Zelândia e criou o seu próprio método híbrido para comer em mesas internacionais

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