"Jovens nas urgências com gonorreia e sífilis que nem faziam ideia do que era". Atenção: o preservativo não tem a ver com "confiança no outro"

28 abr, 19:00
Preservativo (Pexels)

Um estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa revela que o uso de preservativo na primeira relação sexual é menor hoje em dia do que em 2008. Mais confiança na ciência e falsa sensação de cura são apontados como fatores para esta tendência, alertam as especialistas entrevistadas pela CNN Portugal.

Iniciam a vida sexual mais tarde, mas eles usam menos o preservativo e elas tomam mais a pílula. Este é o mais recente retrato da educação e vida sexual dos jovens portugueses, que dá conta de uma maior preocupação em evitar a gravidez do que em prevenir uma doença sexualmente transmissível (DST).

Apresentado esta quinta-feira, o estudo Jovens e Educação Sexual: Conhecimentos, Fontes e Recursos, levado a cabo pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, em conjunto com a Associação para o Planeamento da Família e o Centro Lusíada de Investigação em Serviço Social e Investigação Social, revela que 27% dos jovens de ambos os sexos têm um conhecimento mau sobre contracetivos e infeções sexualmente transmissíveis, embora a informação hoje em dia seja mais vasta e de mais rápido e fácil acesso.

O problema é mesmo esse, a informação. Já há informação de que as doenças [sexualmente transmissíveis] são tratáveis, dando até a ideia de que são curáveis. Os jovens têm uma maior confiança na medicina e, por isso, têm atitudes de risco maior. Há uma falsa sensação de segurança, os jovens percebem que existe tratamento e prevenção, que passam por vacina e medicamentos, e acham que o uso de preservativo é secundário e pode ser omitido”, diz à CNN Portugal Ana Meirinha, médica urologista e andrologista no Hospital Lusíadas Lisboa.

Fátima Palma, presidente da Sociedade Portuguesa de Contraceção, aponta outros fatores para que os jovens tenham tendência para desvalorizar o uso de preservativo: “Acho que a informação é mais vasta, mas não nos podemos esquecer que nos últimos dois anos houve uma situação no mundo completamente diferente do habitual, mesmo a nível da escola e da educação sexual, acredito que a pandemia tenha prejudicado muito e alterado muito os conteúdos. Além disso, os jovens estão mais preocupados com contraceção [para prevenir uma gravidez] do que com as doenças sexualmente transmissíveis e isso faz com que usem menos o preservativo”.

Segundo o estudo, em 2008, 95% dos rapazes e 97% das raparigas usavam preservativo na relação sexual, números que baixaram ligeiramente em 2021, ano em que 92,5% das raparigas e 88,4% dos rapazes usaram preservativo no ato sexual. Se em causa estiver uma relação de namoro, são 55,1% os que não usam de todo o preservativo e 24,2% os que interrompem o coito, quanto à pílula são 59,1% as raparigas que a tomam, números que, segundo os investigadores, reforçam a preocupação em evitar uma gravidez, mas não tanto em prevenir uma DST, algo que para Ana Meirinha é prova de que os jovens “não têm noção” do que são as próprias infeções sexualmente transmissíveis, nem do seu impacto na saúde e bem-estar. 

“Não têm noção do impacto a curto, médio e longo prazo na saúde”, lamenta a médica, que conta que no serviço de urgência chegou a atender “muitos jovens com gonorreia e sífilis que não faziam ideia do que era e pensavam que se tratava com injeção de penicilina”. “Os jovens pensam que até a sida se trata, foi um momento de abre olhos. Pela desinformação que corre na juventude, os miúdos precisam de educação sexual, uma educação real sobre doenças sexualmente transmissíveis, como se transmitem, quais as consequências”, frisa.

Para Fátima Palma, “ainda existe muito desconhecimento quanto às DST” por parte dos jovens, “o que faz com que o preservativo seja menos usado” e este comportamento de risco traga mais facilmente consequências.

Eu trabalho com adolescentes, eles ligam muito as DST à sida, que para eles é algo que já se conhece e que não é tão frequente, mas as que realmente importam, como a gonorreia e clamídia, não sabem o que é. Além disso, confundem muito o uso do preservativo com a confiança no outro”, considera Fátima Palma.

 

Doenças sexualmente transmissíveis em tendência crescente

A CNN Portugal contactou a Direção-Geral da Saúde (DGS) para obter os dados mais recentes sobre as doenças sexualmente transmissíveis em Portugal, no entanto, não obteve qualquer resposta em tempo útil e a informação existente é escassa e limitada. O Portal da Transparência apresenta dados relativos às Doenças de Declaração Obrigatória - nas quais se incluem algumas DST - mas não há informação mais recente do que 2018. Ainda assim, em 2018, foram reportados 663 casos de clamídia, 976 casos de gonorreia, 179 casos de hepatite B (embora esta possa ser transmissível também com a partilha de objetos e não apenas por via sexual) e 996 casos de sífilis não congénita.

Segundo o Jornal de Notícias, a clamídia, por exemplo, aumentou 60% de 2017 para 2018. “Analisando a evolução 2015-2018, a subida é alarmante: mais 251% (de 151 novos casos para 531). A maior incidência é entre mulheres jovens e heterossexuais”, lê-se no site. Em 2017, mais de 2% dos portugueses tinham doenças sexualmente transmissíveis.

Em 2020, um estudo do Instituto de Saúde Pública da U.Porto (ISPUP), publicado na revista Sexually Transmitted Diseases, concluiu que a clamídia, a gonorreia e a sífilis são as doenças sexualmente transmissíveis mais comuns entre homens jovens e heterossexuais e que as as Áreas Metropolitanas de Lisboa e do Porto são as zonas com uma maior taxa de notificação destas três DST.

Dados de 2019 do Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge (INSA) indicam que foram diagnosticados 778 novos casos de infeção por VIH em Portugal, sendo que em 97,3% dos casos a transmissão ocorreu por via sexual, com 57,8% a referirem contacto heterossexual. “Os casos em homens que fazem sexo com homens (HSH) corresponderam a 56,7% dos casos diagnosticados de sexo masculino e apresentaram uma idade mediana de 30 anos. As infeções associadas ao consumo de drogas injetadas constituíram 2,1% dos novos diagnósticos em que é conhecida a via de transmissão”, explica o organismo.

Quanto ao vírus do papiloma humano (HPV), não há dados sobre o número de infeções, embora este seja um vírus que está na mira das autoridades de saúde e que tem uma campanha de vacinação ativa. Mas, mais uma vez, a médica Ana Meirinha aponta para a má comunicação. A especialista defende que é importante incentivar os mais novos à vacinação contra este vírus, mas que é igualmente determinante avisar que não estão protegidos a 100% e que os comportamentos de risco devem ser evitados.

Um dos maiores avanços foi a vacina do HPV, mas dá a sensação aos jovens que as DST existem e que não são um risco, o que é falso”, frisa a médica.

As campanhas de rastreio podem ser ferramentas de prevenção, algo para o qual os especialistas têm vindo a alertar, mas a médica Ana Meirinha diz que há falhas na sua execução e que o primeiro passo deve mesmo ser o da sensibilização, sobretudo nos menores de idade, onde o rastreio tende a ser mais complexo.

“O rastreio em menores de 18 anos tem de ser autorizado pelos pais, o que é um problema. Muitos pais não vão aceitar porque muitos não sabem se os filhos têm relações sexuais ou não, são ignorantes da vida sexual dos fillhos. E a própria ignorância dos jovens pode levá-los também a ignorar o rastreio”, lamenta.

A presidente da Sociedade Portuguesa de Contracepção adianta ainda que é necessária uma “educação sexual mais abrangente” e que Portugal precisa de acelerar a resposta nos rastreios. “Tem de haver um rastreio, os jovens têm de perceber que podem e devem fazer [rastreios], neste momento não é ainda possível, mas esperamos que aconteça em pouco tempo”, diz Fátima Palma, afirmando que as consultas de planeamento familiar são um primeiro passo a ser considerado, pois “já são acessíveis a todos o jovens que estão em idade fertil e se, por exemplo, aos 14 anos o jovem considera que está em risco de contrair uma DST pode fazer ir ao médico e fazer análises”. “Isso vai aumentar o conhecimento”, assegura.

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