Um estudo de cada vez, o que a ciência desvendou recentemente sobre o Alzheimer

28 abr, 07:00
Imagem de uma Tomografia por Emissão de Positrões (TAC) cerebral. (AP Photo/Matt York, File)

Muitos estudos, cada vez mais promissores, mas uma meta ainda longe de alcançar. A ciência tem-se dedicado ao estudo da doença de Alzheimer e estes são alguns dos mais recentes avanços

Há largos anos que o Alzheimer, doença degenerativa cerebral que afeta as capacidades cognitivas e que pode levar à demência, é estudado pela ciência e há outros tantos que os investigadores batalham por encontrar todas as causas e o tratamento mais eficaz, com descobertas muitas vezes inusitadas e outras tantas acidentais - como o princípio ativo do Viagra que se mostra promissor para a prevenção e tratamento da doença mental. 

Apesar de a cura continuar a ser uma utopia, cada novidade é um passo rumo ao conhecimento da doença, sobretudo no que diz respeito ao diagnóstico precoce, muitas vezes impedido pelo silêncio dos sintomas. No mês passado, por exemplo, um estudo da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, apresentou resultados considerados promissores no diagnóstico precoce da doença: uma análise de sangue que é capaz de identificar as alterações de Alzheimer no cérebro antes do início de qualquer sintoma.

Ainda no que diz respeito à prevenção, um outro estudo recente, publicado na revista Alzheimer's & Dementia: The Journal of the Alzheimer's Association, mostra que o exercício aumenta os níveis de uma proteína conhecida por fortalecer a comunicação entre as células cerebrais através de sinapses. Dizem os cientistas que exercitar o corpo pode ser um fator decisivo para prevenir a demência. Na prática, defende a investigação, “quanto maior a atividade física, maior o nível de proteínas sinápticas no tecido cerebral”.

No final do ano passado, foi publicado na Nature Aging um estudo computacional de larga escala que analisou dados de mais de sete milhões de pacientes e que permitiu concluir que o Sildenafil, o princípio ativo do medicamento para tratar a disfunção erétil, pode ser promissor na prevenção e tratamento da doença mental.

“Descobrimos que o uso de Sildenafil reduziu a probabilidade de Alzheimer em indivíduos com doença arterial coronária, hipertensão e diabetes tipo 2, que são comorbidades significativamente associadas ao risco da doença, bem como naqueles sem”, sublinhou o médico Feixiang Cheng, que liderou o estudo.

O que se descobriu sobre a origem da doença

Uma equipa internacional de cientistas - liderada pelo português Cláudio Gomes - descobriu que uma proteína abundante no cérebro atrasa a formação de depósitos tóxicos de uma outra proteína que estão associados à doença de Alzheimer. Publicado em novembro do ano passado na revista Nature Communications, o estudo revela que a proteína 'S100B' atua sobre a proteína 'tau', “cuja deposição tóxica no cérebro está associada a várias demências e à fase de agravamento da doença de Alzheimer”.

A Escola de Medicina da Universidade de Boston revelou recentemente que ignorar os níveis de colesterol e glicose aos 35 anos pode também ser um gatilho para o desenvolvimento da doença de Alzheimer. Na prática, explica o ScienceDaily, níveis mais baixos de HDL (colesterol de alta densidade) e níveis elevados de triglicerídeos aos 35 anos estão associados a uma maior incidência de Alzheimer anos mais tarde. No que diz respeito à glicose alta, se esta for uma constante entre os 51 e 60 anos, há também um maior risco de Alzheimer no futuro.

Já este mês, foram descobertos mais 42 genes ligados ao desenvolvimento da doença de Alzheimer, naquele que é o maior estudo de risco genético de desenvolver a doença realizado até hoje. Julie Williams, diretora do centro do Instituto de Investigação de Demência da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, destaca os 30 anos de investigação que permitiram medir o real peso da genética nesta doença.

“Os fatores decorrentes do estilo de vida que levamos, tais como fumar, fazer exercício e a nossa dieta, influenciam o desenvolvimento de Alzheimer”, disse Williams. No entanto, o que este estudo vem provar é que 60-80% do risco da doença está relacionado com a genética.

Publicada na revista Nature Genetics, esta investigação identificou 75 genes que estão ligados a um risco acrescido de contrair Alzheimer, 33 dos quais já eram conhecidos. Também confirmou anos de investigação sobre o papel dos amilóides beta e tau.

Novas descobertas rumo à cura (e a mais tratamentos)

A palavra cura é usada com cautela quando o tema é a doença de Alzheimer. A ciência tem conseguido levantar o véu sobre formas de retardar o declínio cognitivo e até de lhe tirar intensidade, mas a cura é ainda utópica e possivelmente irá assim continuar durante anos. Mas isso não impede que novos fármacos se mostrem promissores e até felizes casos acidentais na luta contra uma doença, como aconteceu com o sargramostim (GM-CSF, que significa fator estimulador de colónias de granulócitos-macrófagos), aprovado pela Food and Drugs Administration (FDA) para melhorar a função cognitiva em pessoas com síndrome de Down e que, na verdade, se mostrou também eficaz na melhoria da memória em pacientes com Alzheimer.

O estudo da Universidade do Colorado, cujos resultados foram publicados há poucas semanas no site da revista científica Neurobiology of Disease, já se encontra em ensaio clínico de fase II, faltando apenas uma fase para que siga para o pedido de aprovação para uso clínico.

No ano passado, relata a Nature, a FDA tomou “a controversa decisão” de aprovar o aducanumab da Biogen para o tratamento do Alzheimer. A entidade norte-americana defendeu que a capacidade deste medicamento remover o amiloide-β (beta-amilóides, proveniente de uma proteína associada ao Alzheimer) tornava provável que pudesse reduzir os sintomas da doença no futuro. Diz a revista científica que os grandes ensaios controlados por placebo em pessoas com Alzheimer leve “não melhoraram inequivocamente os seus sintomas clínicos, mas o fármaco fez um bom trabalho ao limpar as placas amilóides dos seus cérebros”. Resultado: a agência declarou que o aducanumab foi o primeiro tratamento a afetar a causa biológica da doença.

“Este anticorpo é dirigido seletivamente para as formas agregadas do amilóide beta (Aβ), incluindo os oligómeros solúveis e as fibrilhas insolúveis. Foi desenvolvido de forma inovadora, a partir de linfócitos sanguíneos de uma população de idosos sem sinais de deficiência cognitiva ou com declínio cognitivo invulgarmente lento. Os ensaios de fases I e II mostraram uma redução dos depósitos de Aβ em doentes com doença de Alzheimer.Na fase 3 foram efetuados dois ensaios de eficácia: ENGA‑GE e EMERGE”, lê-se no documento Aducanumab na Doença de Alzheimer: Percurso e Perspetiva, publicado na Revista Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental.

Também no ano passado, uma investigação da Escola de Medicina Icahn do Hospital Monte Sinais, nos Estados Unidos, conseguiu identificar o gene ATP6VA1 como alvo candidato para tratamentos contra o Alzheimer, conta o site do Instituto Nacional de Envelhecimento dos Estados Unidos.

Por causar uma inflamação crónica das células cerebrais de baixo nível, há estudos que estão a tentar encontrar formas de travar a inflamação. Segundo a Mayo Clinic, o fármaco sargramostim (comercializado nos Estados Unidos com o nome Leukine) é uma das apostas em estudo, uma vez que parece o sistema imunitário a proteger o cérebro de proteínas nocivas ao desenvolvimento da doença de Alzheimer.

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