O movimento Chumbado.pt nasceu da revolta de dois amigos, unidos na mesma angústia: os problemas com a classificação dos exames nacionais. Raul e Santiago criaram o movimento na madrugada de domingo e, em cinco dias, têm mais de 1.300 seguidores no Instagram e granjearam apoios de vários quadrantes
Na sexta-feira, Raul Noetzold saiu da escola Secundária Francisco Fernandes Lopes, em Olhão, já passavam das 23:30. Aguardou pacientemente, embora angustiado, que as notas dos Exames Nacionais fossem afixadas, como o ministro da Educação, Fernando Alexandre, tinha prometido. Teve a sorte de não ver nenhuma das suas notas suspensas, mas foi para casa com muitas dúvidas em relação a uma delas: “Tenho média de frequência de 17 e a nota é de 12,5. Acredito que não esteja bem classificada”. Pediu reapreciação do exame.
Na escola, ouviu relatos parecidos com o seu e histórias de colegas com as classificações suspensas. Nas escolas e nas redes sociais foi colhendo, nas horas seguintes, testemunhos de colegas indecisos se avançavam para a segunda fase ou esperavam que a situação se resolvesse e as falhas fossem corrigidas. Em contacto com o amigo de longa data Santiago Carrilho, a mais de 300 quilómetros de distância (Santiago é aluno da Escola Secundária da Quinta do Conde), decidiram criar um movimento de estudantes do Ensino Secundário, para reivindicar a resolução rápida dos problemas detetados no processo de classificação digital.
Chumbado.pt nasceu na madrugada de sábado para domingo, com a criação de uma página de Instagram. A adesão superou as expectativas dos dois jovens. Horas depois, já tinham mais de quatro centenas de seguidores. Cinco dias depois, já contam com mais de 1.300. Entretanto, criaram um site e marcaram um protesto para esta sexta-feira, às 18:00, em frente ao Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), na Avenida Infante Santo.
“Decidimos fazer da conta de Instagram um veículo para as pessoas relatarem problemas. Uma semana depois da afixação das notas, continuamos a receber relatos de pessoas a quem as coisas não correram bem”, revela Raul Noetzold, em declarações à CNN Portugal.
Em poucos dias, colheram apoio de centenas de alunos, 15 associações de pais, associações de estudantes do Ensino Superior, sindicatos e movimentos de professores e até de políticos e deputados. Fabian Figueiredo (Bloco de Esquerda), Filipa Pinto (Livre), Eva Cruzeiro (Partido Socialista), José Carlos Barbosa (PS) e Sofia Pereira (Juventude Socialista), foram dos primeiros políticos a solidarizarem-se com os jovens.
“Estou solidário com os estudantes e com todas as iniciativas cívicas que exijam o apuramento de responsabilidades pelo caos na classificação dos exames nacionais e que visem garantir que nenhum aluno fica prejudicado no acesso ao Ensino Superior por falhas que não lhe são imputáveis”, garante Fabian Figueiredo, em declarações à CNN Portugal.
“Os estudantes cumpriram a sua parte. Quem falhou foi o Ministério da Educação e é ao Ministério da Educação que cabe corrigir e responder”, acrescentou o deputado do Bloco de Esquerda, garantindo que tudo fará para estar presente no protesto.
A manifestação desta sexta-feira serve para exigir a demissão de Fernando Alexandre, mas vai mais longe do que isso. Os jovens querem ver assegurada “uma avaliação justa e transparente para todos os estudantes, garantindo que nenhum aluno é prejudicado por classificações suspensas, erros de digitalização, provas incompletas, atrasos nas reapreciações ou alterações das Fichas ENES”, pedem o alargamento do prazo das candidaturas ao Ensino Superior, a criação de um prazo alargado para a apresentação das notas resultantes das reapreciações, a isenção das taxas de reapreciação de exames e “o abandono imediato da atual plataforma de classificação”.
“Tenho muitas dúvidas que o ministério tenha colocado a funcionar corretamente um sistema informático que não conseguiu colocar a funcionar corretamente num ano. Também receamos que a reapreciação seja feita no mesmo sistema e não seja, por isso, bem feita. Pedimos, por isso, que os exames da segunda fase e época especial sejam classificados em papel”, diz Raul Noetzold.
A Fenprof assegura à CNN Portugal que vai procurar marcar presença no protesto. “Estamos sempre ao lado dos estudantes e disponíveis para participar nas iniciativas deles. Percebemos que muitos foram afetados por erros na classificação”, diz José Feliciano da Costa à CNN Portugal.
“Esta questão dos exames, bem como outros problemas na Educação, são consequências de décadas de desinvestimentos no setor. Esta questão especialmente é consequência do desmantelamento das estruturas do ministério. O ministro disse, muito orgulhoso, que tinha diminuído os funcionários do ministério de 2000 para 1000 e que os outros mil tinham ido dar aulas o que é mentira. Muitos estavam perto da reforma e reformaram-se, muitos foram para outras estruturas. Dos poucos que foram para as escolas, muitos estão lá nas bibliotecas e nos apoios… estão para lá, porque pertencem a grupos não carenciados e não têm vaga”, considera o dirigente sindical.
Também movimentos de professores como a Missão Escola Pública (MEP) ou o SOS Escola Pública se colocam ao lado dos estudantes. “A MEP considera esta manifestação não apenas legítima, mas também muito pertinente e necessária. Na intervenção pública realizada no sábado, a MEP dirigiu-se expressamente aos jovens, apelando a que assumam um papel ativo na defesa dos seus direitos. Recordámos que muitas das conquistas alcançadas na educação resultaram da participação cívica de gerações anteriores, que souberam fazer ouvir a sua voz nas escolas, nas ruas e nas universidades. É importante que os estudantes conheçam essa história e compreendam que também lhes cabe exercer uma cidadania ativa e responsável”, sublinha Cristina Mota, porta-voz do movimento.
A MEP apela mesmo à participação na manifestação e está “a tentar compatibilizar agendas” para também os integrantes do movimento estarem presentes. “Os alunos são os principais afetados pelas decisões tomadas nesta época de exames e têm todo o direito, até o dever, de manifestar, de forma democrática, a sua preocupação perante situações que consideram injustas. A defesa dos seus direitos faz parte do exercício da cidadania”, acrescenta Cristina Mota, acrescentando que, também para esta sexta-feira à tarde, tem agendada uma reunião com o bastonário da Ordem dos Advogados, para analisar as “implicações jurídicas das decisões tomadas nesta época de exames” e avaliar “quais os mecanismos legais que assistem aos alunos e às respetivas famílias para defenderem os seus direitos.
“Os professores estão sempre ao lado dos alunos!”, começa por sintetizar Goreti Costa, representante do SOS Escola Pública, em declarações à CNN Portugal. “Depois de vermos os professores na rua, traçando publicamente a personalidade caricatural de todo o processo de desmaterialização da avaliação externa e da classificação digital, já era hora de os principais prejudicados pela forma como tem sido gerido este processo tomarem o palco”, considera o movimento.
“Recordamos que, há 34 anos, aquando da luta dos estudantes em relação à Prova Geral de Acesso, no Governo de Cavaco Silva, foi na rua que estes conseguiram a abolição da mesma”, sublinha Goreti Costa.
Os organizadores do protesto não adiantam números, mas, a avaliar pela adesão ao movimento nas redes sociais e pelo impacto que têm tido as publicações do movimento Chumbado.pt, contam com uma presença acentuada de estudantes, pais e professores no protesto desta sexta-feira à tarde.
