As ilhas estão “estrategicamente localizadas para controlar qualquer navegação” que tente entrar ou sair do golfo. Eventuais ataques a estas ilhas poderiam demorar entre dois dias e duas semanas a serem concluídos - mas há riscos
Com milhares de soldados norte-americanos a caminho do Médio Oriente, crescem as especulações de que a sua missão é tomar a ilha iraniana de Kharg, um importante centro de distribuição de combustível no norte do Golfo Pérsico, responsável por 90% das exportações de petróleo de Teerão.
Mas Kharg é apenas uma das dezenas de ilhas iranianas no golfo, e outras podem ser ainda mais importantes para garantir a passagem segura de navios – e embarcações navais – pelo estreito de Ormuz.
Sete destas ilhas – Abu Musa, Grande Tunb, Pequena Tunb, Hengam, Qeshm, Larak e Ormuz – formam aquilo a que os investigadores da Universidade Sun Yat-sen, em Zhuhai, na China, chamam de “arquitetura de defesa” do Irão.
“Uma curva hipotética a ligar estas ilhas ajudaria ainda mais a compreender a superioridade estratégica do Irão no controlo da segurança” do Estreito de Ormuz, escreveram o investigador iraniano Enayatollah Yazdani e o investigador chinês Ma Yanzhe num artigo de 2022 para o Centro Canadiano de Ciência e Educação. Abu Musa, Tunb Maior e Tunb Menor – o mais pequeno dos sete e situado na extremidade oeste do arco – são fundamentais para o controlo do estreito, escreveram os dois investigadores.
Devido à curta distância entre elas e à profundidade da água no golfo, em grande parte pouco profundo, “os grandes navios de guerra e os petroleiros são obrigados a passar a pé” pelas três ilhas, disseram os investigadores. Isto pode torná-las alvos fáceis para lanchas de ataque rápido, navios lança-minas ou drones da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) que operam a partir destas ilhas.
As autoridades iranianas referiram-se a elas e a outras ilhas do golfo como os “porta-aviões estacionários e inafundáveis” de Teerão, escreveram Yazdani e Ma.
No ano passado, a IRGC afirmou que estava a reforçar a sua presença em Abu Musa, Grande Tunb e Pequena Tunb, de acordo com um relatório da Fundação para a Defesa das Democracias.
“A nossa abordagem tática exige que armemos e operacionalizemos este grupo de ilhas. Temos capacidade para atacar bases inimigas, navios de guerra e ativos na região”, disse na altura o comandante da Marinha da IRGC, Contra-Almirante Alireza Tangsiri - que foi morto numa operação israelita, segundo uma informação avançada por Israel e pelo Comando Central dos EUA e entretanto confirmada pelo Irão.
Como as ilhas são consideradas inafundáveis, as posições militares iranianas que ali estão teriam de ser eliminadas para garantir a passagem segura dos navios de guerra americanos – potencialmente aqueles que transportam Unidades Expedicionárias de Fuzileiros Navais (MEUs, na sigla em inglês) dos EUA – para o coração do Golfo Pérsico, no caso de uma tentativa de desembarque na Ilha de Kharg.
As ilhas estão “estrategicamente localizadas para controlar qualquer navegação” que tente entrar ou sair do golfo, disse o analista Carl Schuster, sediado no Havai e antigo diretor do Centro Conjunto de Informação do Comando do Pacífico dos EUA.
Não existe um calendário definido para possíveis ataques anfíbios americanos a qualquer uma das ilhas iranianas.
Na quinta-feira, o presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou que iria prolongar a suspensão dos ataques às infraestruturas energéticas do Irão por 10 dias, até 6 de abril, para verificar se poderia ser alcançado um acordo com Teerão para pôr fim aos combates. O prazo anterior expiraria na noite de sexta-feira, horário do leste dos EUA.
O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, disse aos jornalistas que "houve progressos" nas negociações com o Irão.
Mas não houve qualquer anúncio de pausa na campanha militar em geral. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, afirmou na quinta-feira que os EUA continuariam a "negociar com bombas".
A CNN noticiou que elementos de duas Unidades Expedicionárias de Fuzileiros Navais (MEUs, na sigla em inglês) – com cerca de 4 mil soldados – estão a caminho do Médio Oriente. Além disso, cerca de mil militares da 82.ª Divisão Aerotransportada do Exército dos EUA foram alertados para o destacamento.
Schuster admite que pode ser necessário empenhar toda a força destas unidades para assumir o controlo das principais ilhas defensivas do Irão. "Utilizaria duas MEUs para garantir uma força esmagadora", frisou.
O desembarque das tropas americanas nas ilhas ocorreria de duas formas: por via aérea ou por via marítima.
Os navios da Marinha dos EUA transportam embarcações de desembarque, incluindo LCACs (Landing Craft Air Cushioned), que podem deslizar até às praias para desembarcar tropas e o seu equipamento. Mas levá-las para o interior do Golfo pode ser um problema, uma vez que os seus navios-mãe teriam de ultrapassar as possíveis defesas iranianas nas ilhas mais distantes – Ormuz, Larak, Qeshm e Hengam – bem como no território continental iraniano.
O analista militar da CNN, Cedric Leighton, afirmou na quinta-feira que Larak, na entrada leste do estreito, representa um problema para os navios de guerra que tentam entrar no golfo.
É que o Irão “poderia bloquear qualquer coisa que passe pelo estreito”, com recurso a mísseis ou pequenas embarcações de ataque lançadas de Larak, sugere o jornalista Erin Burnett, da CNN.
Os navios da Marinha transportam também aeronaves de rotor basculante CV-22 Osprey, capazes de realizar descolagens e aterragens verticais, bem como helicópteros. Mas estas aeronaves são lentas e vulneráveis às defesas aéreas que os ataques aéreos anteriores podem não ter atingido.
As tropas da 82.ª Divisão Aerotransportada poderiam saltar de paraquedas sobre as ilhas a partir de aeronaves que voam a altitudes mais elevadas, mas um ataque deste tipo exigiria menos equipamento do que aquele que pode ser transportado por via marítima.
Em resumo, os ataques às ilhas poderiam demorar entre dois dias e duas semanas a serem concluídos, mas, se fossem bem-sucedidos, teriam resultados importantes, explica Schuster.
“Tomem a ilha, instalem um radar e algumas tropas e, assim, poderão monitorizar a atividade no estreito, ao mesmo tempo que impedem o Irão de usar a ilha como base para drones e outras operações”, explicou Schuster, referindo-se a Abu Musa.
Um relatório de 24 de Março do Instituto para o Estudo da Guerra indicava que os aviões de guerra americanos e/ou israelitas começaram a atacar a infraestrutura militar iraniana, incluindo hangares, portos e armazéns em Abu Musa, Grande Tunb e Pequena Tunb – o tipo de ataque que, segundo Schuster, precederia uma invasão anfíbia.
Mas tomar as ilhas é apenas uma parte da tarefa. Seria necessária uma força de ocupação de cerca de 1.800 a 2 mil soldados para garantir que as ilhas não pudessem ser utilizadas novamente pelos iranianos, ressalvou Schuster - e isso poderia deixar as tropas americanas numa posição vulnerável.
“Controlar qualquer um destes territórios exigirá também que as forças norte-americanas impeçam ataques de drones, mísseis e artilharia vindos do território continental iraniano, o que poderá envolver os EUA num conflito impopular e de longo prazo em território iraniano, acompanhado por um aumento das baixas norte-americanas”, pode ler-se num novo relatório do Soufan Center, uma organização de análise apartidária com sede em Nova Iorque.
Segundo Schuster, é essencial garantir a defesa contra drones e mísseis para quaisquer tropas norte-americanas nas três ilhas iranianas: “Se o Irão tiver drones e mísseis balísticos disponíveis, bombardeará qualquer força hostil nestas ilhas.”
Ao mesmo tempo, Schuster vê vantagens em tentar tomar as três ilhas na parte inferior do golfo, em vez de Kharg, o centro petrolífero na parte superior.
"Há menos risco de prejudicar a economia de um futuro governo iraniano", explicou.
Como a maior parte do petróleo do Irão flui por Kharg, qualquer conflito que atinja uma das suas infraestruturas petrolíferas poderá atrasar a recuperação pós-guerra em anos, enquanto a região é reconstruída.
Os ataques iranianos às instalações de gás natural liquefeito do Catar no início deste mês causaram danos que podem demorar até cinco anos a reparar, indicaram responsáveis da QatarEnergy.
Mas, segundo os analistas, a ação dos EUA para tomar Abu Musa e as ilhas de Tunb Maior e Menor também poderá ter repercussões no pós-guerra.
Em 1971, o Irão, então governado pelo Xá, apoiado pelos EUA, assumiu o controlo das ilhas quando os Emirados Árabes Unidos conquistaram a independência da Grã-Bretanha colonial.
Desde então, os Emirados Árabes Unidos contestaram as ações de Teerão como ilegais nas Nações Unidas e ofereceram-se para negociar uma solução para o diferendo.
O Irão afirma ter direito histórico e geográfico às ilhas. Os Emirados Árabes Unidos afirmam que podem levar o litígio ao Tribunal Internacional de Justiça, caso a questão não seja resolvida.
Os Estados Unidos e outras nações têm apoiado a reivindicação dos Emirados Árabes Unidos, afirmou a Embaixada dos Emirados Árabes Unidos em Washington, em comunicado.
E é aí que qualquer tomada de posse das ilhas pelos EUA se torna delicada, disse Schuster, considerando-a um "dilema político" para Washington D.C., com o seu aliado, os Emirados Árabes Unidos.
Se os EUA devolverem as ilhas a qualquer novo governo iraniano, correm o risco de irritar os Emirados Árabes Unidos, admitiu Schuster. Mas acrescentou que, se os EUA devolverem as ilhas aos Emirados Árabes Unidos, isso poderá minar qualquer legitimidade percebida do novo regime iraniano.
Claro que isto só é um problema se os EUA conseguirem manter as ilhas tomadas no final do conflito. Mas, no entender de Schuster, isto é algo que os estrategas precisam de considerar, porque é o tipo de disputa que pode reacender os combates.
"É por isso que o planeamento militar moderno é tão complexo", sublinha
“Todas as opções têm um impacto negativo. Não existem planos ou soluções perfeitas. Existe apenas um equilíbrio entre custos, riscos e impactos, tanto os intencionais como os não intencionais”.