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Crise no Estreito de Ormuz: Trump ainda pode formar uma coligação internacional e este negociador da Casa Branca explica como

CNN , Análise de Brett H. McGurk
17 mar, 14:00
Marinheiros transferem munições para um elevador de aeronaves a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln, da classe Nimitz, no Mar Arábico, em 27 de fevereiro. Comando Central dos EUA/Getty Images

NOTA DO EDITOR | Brett McGurk é analista de assuntos internacionais da CNN e desempenhou cargos de alto nível na área da segurança nacional sob as presidências de George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden

As primeiras duas semanas da crise com o Irão demonstraram a superioridade militar dos Estados Unidos e de Israel, com respostas assimétricas por parte de Teerão. O que acontecer nas próximas semanas será determinante para o desfecho. Eis porquê.

Num conflito militar, existem três tipos de escalada:

  • Escalada vertical corresponde a ataques diretos — alvos militares contra alvos militares. Aqui, os Estados Unidos e Israel mantêm vantagem. O Irão continua a tentar atingir instalações militares norte-americanas e Israel diretamente, mas com eficácia cada vez menor.

  • Escalada horizontal procura alargar o conflito — como os ataques do Irão contra países vizinhos do Golfo, a Jordânia, a Turquia e o Azerbaijão. Teerão pretende que estes países pressionem Washington a pôr fim à guerra antes da conclusão da campanha militar. Até agora, esses esforços têm falhado. Os países atingidos têm-se unido em oposição ao Irão.

  • Escalada assimétrica procura mudar as regras do jogo — por exemplo, terrorismo, ciberataques ou sabotagem económica. É aqui que o Irão tem vantagem. Tirou partido da geografia para encerrar a principal artéria energética do mundo no Estreito de Ormuz. Quanto mais tempo o estreito permanecer fechado, maior será a pressão sobre Washington. O Irão espera — e acredita — que o presidente Donald Trump acabe por encurtar a campanha antes de esta atingir o seu objetivo final.

A melhor resposta à escalada assimétrica é uma coligação de países com interesses comuns. Mas, na prática, isso é mais fácil de dizer do que de fazer — como Trump está agora a perceber.

Como se constrói uma coligação

Ajudei a formar coligações de várias dimensões para enfrentar desafios de segurança. Entre 2014 e 2018, desempenhei funções como enviado especial dos presidentes Obama e Trump e ajudei a reunir uma coligação que chegou a quase 80 países para combater o grupo terrorista ISIS [Estado Islâmico]. Os membros dessa coligação colaboraram não só militarmente, mas também através de sanções internacionais e novas regulamentações para travar a circulação de terroristas entre países ou em voos comerciais. Essa coligação foi bem-sucedida e ainda hoje existe.

Na imagem divulgada pela Marinha dos EUA, o chefe de controlo de fogo Kenneth Krull, destacado para o USS Carney, opera o sistema de combate durante um exercício no Mediterrâneo Oriental, a 14 de outubro de 2023. (Aaron Lau/AP/File)

Em 2023 e 2024, ajudei também a criar uma coligação naval para proteger uma passagem estreita no Mar Vermelho chamada Bab el-Mandeb (“Portão das Lágrimas”). Esta passagem foi encerrada depois de os Houthis — aliados do Irão — dispararem mísseis e drones contra navios militares e comerciais. A coligação acabou por incluir cerca de 20 países. Foi liderada pelos Estados Unidos, mas outros, como o Reino Unido e a Dinamarca, abateram mísseis e drones e apoiaram as operações militares norte-americanas.

Essa coligação no Mar Vermelho pode agora servir de modelo para o Estreito de Ormuz. Também poderá voltar a ser mobilizada caso os Houthis, sob influência do Irão, retomem ataques naquela região.

Eis o que seria necessário:

Base legal

Uma coligação militar resulta, na prática, de uma série de decisões legais e políticas tomadas por cada país. A maioria — incluindo aliados históricos dos Estados Unidos — tem leis e critérios próprios que precisam de ser cumpridos antes de enviar forças militares para o estrangeiro, sobretudo quando pode haver uso de força.

Para os EUA, isso exige paciência e trabalho diplomático com cada governo, de forma a garantir as condições legais necessárias para a participação.

Muitas vezes, este processo começa nas Nações Unidas. No caso do ISIS, o governo do Iraque invocou o Artigo 51 da Carta da ONU, pedindo autodefesa coletiva contra o grupo terrorista. Isso foi suficiente para que muitos aliados da NATO prestassem apoio. No caso dos Houthis, o Conselho de Segurança da ONU aprovou, no início de 2024, uma resolução que condenava os ataques no Mar Vermelho e reafirmava o direito à liberdade de navegação. Também aqui isso abriu caminho à participação militar de vários países.

Na atual crise, a administração Trump fez progressos neste campo. Na semana passada, um número recorde de 135 países copatrocinou uma resolução do Conselho de Segurança que condena os ataques do Irão no Golfo e exige o seu fim. Tal como há dez anos no caso do ISIS, esta resolução invoca o direito de autodefesa coletiva previsto no Artigo 51 da Carta da ONU. Só isso deverá bastar para cumprir os requisitos legais de participação numa missão militar centrada no Estreito de Ormuz.

Base política

A situação complica-se ao nível político interno de cada país. Mesmo com os requisitos legais cumpridos, os líderes eleitos enfrentam limitações políticas e precisam de apoio interno antes de enviar tropas para o estrangeiro.

É aqui que a administração Trump pode falhar.

Dois dos países mais relevantes, com forte capacidade naval e experiência no combate a mísseis e drones, são o Reino Unido e a Dinamarca. No entanto, ainda na semana passada Trump rejeitou, numa publicação nas redes sociais, uma oferta de ajuda do Reino Unido, considerando-a tardia. E no mês anterior, Washington esteve envolvido numa disputa com a Dinamarca devido à Gronelândia. Nada disto ajuda quando se pede agora a estes países que coloquem militares em risco numa guerra cuja decisão de início não lhes coube.

Sem dúvida, o Estreito de Ormuz é um desafio internacional que exige uma resposta internacional. As táticas do Irão são previsíveis, mas também extremas, e representam uma ameaça à economia global. Trata-se do tipo de missão em que os países têm interesse em participar.

No entanto, os Estados Unidos iniciaram esta guerra com consultas limitadas aos aliados e estão agora a pedir apoio já duas semanas após o início da campanha. Isto pode ser ultrapassado — e há diplomacia em curso nos bastidores — mas teria sido preferível começar mais cedo.

Base militar

Mesmo que os requisitos legais e políticos sejam cumpridos, começa então o trabalho mais difícil: definir necessidades militares, atribuições e regras de combate. Trata-se de um processo detalhado, moroso e potencialmente divisivo.

Na coligação do Mar Vermelho, por exemplo, a França mostrou reservas quanto à cadeia de comando e optou por criar uma coligação paralela, em vez de atuar diretamente sob comando dos EUA (ou do Reino Unido). Uma coligação no Estreito de Ormuz estaria quase certamente sob comando norte-americano, tendo em conta as operações em curso — algo que poderá gerar resistência de alguns países.

As regras de combate também são difíceis de negociar. Um contratorpedeiro britânico, por exemplo, poderia ter autorização para atacar lançadores de mísseis dentro do Irão ou apenas para se defender de ataques em curso?

O pedido de Trump para que a China participe acrescenta outro problema. Não há qualquer hipótese de as forças militares dos EUA ou de países aliados integrarem uma coligação com a China, nem de Pequim aceitar colocar os seus navios sob comando norte-americano. É verdade que grande parte do petróleo do Golfo é exportado para a China — mas garantir a segurança das rotas marítimas globais tem sido historicamente uma responsabilidade dos Estados Unidos, e deverá continuar a sê-lo.

Semanas, pelo menos

Se tudo isto parece complexo, é porque o é. Construir uma coligação exige tempo, recursos e um trabalho minucioso. Ainda assim, o simples processo de formação pode influenciar o rumo da guerra.

O Irão perceberia que as suas táticas assimétricas podem sair-lhe pela culatra, enfrentando não apenas os Estados Unidos, mas uma força internacional. A perspetiva de uma resposta global poderá também ajudar a estabilizar os mercados.

Entretanto, as forças norte-americanas estão a preparar o terreno para o sucesso dessa eventual coligação, destruindo o que resta das capacidades iranianas de mísseis, drones e meios navais.

Assim, embora não seja expectável ver uma coligação naval operacional num futuro imediato, deverá começar a ganhar forma nos próximos dias o trabalho diplomático necessário para a sua criação. Sem isso, o Irão poderá manter a sua vantagem assimétrica, mesmo perdendo nos planos vertical e horizontal.

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