"Ainda esta manhã dois caças trocaram tiros enquanto estávamos a trabalhar". Milhares de marinheiros presos no meio da guerra no Irão

13 mar, 12:42
Estreito de Ormuz (Marine Traffic)

Cerca de 20 mil marinheiros estão retidos em petroleiros e navios de carga no Golfo Pérsico, depois de o Irão ameaçar atacar embarcações que atravessem o Estreito de Ormuz. Tripulações relatam existência de drones, combates aéreos, falhas de GPS e escassez de água e alimentos

Milhares de marinheiros estão retidos em petroleiros e navios de carga no Golfo Pérsico devido à escalada militar entre Irão, Estados Unidos e Israel, que levou Teerão a ameaçar disparar contra embarcações que tentem atravessar o Estreito de Ormuz.

À BBC, vários marinheiros a bordo de navios que não conseguem deixar a área relatam que assistem diariamente a ataques e confrontos aéreos enquanto permanecem no mar ou ancorados em portos.

“Vi drones e mísseis de cruzeiro iranianos a voar a baixa altitude. Também ouço o som de caças, mas não conseguimos identificar a que país pertencem”, afirma Amir (nome fictício), um marinheiro paquistanês a bordo de um petroleiro nos Emirados Árabes Unidos que não consegue sair da zona.

A região tornou-se palco frequente da circulação de drones, mísseis de cruzeiro e caças militares e as tripulações dizem que o que mais os assusta é a possibilidade de drones ou mísseis caírem no navio. Hein (nome fictício), marinheiro paquistanês, conta que estava a trabalhar quando viu "dois caças a trocar tiros".

“Ainda esta manhã, dois caças trocaram tiros enquanto ainda estávamos a trabalhar. Não há nenhum local específico no navio onde nos possamos esconder nestas situações, e tivemos simplesmente de correr para dentro [do navio]."

Segundo a Bangladesh Merchant Marine Officers' Association, cerca de 20 mil marinheiros poderão estar atualmente retidos na região. Pelo menos sete navios já terão sido atingidos por projéteis desde o início da guerra e um marinheiro morreu a 1 de março a bordo do petroleiro Skylark, incidente que "traumatizou" a tripulação.

O capitão Anam Chowdhury, presidente da associação, diz que há barcos que estão em mar alto e outros presos em portos, mas que isso não significa que estão a salvo.

“Dentro do porto, as pessoas podem pensar que é seguro, mas já houve navios que foram bombardeados enquanto estavam ancorados”, explica.

Além do risco de ataques, as tripulações enfrentam falhas de comunicação, interferências no GPS e escassez de alimentos e água. Em alguns navios, as refeições foram racionadas e as provisões podem durar apenas algumas semanas.

Para além dos marinheiros preocupados, também as suas famílias vivem a situação com grande ansiedade.

Em declarações à BBC, Ali Abbas, pai de um marinheiro que está num navio num porto iraniano perto do Estreito de Ormuz, diz que escondeu da mulher e da nora que um colega do filho tinha ficado ferido num dos ataques. Pior: desde terça-feira que Abbas não consegue falar com o filho.

"Por amor de Deus, ajudem-me", pediu, emocionado, acrescentando que espera que o filho esteja bem e que a falta de contacto seja por falha nas comunicações.

Seo-jun, capitão de um barco com mais de 20 tripulantes da Coreia do Sul e de Myanmar, diz mesmo que, "desde que a guerra começou, tem havido interferências no GPS de forma intermitente, mas a situação piorou muito nos últimos três ou quatro dias", e que quando o navio entrou no Dubai tiveram de navegar sem GPS.

As preocupações não param para esta embarcação. Com drones a sobrevoar o porto, com comunicações instáveis, e sem conseguirem um local seguro, os navios estão a ficar sem água potável e sem saber quando vão receber provisões. 

"O navio consegue produzir água potável através da dessalinização da água do mar, mas isso torna-se difícil se não estivermos a navegar", refere Seo-jun.

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