Jovens admitem acesso online involuntário e perturbador a violência ou ódio

Agência Lusa , AM
22 jan, 07:16
Quando se percebe a ideia, começa-se a ver a “merdificação” por todo o lado - não só online, mas em toda a economia. Aleksandr Zubkov/Moment RF/Getty Images

Um em cada sete jovens (14,9%) “foram expostos a conteúdos que descreviam formas de cometer suicídio”

Jovens entre os 10 e os 21 anos foram expostos ‘online’ a discursos de ódio, violência, informação sobre automutilação ou suicídio de forma involuntária, pois a maioria (61,1%) não procurou esses conteúdos, revela um estudo divulgado.

“Há uma grande prevalência de exposição a experiências negativas, mas não é intencional. Nesta amostra representativa, 61,1% dos jovens nunca procuraram esse tipo de conteúdos e 67,1% afirmaram ter ficado perturbados”, adiantou a investigadora Mariana Rodrigues, da Faculdade de Psicologia e de Ciências das Educação da Universidade do Porto (FPCEUP).

A professora explica que o estudo Exposição a 'cyberbullying' e outros conteúdos prejudiciais online entre jovens em Portugal é o primeiro feito em Portugal “com amostra representativa dos jovens portugueses dos dez aos 21 anos” (foram entrevistados 2.071 pessoas), que juntou a dimensão do cyberbullying a outras exposições perigosas.

No documento, a que a Lusa teve acesso, os inquiridos dizem que “a exposição a conteúdos prejudiciais online foi comum nos últimos seis meses”.

Testemunharam discurso de ódio 47,2% dos jovens e 45,3% visualizaram material violento, ao passo que 39,7% viram conteúdos que retratavam consumo de drogas. Informação sobre automutilação chegou a 36,6% dos jovens. Material que promovia hábitos alimentares não saudáveis chegaram a 35,3% e 33% visualizaram conteúdos sexualizados.

Um em cada sete jovens (14,9%) “foram expostos a conteúdos que descreviam formas de cometer suicídio”, descreve a publicação.

Entre estes jovens, 61,1% “referiram nunca ter procurado ativamente esse tipo de conteúdos” e 67,1% afirmaram ter ficado perturbados/as com o que viram”, acrescenta o documento.

Quanto ao 'cyberbullying', 21,9% dos jovens receberam comentários online rudes ou ofensivos e 14% viram circular rumores sobre si.

Perto de 12% “experienciaram assédio online ou sentiram-se incomodados”.

Disseram que alguém partilhou informação privada sobre eles na Internet 10,8% dos jovens.

De acordo com o estudo, “jovens mais velhos e com estatuto socioeconómico mais baixo apresentam níveis mais elevados de exposição ao 'cyberbullying' e a outras formas de conteúdos prejudiciais online”.

As raparigas “são mais frequentemente expostas a material que promove comportamentos alimentares não saudáveis, enquanto os rapazes são mais expostos a conteúdos sexualizados”.

Os jovens mais expostos/as a conteúdos prejudiciais online e a 'cyberbullying' “tendem a apresentar pior saúde mental e bem-estar psicológico, incluindo mais pensamentos suicidas, sentimentos de vergonha mais intensos e menor satisfação com a vida”.

Contudo, “a exposição a conteúdos prejudiciais ‘online’ não esteve diretamente associada a sentimentos de solidão nem ao desempenho escolar após o controlo do apoio familiar, escolar e dos pares”.

Ou seja, “o apoio de amigos/as, a comunicação familiar positiva e ambientes escolares inclusivos protegem o bem-estar e o desempenho escolar”.

Ainda assim, a vivência do 'cyberbullying' “esteve associada a maior consumo de álcool e pior qualidade do sono”.

Tanto o 'cyberbullying' como a exposição a outros conteúdos prejudiciais online estão associados a pior ajustamento psicossocial, mas “o cyberbullying emerge como um risco mais proximal e relacional, com ligações mais fortes a resultados psicológicos graves e a comportamentos relacionados com a saúde”.

Em contrapartida, a exposição geral reflete padrões mais amplos de vulnerabilidade, enquanto a proteção está consistentemente enraizada nas relações com pares, família e escola.

A investigação indicou também que, no tempo de lazer, “os jovens passam mais tempo diariamente online do que offline”.

A navegação nas redes sociais “continua a ser a atividade online preferida, com 46,4% a referirem passar mais de três horas por dia nestas plataformas”.

Legislação restritiva no acesso a redes sociais não resolve os riscos

A investigadora responsável pelo estudo sobre exposição a 'cyberbullying' e outros conteúdos prejudiciais ‘online’ defende que uma restrição total, parental ou legislativa “não é a forma mais adequada” de resolver os riscos, sendo necessário regular os algoritmos.

A posição de Mariana Rodrigues, professora da Faculdade de Psicologia e de Ciências das Educação da Universidade do Porto (FPCEUP), surge após a conclusão do primeiro estudo “com amostra representativa dos jovens portugueses dos 10 aos 21 anos” (foram entrevistados 2.071 pessoas), que juntou a dimensão do 'cyberbullying' a outras exposições perigosas, como violência, automutilação ou suicídio.

“Relativamente às restrições legislativas [de acesso a redes sociais], julgo que não são a forma mais adequada. Estas tecnologias estão aí para ficar. Mas é preciso uma maior regulamentação, controle e responsabilidade. As formas como os algoritmos funcionam têm que ser revistas”, defendeu a professora auxiliar da faculdade, em entrevista à Lusa, a propósito do estudo Exposição a 'cyberbullying' e outros conteúdos prejudiciais online entre jovens em Portugal.

Para a investigadora, “uma das variáveis mais importantes desta equação” é “como funcionam as plataformas digitais” e a “forma fácil como são publicados conteúdos das mais diversas ordens e como eles são recomendados às crianças e jovens”.

A cientista assinala que, no estudo, 61,1% dos jovens é exposto a conteúdos sobre violência, ódio, automutilação ou formas de praticar suicídio de forma “não intencional”.

“Nesta amostra representativa, 61,1% dos jovens referiram nunca ter procurado ativamente esse tipo de conteúdos e 67,1% afirmaram ter ficado perturbados com o que viram”, assinalou.

A também investigadora do Centro de Investigação e Intervenção Educativas (CIIE) reconhece o papel de “capacitar crianças e jovens para as utilizarem de uma forma mais responsável”, mas “sem tirar a responsabilidade das plataformas digitais”.

“Devemos investir na literacia digital, informar, apostar na saúde pública, designadamente nas escolas. A tecnologia e a digitalização é um processo em curso e não há como travar”, disse.

Por outro lado, noutros países onde se implementou regulação restritiva, existe, desde logo, “uma carência enorme de mecanismos que efetivamente regulem o acesso a jovens através da idade”, e os jovens arranjam estas e outras formas de ter acesso.

No estudo, uma das coisas que os investigadores perceberam foi que os mesmos resultados se obtêm perante pais com posturas mais restritivas relativamente ao acesso de crianças e jovens a tecnologias e redes sociais.

“Quando há uma parentalidade ativa, ou seja, pais que informam, que ouvem, que estão atentos, que há uma comunicação aberta no seio da família, isto tem um impacto significativo estatisticamente, não só sobre a prevalência de experiências de 'cyberbullying' ou exposição a conteúdos danosos, mas, acima de tudo, diminui ou atenua as consequências destas experiências negativas, nomeadamente ao nível da saúde mental e do bem-estar psicológico”, explica.

Já com “uma mediação parental restritiva, que proíbe, até tecnicamente, com controlos, GPS e outros mecanismos tecnológicos disponíveis”, no estudo “os impactos não se mostraram significativos”.

“O que percebemos é que é necessário haver regras, mas que sejam negociadas, não impostas. Falar sobre os temas sem tabus, sem preconceitos tem um impacto positivo e significativo, estatisticamente, nas consequências destas experiências negativas no bem-estar psicológico e saúde mental dos jovens, ao contrário das mediações parentais restritivas”, sustenta.

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