Propagação do cancro é mais intensa à noite, revela novo estudo

CNN Portugal , FMC
23 jun, 23:03
Mamografia (picture alliance/ Getty)

Segundo Nicola Aceto, um dos autores da investigação, "os tumores acordam quando os pacientes estão a dormir"

Um dos grandes objetivos nas investigações relacionadas com o cancro é entender e eliminar o processo denominado de metástase. Este processo ocorre quando as células de um tumor são enviadas para a corrente sanguínea e se alastram e alojam noutros órgãos, dando origem a novos tumores. Nove em cada dez mortes por cancro são provocadas por esse processo, tornando o cancro mais agressivo. Um estudo realizado pelo Instituto Federal Suíço de Tecnologia em Zurique, na Suíça, e revelado na revista científica Nature na quarta-feira concluiu que a propagação é mais intensa à noite. 

Segundo noticia o El País, até ao momento acreditava-se que a emissão de células cancerígenas para o sangue ocorria a qualquer hora do dia. A investigação agora divulgada, que teve como foco mulheres com cancro na mama, descobriu que estas células nocivas, chamadas de células tumorais circulantes, ou CTCs, são mais suscetíveis de circular nas horas de repouso. 

Com este estudo, fica claro que "os tumores acordam quando os pacientes estão a dormir", diz o coautor Nicola Aceto. É um "passo em frente" na compreensão da metástase, diz. "E os passos em frente são uma coisa boa para os doentes a longo prazo".

O estudo fornece uma nova pista sobre a relação entre o cancro e o ritmo circadiano, o relógio biológico que dita os períodos de atividade física e mental e os períodos de repouso durante as 24 horas do dia.

O processo de investigação

A equipa percebeu, primeiramente, que os níveis de CTCs no sangue em ratos com tumores era diferente consoante a hora do dia em que as amostras eram colhidas. 

Essa observação levou Nicola Aceto e a sua equipa a recolher sangue de 30 mulheres hospitalizadas com cancro da mama metastático e não metastático, uma vez às 4:00 da manhã e outra vez às 10:00 da manhã. Os resultados corroboraram o que já tinha acontecido com os ratos: eram muito mais elevados à noite. Quase 80% dos CTCs apareceu na amostra retirada às quatro da manhã, altura em que as pacientes estavam em repouso. 

No início, "fiquei surpreendido porque o dogma é que os tumores enviam células em circulação a toda a hora", refere Aceto. "Mas os dados eram muito claros. Por isso, pouco depois de sermos surpreendidos, começámos a ficar muito entusiasmados". 

De forma a confirmar a descoberta, os investigadores decidiram enxertar tumores do cancro da mama em ratos e testar o nível de CTC dos animais ao longo do dia. Ao contrário do que aconteceu no caso dos humanos, os níveis das células cancerígenas atingiu o pico durante o dia. A explicação para a diferença entre as duas espécies advém da diferença no ciclo biológico. Enquanto a espécie humana repousa à noite, os ratos repousam durante o dia.

Além desta análise, os cientistas recolheram CTCs tanto quando os animais estavam em repouso como quando estavam ativos e voltaram a injetá-las. A conclusão desta experiência é que as células recolhidas em tempo de repouso foram as que se transformaram em novos tumores quando injetados, o que significa que o estado de repouso tem um papel crucial no processo de metástase. 

Aceto salienta, no entanto, que a razão que leva as células cancerígenas a desenvolver-se mais na hora de repouso pode dever-se a inúmeros fatores que ainda têm de ser investigados. As hormonas, que são uma ferramenta que o corpo utiliza para sinalizar que está na hora de acordar ou de ir para a cama, podem desempenhar um papel importante.

Comunidade científica congratula descoberta

Para Chi Van Dang, biólogo oncológico do Ludwig Institute for Cancer Research, em Nova Iorque, esta revelação "é impressionante". A medição da progressão do cancro é feita através dos níveis destas células e "a primeira lição é que a altura do dia em que se tira uma amostra de sangue pode dar-lhe informações enganosas", afirma o oncologista. 

Compreender como este processo funciona poderá um dia levar a melhores tratamentos contra o cancro, diz Dang, mas essa realidade pode ainda estar muito longe. É necessário que se realizem mais estudos sobre a matéria dos efeitos dos ciclos biológicos. 

Qing-Jun Meng, um cronobiólogo da Universidade de Manchester, no Reino Unido afirmou que esta descoberta poderá ser útil no acompanhamento da progressão do cancro. No entanto, Meng deixa um alerta: o sono não é um inimigo da doença. 

Alguns estudos demonstraram que as pessoas que têm cancro e que normalmente dormem menos de sete horas por noite correm maior risco de morte, e mexer com ritmos circadianos em ratos pode fazer com que o cancro se mova mais rapidamente. Os resultados não são uma indicação de que "não se precisa de dormir, ou que se precisa de menos sono", diz. "Significa simplesmente que estas células preferem uma fase específica do ciclo de 24 horas para ir para a corrente sanguínea". 

Harrison Ball e Sunitha Nagrath, do Rogel Cancer Center da Universidade de Michigan (EUA), notam que estes resultados têm "implicações surpreendentes" no tratamento do cancro. Ambos os investigadores apelam à realização de ensaios clínicos em larga escala com doentes para confirmar estes resultados. "Os oncologistas podem precisar de estar mais conscientes da hora do dia em que administram certos tratamentos", acrescentam. 

Roger Gomis, que lidera o grupo de investigação sobre metástases no Instituto de Investigação em Biomedicina, em Barcelona defende que "este trabalho é importante de um ponto de vista conceptual". "Está em linha com outros trabalhos que estão a revelar uma componente sistémica no cancro e a sua propagação. Um exemplo seriam os efeitos da dieta sobre o sucesso de alguns tratamentos contra o cancro", diz. "O difícil", adverte, "será aplicar estes conhecimentos básicos ao tratamento e diagnóstico, porque é impossível impedir os pacientes de dormir e fazer biópsias nas primeiras horas da manhã coloca grandes desafios", argumenta. 

María Casanova, investigadora do Centro Nacional Espanhol de Investigação do Cancro, acredita que o trabalho tem um valor "enorme". "É necessário extrair muito sangue para medir as células tumorais circulantes, e em fases muito avançadas é muito delicado. Só é feito em poucos pacientes para analisar até que ponto a quimioterapia está a funcionar bem. Ter estes dados de 30 pacientes é realmente muito", diz. 

Casanova refere ainda que a influência do ritmo circadiano poderá explicar também outras doenças. 

Andrés Hidalgo, investigador do Centro Nacional de Investigaciones Cardiovasculares, diz que o estudo é "chocante". "Apresenta-nos uma biologia do cancro que é menos previsível do que pensávamos e, obviamente, confirma que a doença não segue os mesmos horários que o nosso pessoal médico. Isto pode ser muito importante porque a radiação tem demonstrado ser muito mais eficaz se for aplicada quando o tumor está na fase ativa, multiplicadora, em vez de na fase de repouso. É possível que por vezes estejamos a bombardear quando o inimigo está protegido no seu bunker", sublinha. 

Esta descoberta vai ao encontro de outros trabalhos realizados no passado. Em 2014, uma equipa do Instituto Weizmann em Israel demonstrou uma ligação entre as hormonas noturnas e a propagação do cancro. Numa experiência concretizada também em ratos, perceberam que a administração de medicamentos contra o cancro tinha efeitos diferentes consoante a hora em que eram administrados. Certos tratamentos de cancro são menos eficazes se dados à noite.

Relacionados

Novo Dia CNN

5 coisas que importam

Dê-nos 5 minutos, e iremos pô-lo a par das notícias que precisa de saber todas as manhãs.
Saiba mais

Ciência

Mais Ciência

Patrocinados