A guerra com o Irão tornou-se uma batalha por uma portagem. A liberdade dos mares está em risco

CNN , Análise de Hanna Ziady e David Goldman
15 jul, 14:59
Crianças brincam na água, com navios de carga ao fundo e um pescador nas proximidades, no Estreito de Ormuz, ao largo de Bandar Abbas, no Irão, a 30 de junho de 2026. Amirhosein Khorgooi/ISNA/AP
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Se o conflito deixar Ormuz sob controlo permanente do Irão — ou dos Estados Unidos — poderá marcar o princípio do fim da liberdade de navegação em alto-mar, um conceito que sustenta o comércio mundial há séculos

O que começou como uma campanha para reduzir as capacidades nucleares do Irão e enfraquecer as suas redes globais de terrorismo transformou-se numa disputa pelo controlo de uma das mais importantes rotas comerciais do mundo.

A guerra com o Irão tornou-se uma batalha pelo Estreito de Ormuz, um ponto de estrangulamento estratégico para o transporte mundial de petróleo, gás natural, fertilizantes e outras matérias-primas.

Se o conflito deixar Ormuz sob controlo permanente do Irão — ou dos Estados Unidos — poderá marcar o princípio do fim da liberdade de navegação em alto-mar, um conceito que sustenta o comércio mundial há séculos.

"Este cenário pode criar um precedente perigoso e tornar o comércio marítimo internacional muito mais caro, um custo que acabará inevitavelmente por ser suportado pelos consumidores finais", diz à CNN Erik Grundt, analista sénior da consultora Rystad Energy.

A nova arma energética do Irão

Depois do início dos ataques liderados pelos Estados Unidos e por Israel, a 28 de fevereiro, o Irão declarou quase de imediato o encerramento do Estreito de Ormuz, provocando o maior choque de abastecimento de petróleo da História.

Tendo conquistado uma nova fonte de influência sobre a economia mundial, Teerão luta agora para a manter.

As embarcações que pretendam atravessar o estreito têm de coordenar a passagem com a recém-criada Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico (Persian Gulf Strait Authority, PGSA), o que pode implicar pagamentos elevados, ou arriscar-se a ser alvo das forças armadas iranianas e da Guarda Revolucionária.

Embora as taxas tenham sido temporariamente suspensas quando o Irão assinou um Memorando de Entendimento de 60 dias com os Estados Unidos, a 18 de junho, o controlo iraniano sobre as travessias através da PGSA não foi interrompido.

Pelo contrário. O Irão aproveitou uma cláusula específica do memorando, que apela a Teerão para "tomar as medidas necessárias... para garantir a passagem segura de embarcações comerciais", para legitimar e consolidar o seu controlo sobre o estreito. Na terça-feira, o Irão afirmou que mais de 200 navios não iranianos coordenaram a sua passagem com a Persian Gulf Strait Authority nas três semanas após a assinatura do memorando. A CNN não conseguiu verificar esta alegação de forma independente.

Entretanto, a administração Trump interpretava esta cláusula como significando que os navios poderiam atravessar livremente o estreito, sem restrições, durante o período de 60 dias. As travessias aumentaram efetivamente, chegando a cerca de 70 embarcações por dia no pico registado após o memorando, aproximadamente metade das que atravessavam diariamente o estreito antes da guerra.

Mas o regresso das tensões no Estreito de Ormuz reduziu novamente esse fluxo para um mínimo — pouco mais de uma dúzia de embarcações no domingo.

O presidente Donald Trump chegou, por momentos, a adotar uma estratégia semelhante à do Irão, ao anunciar que os Estados Unidos cobrariam uma taxa de 20% aos navios comerciais que atravessassem Ormuz como compensação pelos esforços norte-americanos para proteger a via marítima. A ameaça foi retirada menos de 24 horas depois de ter sido publicada nas redes sociais.

Segundo a associação internacional de armadores BIMCO, essa taxa corresponderia a cerca de 27 milhões de dólares por viagem para um petroleiro de muito grande dimensão.

Apesar do valor considerado absurdo, a ameaça de Trump acabou por legitimar as ações do Irão — uma ironia que o regime iraniano fez questão de assinalar sarcasticamente nas redes sociais.

Por sua vez, o Irão afirmou que a taxa proposta por Trump era excessiva. "20% é, evidentemente, demasiado", escreveu na segunda-feira o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, na rede social X. "Nós seremos justos."

O problema das portagens

Se as portagens em Ormuz se tornarem a nova norma, os custos do transporte marítimo poderão aumentar, alerta Rob Thummel, gestor sénior de carteiras da Tortoise Capital.

O aumento dos custos é preocupante — mas não é o principal problema.

Segundo informações disponíveis, o Irão estará a cobrar entre um e dois dólares por barril transportado em petroleiros, arrecadando cerca de dois milhões de dólares por cada Very Large Crude Carrier (VLCC).

No entanto, mesmo que as empresas de navegação estivessem dispostas a pagar, as seguradoras recusariam cobrir navios que efetuassem pagamentos a entidades sujeitas a sanções, categoria que inclui várias instituições-chave iranianas.

"Esqueçam os argumentos jurídicos; as seguradoras resolverão esta questão primeiro", afirma Nigel Green, diretor executivo da consultora financeira deVere Group. "Se se associar uma portagem ao risco de sanções, os seguradores podem simplesmente deixar de conceder cobertura."

Um casal observa várias embarcações ao largo de Mascate, perto do Estreito de Ormuz, em Omã, a 18 de junho de 2026. (Elke Scholiers/Getty Images)

Mesmo que um terceiro, como Omã, fosse responsável pela cobrança das taxas, essas portagens continuariam, muito provavelmente, a violar o direito marítimo internacional, incluindo a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (UNCLOS), permitindo às seguradoras recusar cobrir viagens ou cancelar as apólices.

Existe também uma preocupação mais ampla: a possibilidade de a monetização de Ormuz criar um precedente para outros pontos estratégicos do comércio marítimo mundial, incentivando países como Indonésia, Singapura, China, Taiwan e Reino Unido a utilizar a sua posição geográfica como instrumento de pressão.

Nos dez principais pontos de estrangulamento marítimo do mundo — incluindo Ormuz, Gibraltar, Taiwan, Dover e Malaca — as potenciais receitas anuais provenientes da cobrança de taxas de passagem ultrapassariam os 136 mil milhões de dólares por ano, representando uma enorme oportunidade de receitas soberanas atualmente "por explorar", segundo uma estimativa dos analistas seniores da Rystad Energy Michelle Brouhard e Emmanuel Belostrino.

"Um mundo em que estes pontos estratégicos sejam monetizados será, muito provavelmente, mais inflacionista, mais fragmentado e mais militarizado", concluíram.

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