Crise no Estreito de Ormuz ameaça economia mundial e petróleo
Brett McGurk é analista de assuntos globais da CNN e desempenhou funções seniores de segurança nacional nas administrações dos presidentes George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump e Joe Biden
Nos dias mais sombrios da Crise dos Mísseis de Cuba, o Presidente John F. Kennedy refletiu em privado sobre a questão central que tinha diante de si: quem cede primeiro? Durante dias, Washington e Moscovo permaneceram presos num teste de vontades — cada lado convencido de que o tempo e a pressão jogavam a seu favor, cada lado receoso de que recuar pudesse convidar a perigos ainda maiores no futuro.
A mesma lógica paira agora sobre o Estreito de Ormuz.
O Irão fechou efetivamente o estreito ao trânsito comercial normal, declarando que os navios devem passar pelas suas águas e pagar uma taxa de trânsito. Os Estados Unidos, por sua vez, bloquearam os portos iranianos — dizendo a Teerão que, se o mundo não pode usar o estreito como antes, então o Irão também não o pode fazer.
O resultado é um impasse, sem saídas imediatas e com um conjunto de opções que vão de más a piores.
Opção 1: instalar-se o impasse
O desfecho mais provável é que ambos os lados se instalem no impasse, acreditando que o tempo joga a seu favor.
Os líderes iranianos apresentam-se como preparados para levar o país até à beira do colapso económico, se necessário, para garantir a sobrevivência do sistema revolucionário.
Há verdade nesta visão. Os líderes do Irão são ideológicos — comprometidos em expulsar a influência americana do Médio Oriente e em enfrentar Israel — e muitos deles suportaram pessoalmente situações piores, incluindo a brutal guerra Irão-Iraque dos anos 1980.
Mas até os sistemas mais endurecidos têm um ponto de rutura, e o bloqueio aos portos iranianos agravará a situação ao longo do tempo. Mesmo antes desta crise começar, o Irão enfrentava uma inflação na ordem dos 60% e uma crise económica histórica. Essas condições ajudaram a levar iranianos para as ruas no início deste ano, em protestos que o regime acabou por reprimir pela força. Nenhuma dessas queixas desapareceu.
O presidente Donald Trump também se mostra preparado para prolongar o impasse, afirmando que não sente “qualquer pressão” relativamente à situação. Tem razão ao dizer que a economia americana demonstrou resiliência e que, enquanto maior produtor mundial de petróleo, os Estados Unidos estão mais protegidos do que em décadas anteriores contra os choques provocados por uma crise no Médio Oriente.
Mas a energia é negociada num mercado global e, com cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo que anteriormente passava pelo estreito agora interrompido ou desviado, a pressão sobre a economia global também aumentará com o tempo — acabando por chegar aos Estados Unidos. Teerão acredita que Trump não conseguirá suportar essa pressão indefinidamente, sobretudo à medida que se aproximam as eleições intercalares. Assim, ambos os lados acreditam que o outro será o primeiro a ceder, o que significa que talvez nenhum deles ceda.
Opção 2: ceder
A diplomacia raramente alcança avanços apenas batendo mais forte na mesa do que o interlocutor. Os avanços exigem compromissos, e os compromissos exigem concessões. Neste momento, nem o Irão nem os Estados Unidos parecem preparados para as fazer. Ambos estão focados em quebrar a vontade do adversário, em vez de procurar um acordo.
Para o Irão, isso significa recusar recuar na sua reivindicação de soberania sobre o estreito e na exigência de que o tráfego comercial passe por vias navegáveis controladas por Teerão e pague uma taxa. O Irão disparou mísseis e drones contra navios que recusaram cumprir esta nova realidade.
Esta afirmação de controlo sobre um estreito internacional viola princípios antigos de liberdade de navegação. Os Estados Unidos poderiam liderar a construção de uma coligação diplomática e militar internacional para rejeitar as reivindicações iranianas. Mas, até agora, Washington não o fez, e o Irão demonstrou tanto capacidade como vontade para impor as suas exigências.
Os Estados Unidos poderiam acabar por aceitar esse princípio em nome do alívio da pressão sobre a economia global. Trump já sugeriu anteriormente que o estreito é menos central para os interesses americanos, mas tal concessão alteraria o equilíbrio de poder regional a favor do Irão e levantaria profundas questões sobre a estabilidade futura de outras vias marítimas internacionais — incluindo o Estreito de Taiwan, uma via marítima internacional que Pequim afirma cada vez mais como território soberano.
Opção 3: combater
Os Estados Unidos podem concluir que a liberdade de navegação no estreito é um interesse central inegociável e avançar militarmente para o garantir.
Historicamente, o livre fluxo de comércio através das principais vias marítimas tem sido um princípio fundamental do poder americano. Mas uma operação prolongada para reabrir ou garantir o acesso marítimo seria provavelmente dispendiosa e demorada, mesmo no melhor cenário.
Os esforços recentes no Mar Vermelho demonstraram a dificuldade. Mesmo coligações navais bem-sucedidas revelaram-se mais eficazes a derrotar mísseis e drones do que a restaurar a confiança comercial entre as empresas de transporte marítimo.
A ameaça atual não vem principalmente de minas marítimas, mas de drones e mísseis que podem ser lançados a centenas de quilómetros de distância. Enquanto o Irão conseguir lançar ataques a partir de posições no interior do seu território — incluindo das montanhas com vista para o estreito — a ameaça ao transporte marítimo comercial não desaparecerá.
Uma campanha militar americana para reabrir o estreito à força continua, por isso, a ser uma opção, mas a sua viabilidade e resultado são incertos. O Irão poderá também retaliar com ataques de mísseis contra infraestruturas energéticas do Golfo, agravando os choques económicos globais já em curso.
Por agora, um novo normal
Perante este cenário, devemos assumir que o estreito poderá permanecer efetivamente fechado num futuro previsível — e que, mesmo que a crise imediata abrande, as presunções sobre a liberdade de navegação através do estreito poderão nunca regressar plenamente.
Muitos países do Golfo já estão a agir em conformidade, acelerando planos para projetos de infraestruturas este-oeste que contornem completamente o estreito. O sistema de oleodutos este-oeste da Arábia Saudita já provou o seu valor estratégico, enquanto o Iraque está cada vez mais focado em rotas que permitam transportar petróleo do Golfo para o Mediterrâneo. O Porto de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, que evita o estreito, deverá também tornar-se um centro energético global ainda mais importante.
Esta é a resposta lógica a longo prazo: reduzir a dependência do estreito e da capacidade do Irão para manter a economia mundial refém.
Mas os projetos de infraestruturas demoram anos, não meses. Até lá, o mundo poderá permanecer preso naquilo que equivale ao Grande Impasse do Estreito.
