Já imaginou não conseguir ver as estrelas? Em breve pode ser uma realidade

20 jan, 11:31
Noite em São Francisco (Michael Macor/AP)

Contaminação luminosa aumentou exponencialmente este século, e a culpa é das luzes

E se, de repente, deixássemos de conseguir ver as estrelas? Essa pode ser uma realidade não tão distante assim. Um estudo publicado na revista Science, e que juntou milhares de participantes, dá conta de que a visibilidade das estrelas é menor de década para década no hemisfério norte.

Tudo por causa do brilho noturno gerado pelas luzes artificiais, que provoca uma espécie de desaparecimento da cúpula celeste, envolvendo as cidades nos reflexos luminosos gerados pela mesma.

O problema, que os cientistas apelidam de contaminação luminosa, cresceu exponencialmente neste século. Segundo a base de dados Globe at Night, onde cerca de 51 mil pessoas introduziam os seus dados relativos à visibilidade das estrelas, o brilho no céu aumentou 10% a cada ano desde 2011. Segundo Cristopher Kyba, um dos autores do estudo, isso mesmo significa que uma criança nascida numa zona em que 250 estrelas eram visíveis só conseguirá ver 100 delas 18 anos mais tarde.

De resto, o investigador alemão admite mesmo que esse número possa reduzir para apenas cinco estrelas até ao final do século, entre as quais estarão Sirio, Vega, Arturo ou Canopo.

“As pessoas são atingidas por uma ‘beleza’ de luzes da cidade, como se fossem luzes numa árvore de Natal. Não percebem que são imagens de poluição”, notam os cientistas Fabio Falchi e Salvador Bará, também autores do estudo.

Até seria de esperar que com a adoção de luzes mais eficientes, como os LED’s, as cidades tornar-se-iam menos poluídas ao nível da luminosidade, mas a combinação de luzes existente acabou por agravar a situação. E é isso que o estudo mostra, baseando-se no olho humano e na perceção que temos a partir da Terra. Um cenário diferente dos estudos anteriores, que eram feitos a partir do Espaço. Assim torna-se possível perceber qual a perspetiva humana do fenómeno.

Os cientistas mostram-se cautelosos quanto à amplitude dos resultados, uma vez que grande parte das observações se deram na América do Norte, Europa ou este da Ásia. Isso permite conclusões sobre grande parte do hemisfério norte, mas deixa dúvidas relativamente à outra metade do planeta, onde, exceção feita a alguns países, não há tantas cidades com os níveis de luminosidade de Nova Iorque, Xangai ou Tóquio.

De resto, a Agência Espacial Internacional publicou em 2022 um estudo que apontava nesse sentido: “Enquanto a revolução do LED prometia reduzir o consumo de energia e melhorar a visão noturna, no fim aumentou [a poluição luminosa]. Paradoxalmente, quanto mais barata e melhor a luz, maior é a adição da sociedade a ela”.

Em paralelo, a poluição luminosa não afeta apenas a visibilidade, mas também a saúde ou os comportamentos, quer de humanos, quer de animais noturnos. No primeiro caso podem surgir, desde logo, distúrbios de sono, uma vez que luzes mais brilhantes vão despertar mais o cérebro, dificultando o processo de dormir. Quanto à vida animal, foram já identificados efeitos na diminuição da população de insetos, por exemplo, que está relacionada com o aumento da luminosidade.

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