A reabertura do Estreito de Ormuz pode tornar-se num pesadelo logístico e o fim da guerra pode não baixar preços do petróleo tão cedo
O presidente Donald Trump afirmou no sábado que a paz com o Irão está próxima e que o Estreito de Ormuz vai reabrir.
Veremos. Trump tornou-se o presidente que gritava “paz”. Depois de repetidos falsos alarmes nos últimos três meses, os mercados começaram a ignorar o relato constante de Trump. Em vez disso, aguardam sinais concretos de um acordo com o Irão.
O Irão tem adotado uma postura inflexível quanto à reabertura total do estreito — a sua principal arma de pressão ao longo de uma guerra em que foi militarmente ultrapassado. Mas Teerão utilizou lanchas rápidas, minas e drones melhorados para bloquear o estreito aos petroleiros, privando a economia global de um quinto do seu petróleo.
Mas se este for realmente o fim da guerra e o estreito estiver prestes a reabrir, o que acontece a seguir?
Quando voltarão os preços ao que eram antes da guerra?
Não tão cedo. Quase de certeza que não este ano. Talvez nunca.
O que acontece a seguir?
Assim que o estreito reabrir verdadeiramente, começará um pesadelo logístico.
Passo um: desbloquear os estrangulamentos no estreito
Isto vai demorar muito tempo, porque os petroleiros movem-se mais ou menos à velocidade de uma bicicleta.
Primeiro, terão de sair os cerca de 166 petroleiros retidos no Golfo Pérsico, transportando cerca de 170 milhões de barris de petróleo, segundo Matt Smith, principal analista petrolífero da Kpler. Só depois poderão entrar navios vazios, carregar petróleo e voltar a sair.
O regresso à plena capacidade de circulação de petroleiros pode demorar até três meses, segundo Victoria Grabenwöger, analista sénior de petróleo da Kpler.
Passo dois: reduzir as reservas armazenadas
Os navios vazios irão primeiro recolher petróleo dos armazéns que foram enchidos — porque os produtores não tinham onde o colocar.
A boa notícia é que as refinarias foram pragmáticas na gestão do armazenamento e nunca encheram totalmente as suas reservas. Isso deverá reduzir parte do tempo necessário para voltar a pôr as bombas a funcionar. Ainda assim, inventários acima do habitual irão atrasar o regresso da produção petrolífera à capacidade máxima.
Passo três: reiniciar a produção
Os poços petrolíferos do Médio Oriente foram em grande parte encerrados durante a guerra. Reativar a produção não é como carregar num interruptor. É um desafio complexo de engenharia que envolve física avançada e várias semanas de trabalho.
A produção terá de ser retomada lentamente para garantir que os reservatórios de crude não colapsam, evitando a necessidade de novas perfurações e reparações extensas. A água e o gás injetados nos poços terão também de ser reequilibrados, um processo delicado.
Como os poços da região são grandes e estão próximos uns dos outros, o reinício da produção exigirá coordenação significativa entre empresas e países para garantir que a pressão da água e do gás se mantém estável em vários poços.
Passo quatro: fazer reparações
Várias refinarias, produtores de gás natural e alguns produtores de petróleo sofreram danos durante a guerra. Algumas reparações às infraestruturas críticas afetadas poderão demorar anos, segundo as petrolíferas.
Há muito petróleo para voltar a colocar no mercado: 12 milhões de barris diários de crude e 3 milhões de barris de produtos refinados foram interrompidos no Médio Oriente — sobretudo na Arábia Saudita e no Iraque, segundo a Kpler. Não será tarefa fácil.
As grandes questões
Tudo isto parte do princípio de que a guerra acabou e de que não haverá novas perturbações no estreito. E todos sabemos o que acontece quando se parte de pressupostos...
Os últimos meses ficaram marcados por sucessivos falsos sinais de paz, levando os traders a manter os preços do petróleo elevados. A 18 de abril, o Irão concordou em reabrir o estreito, mas horas depois concluiu que os Estados Unidos e Israel tinham violado o acordo e voltou a disparar contra navios que tentavam atravessar a zona.
Os traders vão acompanhar atentamente a evolução da situação nas próximas semanas e meses para perceber se o Irão está realmente disposto a abdicar do controlo do estreito. Se estiver, deixará de cobrar taxas de passagem aos navios? A administração norte-americana continuará a bloquear o petróleo iraniano ou aceitará a exigência de Teerão de levantar o bloqueio como condição para a paz?
Além disso, as companhias marítimas terão de sentir confiança suficiente para voltar a enviar navios pelo estreito. Da última vez que o estreito reabriu — ainda que brevemente — os navios saíram rapidamente, apenas para inverterem o rumo pouco depois quando surgiram informações de que a travessia voltara a ser insegura.
As seguradoras fizeram disparar os preços dos seguros marítimos em milhares de pontos percentuais e poderão recusar-se a oferecer cobertura acessível enquanto a situação continuar instável.
O Irão ameaçou minar o estreito e já tinha imposto anteriormente uma rota específica para os navios — permitindo apenas a passagem mediante autorização. Muitas embarcações poderão não querer correr esse risco.
O que acontece aos preços do petróleo e do gás?
Os traders já tentaram várias vezes testar um novo patamar mínimo para o crude, mas os preços não descem abaixo dos 94 dólares por barril desde meados de março. Os futuros do Brent fecharam sexta-feira pouco acima dos 100 dólares por barril e, caso os mercados se mostrem otimistas quanto ao progresso das negociações de paz, poderão tentar testar limites inferiores quando a negociação reabrir na noite de segunda-feira.
Analistas do JPMorgan, que esperam que o estreito reabra no início de junho, antecipam que o petróleo se mantenha em média nos 97 dólares por barril durante o resto do ano. Historicamente, o Brent precisa de estar na faixa dos 60 dólares para que a gasolina custe cerca de 3 dólares por galão, observou Michael Green, estratega-chefe da Simplify Asset Management. O mercado de futuros não prevê que isso aconteça antes de 2032.
Quanto mais tempo durar esta paz e quanto mais provas houver de que a produção está a ser retomada, mais os preços do petróleo poderão cair.
Mas há demasiados “ses”.
O Irão já lançou dúvidas sobre a afirmação de Trump de que os navios poderão voltar a atravessar livremente o estreito.
“Embora o Irão tenha concordado em permitir que o número de embarcações em passagem volte aos níveis anteriores à guerra, isso não significa de forma alguma ‘passagem livre’ como existia antes do conflito”, noticiou a agência estatal iraniana Fars.
Veremos.
