"A maioria suspendeu as travessias, mas há alguns aventureiros": como um multimilionário grego está a desafiar o bloqueio do Estreito de Ormuz

CNN Portugal , BCE
6 mar, 22:17
Estreito de Ormuz (Getty)

 

 

 

Magnata é proprietário da Dynacom Tankers, empresa que chegou a estar incluída na lista de "patrocinadores internacionais da guerra" na Ucrânia, tendo sido acusada de "financiar a invasão russa"

Um multimilionário grego foi um dos poucos "aventureiros" a enviar petroleiros para o Estreito de Ormuz em plena guerra entre EUA, Israel e Irão.

Enquanto centenas de petroleiros continuam presos no Golfo, sem saber como sair, pelo menos cinco navios da Dynacom Tankers atravessaram, desde sábado, aquela que é uma das principais rotas energéticas comerciais do mundo, debaixo de fogo.

Segundo o Financial Times (FT), todos os navios desligaram os seus transponders, dispositivos que transmitem automaticamente a localização e a identidade da embarcação, para atravessar o Estreito de Ormuz. O petroleiro Athina, que estava na região antes dos ataques, deixou de transmitir a sua localização ao início da noite de sábado, a sudeste do estreito, antes de reaparecer no dia seguinte, no Golfo. De acordo com o jornal, o navio chegou sem carga ao porto de Sitrah, no Bahrein, na segunda-feira e partiu dois dias depois com uma carga de petróleo.

“A maioria dos armadores suspendeu as travessias até que a situação se acalme”, disse um corretor de navios, citado pelo diário britânico. “Mas há alguns aventureiros dispostos a correr o risco."

Para a Dynacom Tankers, as recompensas sobrepõem-se aos riscos de fogo cruzado. As taxas de frete para os petroleiros que saem do Golfo mais do que duplicaram desde sexta-feira, dia anterior aos ataques dos EUA e Israel ao Irão, atingindo máximos históricos. Isto significa que um navio petroleiro que atravesse o estreito até à China renderá cerca de 500 mil dólares por dia, excluindo o custo do seguro contra riscos de guerra.

Há muito que George Prokopiou, 79 anos, é conhecido por correr riscos. Nascido numa família abastada em Atenas, Prokopiou faz parte da última geração de armadores gregos que há muito dominam o comércio marítimo. Quem o conhece descreve-o como um homem "despretensioso", "viciado no trabalho" e que conduz um SUV Mercedes antigo, sem seguranças a acompanhá-lo - algo que, segundo o FT, é "uma raridade entre a elite de navios na Grécia".

Prokopiou é conhecido na sua terra natal como o "rei do mercado imobiliário", tendo em conta o seu extenso portefólio imobiliário, mas passa a maior parte do tempo no seu megaiate, o Dream, de 106,5 metros de comprimento, segundo o jornal. O multimilionário comprou o seu primeiro navio quando tinha vinte e poucos anos e, a partir daí, construiu uma enorme frota em todo o mundo. Hoje, as suas três companhias de navegação incluem mais de 150 navios, estando outros 85 em construção.

"É uma lenda do setor e uma daquelas pessoas que fazem aquilo a que chamamos negócios premium”, afirma ao Financial Times um corretor naval que trabalhou com as empresas de Prokopiou nos últimos anos. 

A Dynacom Tankers parece imune a cenários de guerra. Segundo o FT, a empresa de Prokopiou transportou dezenas de milhões de barris de crude russo só no último ano, sendo uma das maiores transportadoras de crude desde a invasão russa da Ucrânia. O magnata chegou a estar no centro de uma polémica quando, em 2022, meses após o início da guerra na Ucrânia, afirmou que as "as sanções nunca funcionaram".

A empresa chegou a estar incluída na lista de "patrocinadores internacionais da guerra" da Agência Nacional de Prevenção da Corrupção da Ucrânia, que acusou a Dynacom de "reabastecer o orçamento do país agressor e financiar a invasão russa". Em 2023, a agência retirou-a da lista. 

De acordo com o corretor de navios, Prokopiou agiu sempre dentro da lei e cumpriu os tetos de preços e outras restrições ao comércio de crude russo. O que acontece é que o magnata "obtém a maior parte da sua margem de lucro" ao aceitar transportar cargas que outros não aceitariam, afirma a mesma fonte.

Para o magnata, os riscos são essencialmente financeiros, mas são os tripulantes a bordo dos navios que arriscam as suas vidas. O Irão ameaçou destruir qualquer navio que tentasse atravessar o estreito e, segundo o Financial Times, pelo menos nove navios foram atingidos por ataques desde o início do conflito, havendo registo de pelo menos três mortes entre tripulantes.

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