Estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos mostra que há áreas com maior empregabilidade e com salários mais compensadores. Mas há um denominador comum: mais estudos permitem maior retorno. E os benefícios não são apenas salariais
Tirar um curso superior ainda vale a pena em termos de empregabilidade e de compensação salarial. É o que mostra um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos divulgado esta quinta-feira. A equipa coordenada por Luís Catela Nunes concluiu que, em média, os jovens trabalhadores com licenciatura ganham mais 28% do que os que se ficaram pelos estudos secundários. Os que conseguiram o grau de mestre ganham, também em média, mais 49% do que os jovens que não foram para o Ensino Superior.
“Os resultados indicam que o ensino superior oferece vantagens salariais substanciais ao nível da licenciatura e, sobretudo, do mestrado. Esta estrutura salarial segmentada por níveis de ensino manteve‑se estável ao longo da última década”, pode ler-se no estudo “Ensino Superior e emprego jovem em Portugal”.
E os benefícios de prosseguir estudos além do Ensino Secundário não se ficam por aqui: “Além dos ganhos financeiros, o Ensino Superior está associado a uma série de vantagens não monetárias”. “Os diplomados tendem a conseguir empregos de melhor qualidade e maior autonomia, alcançando um melhor equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, melhor saúde física e mental e maior envolvimento em atividades físicas. Embora não sejam facilmente quantificáveis em termos monetários, esses benefícios melhoram significativamente o bem‑estar e a qualidade de vida das pessoas”, sublinha ainda o documento.
São “vantagens visíveis” assim que se começa a trabalhar e vão aumentando com a experiência. Em termos financeiros, o estudo agora divulgado parece vir dar razão aos políticos que sugerem aos jovens que emigrem para conseguirem uma vida melhor, já que conclui que “os retornos reais podem ser ainda maiores, tendo em conta que muitos diplomados do Ensino Superior se mudam para o estrangeiro, onde ganham substancialmente mais”.
Uns cursos “pagam” melhor do que outros
Dentro dos cursos superiores, uns trazem maior retorno financeiro do que outros. As chamadas áreas de estudo STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) proporcionam salários médios mais elevados, com destaque para as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) - a “área mais bem remunerada tanto para os trabalhadores com mestrado (17,50 €/hora) como para os licenciados (13,70 €/hora), seguidas pela Matemática e Estatística (15,50 €/hora e 13,00 €/hora) e a Engenharia (14,00 €/hora e 12,4 €/hora)”.
“Algumas áreas não‑STEM também oferecem salários médios relativamente elevados para quem tem mestrado - por exemplo, Saúde (15,9 €/ /hora), Gestão e Administração (14,4 €/ /hora) e Direito (13,6 €/hora). No entanto, os licenciados nestas áreas ganham substancialmente menos (por exemplo, 10,50 €/hora em Saúde e 10,70 €/hora em Gestão e em Direito)”, acrescenta a investigação levada a cabo por Luís Catela Nunes, Pedro Reis e Teresa Thomas.
Quem fica fora deste lote de profissionais com cursos superiores melhor remunerados são, por exemplo, os professores, os assistentes sociais ou os animadores socioculturais. “Os mestres em Educação ou em Serviços Sociais (…) ganham apenas metade do que os licenciados em TIC”, exemplifica o estudo.
Ainda assim, as disparidades salariais são acentuadas, mesmo dentro das mesmas áreas de estudo. “Diplomados com o mesmo grau e a mesma área de estudo podem obter resultados muito diferentes. Alguns desempenham funções com salários elevados, enquanto outros ganham muito menos, mesmo dentro da mesma disciplina”, sublinha o estudo, dando como exemplo as TIC, onde “os 10% mais bem pagos ganham mais de 28€ por hora e os 10% menos bem pagos ganham menos de 9 € por hora”. Ou seja, os mais bem pagos ganham o triplo dos menos bem pagos. O mesmo acontece nos cursos da área da saúde, onde “os 10% mais bem pagos ganham mais de 26€ por hora e os 10% menos bem pagos ganham menos de 7€ por hora”.
Maior facilidade de conseguir emprego

No que toca a conseguir emprego, o estudo mostra que ter um mestrado facilita muito a vida aos jovens adultos. “Os indivíduos com mestrado têm as taxas de emprego mais elevadas. Em Portugal, 88% estão empregados 1‑2 anos após terminarem o curso, valor que aumenta para 93% após cinco anos”.
Os jovens com licenciatura conseguem alcançar o mesmo patamar dos licenciados, embora não logo de início: “Os indivíduos com licenciatura gozam, a curto prazo, de uma empregabilidade inferior à dos que têm mestrado, mas não a longo prazo”. “Em Portugal, 75% estão empregados no prazo de um a dois anos, abaixo da média da UE‑25, que é de 84%. No entanto, após cinco anos, a sua taxa de emprego melhora significativamente, igualando a dos mestres”, pode ler-se no estudo.
Nesta matéria, também se verificam diferenças dentro dos estudantes que se ficam pelos estudos secundários: “Os indivíduos que concluem o Ensino Secundário Profissional em Portugal têm, a curto prazo, taxas de emprego mais elevadas do que os do Ensino Secundário geral”. “No prazo de um a dois anos após a conclusão do curso, 72% estão empregados, por contraste com 56% dos alunos do Ensino Secundário geral. (…) Após cinco anos, as taxas de emprego aumentam para ambos os grupos e a diferença quase desaparecem”, pode ler-se.
“Cinco anos depois da conclusão do Ensino Secundário, os indivíduos que concluem o Ensino Secundário profissional e geral, em Portugal, atingem taxas de emprego de cerca de 88%, comparáveis às que são alcançadas pelos indivíduos com mestrado um a dois anos após a conclusão do curso. Avaliados desde a conclusão do ensino secundário, ambas as vias conduzem a uma elevada empregabilidade, embora com percursos diferentes”, acrescenta o estudo.
Opção pelo Ensino Superior está a crescer

A investigação mostra também que há cada vez mais jovens a optarem por prosseguir os estudos além do Ensino Secundário, assim como tem aumentado o número de jovens que concluem os cursos superiores. De acordo com o estudo, a percentagem de jovens com diploma de estudos superiores aumentou de 11% para 43%.
“O número de novos diplomados do Ensino Superior em Portugal atingiu níveis recorde em 2024, com 101.203 pessoas a terminarem um curso nesse ano”, destaca-se. No ano anterior, tinham sido 95.608 e, em 2022, foram 89.640 os novos diplomados em Portugal.
“As licenciaturas continuam a ser a qualificação mais comum, embora a respetiva percentagem - que se manteve estável, em cerca de 64%, até 2016 - tenha diminuído para 58% em 2024. Os mestrados constituem, de forma consistente, a segunda maior parcela, correspondendo a cerca de um terço do total. Os novos doutorados permanecem estáveis, em cerca de 3%”, quantifica o estudo.
Os alunos dos cursos científico‑humanísticos do Ensino Secundário são muito mais propensos a ingressar no Ensino Superior do que os alunos do Ensino Profissional. Em 2023, transitaram para o Ensino Superior 76% dos jovens que terminaram o Ensino Secundário num curso científico-humanístico e apenas 22% dos jovens que frequentaram um curso profissional no Secundário continuaram a estudar.
