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Comentador da CNN Portugal

Destruir o Irão para o salvar?

17 abr, 17:48

O Irão diz ter reaberto o Estreito de Ormuz, mas nos seus termos: os navios são obrigados a navegar junto à sua costa, perto da ilha de Larak, uma rota que Teerão já vinha a impor. O estreito poderá ser navegável, mas a portagem, apesar do bloqueio americano, é iraniana

A terceira república islâmica do Irão olha para a guerra como um momento existencial, mas a sua leitura não se esgota na sobrevivência. Desde o início, a estratégia foi concebida com uma ambição dupla: preservar a coesão interna e sair do conflito com uma arquitetura de poder mais robusta, capaz de impor custos a adversários estruturalmente superiores. A guerra não constitui apenas um teste à resiliência do sistema, mas também uma oportunidade para o reconfigurar.

Nesse enquadramento, a coerência estratégica de Teerão surpreendeu mais do que os próprios danos militares. A eliminação de figuras-chave, de Ali Khamenei a Ali Larijani, e as perdas materiais não produziram uma desorientação manifesta. Pelo contrário, o regime respondeu com uma adaptação quase clínica, compensando a inferioridade militar com ataques seletivos a infraestruturas energéticas e uma gestão dos recursos disponíveis. A eficácia desta abordagem expôs uma falha de avaliação em Washington e em Israel, que subestimaram a capacidade iraniana de operar num registo de guerra prolongada sem um colapso interno imediato.

É à luz desta dinâmica que o ponto de viragem deixa de ser procurado no campo de batalha. O condicionamento do Estreito de Ormuz materializou-se com uma facilidade inesperada. O gesto, largamente antecipável, deslocou o centro de gravidade do conflito. O domínio militar deixou de ser o eixo exclusivo e deu lugar a uma pressão económica que ultrapassou o perímetro regional.

O estreito passou, assim, a funcionar como principal vetor de poder iraniano, não apenas como instrumento de dissuasão, mas como mecanismo de coerção. A própria lógica do bloqueio expõe uma vulnerabilidade estrutural das potências marítimas contemporâneas, num registo que remete, ainda que remotamente, para a Crise do Suez em 1956, quando o controlo de uma artéria energética revelou os limites do poder da Grã-Bretanha e confirmou o seu ocaso imperial.

É nesse plano que, no interior do regime, essa capacidade é já lida por vários setores como alternativa ao programa nuclear. Não pela escala de destruição, mas pela possibilidade de afetar diretamente o funcionamento da economia global com custos exorbitantes. Ao interferir nas rotas energéticas, o Irão deixa de ser apenas alvo de sanções e passa a dispor de meios para impor constrangimentos que nem uma potência hegemónica consegue contrariar.

Esta transformação introduziu, por sua vez, uma realidade nova para os Estados Unidos. A intervenção partiu de objetivos como a contenção do programa nuclear, mísseis balísticos ou uma eventual transição, que agora muitos renegam. Mas a realidade é que o Estreito de Ormuz se manteve aberto ao longo de décadas de tensões, estando hoje condicionado devido ao analfabetismo geoestratégico do inquilino da Casa Branca.

Perante este deslocamento, o bloqueio naval americano procura recuperar a iniciativa, estrangulando exportações iranianas e forçando negociações. Pode funcionar. Mas pode não funcionar à velocidade que a economia mundial necessitará e Donald Trump desejará. Sobretudo quando cada escalada na região abre espaço a alargamentos do conflito, desde perturbações no Estreito de Bab al-Mandeb até pressões sobre a viabilidade das cidades do Golfo, das dessalinizadoras ao seu modelo económico.

É neste quadro que as negociações decorrem. Ninguém ganhou. Um cessar-fogo entre Washington e Teerão funcionará sempre como uma solução provisória, instável por definição e incapaz de resolver o âmago do problema. Suspende a violência, mas não altera a estrutura que a origina, tal como se prevê que aconteça com mais um cessar-fogo entre o Líbano e Israel, deixando o sistema energético mundial como instrumento permanente de pressão. Qualquer acordo estável exigiria compromissos complexos, num quadro de desconfiança compreensível.

O historial recente reforça este padrão. A política externa de Donald Trump não segue nenhum manual de relações internacionais contemporâneo. Erros de cálculo, complexos de messias e lógicas transacionais explicam talvez melhor do que qualquer realpolitik o que acontece em Washington. Os acordos que promove tendem a produzir efeitos sobretudo performativos, gerando a aparência de resolução sem lidar com as causas. A repetição de acordos incompletos em vários teatros prolonga a instabilidade em vez de a reduzir.

Neste equilíbrio imperfeito, para o Irão, o tempo funciona como multiplicador de pressão sobre a economia global e reforça a posição negocial. A fragilidade do regime mantém-se. A impopularidade estrutural, combinada com dificuldades económicas e repressão, continua presente. Ainda assim, a guerra revelou uma resiliência que muitos julgavam improvável, apontando para uma transição para uma governação mais militarizada, e não menos violenta. Para os Estados Unidos, o mesmo prolongamento corrói capital político e reduz margem para operações prolongadas, especialmente para uma Administração que acredita saber mais de estratégia militar que os seus generais, e mais de teologia do que o próprio Papa.

Israel opera num registo distinto. Os seus objetivos são mais ambiciosos do que os de Washington e a tolerância ao impacto económico global é superior. Essa margem de ação choca, porém, na dependência operacional dos Estados Unidos. A autonomia existe, mas encontra limites claros quando a Casa Branca decide travar a escalada, tal como aconteceu na guerra dos doze dias.  

Já a China “apresenta-se” como uma potência estabilizadora e defensora do direito internacional, evitando comprometer-se diretamente ou assumir responsabilidades de mediação que possam falhar e prejudicar a sua credibilidade. Beneficia parcialmente da distração americana e do reforço da sua imagem global, mas sofre com o impacto da instabilidade energética, ficando presa entre interesses económicos, limitações militares e a sua famosa não-interferência.

Uma posição muito diferente da dos países do Golfo, que enfrentam uma equação de difícil resolução. Rejeitam um Irão fortalecido, mas dependem de um mínimo de estabilidade regional para preservar os seus modelos económicos. A guerra tornou evidente que a sobrevivência do regime iraniano, ainda que indesejada de Riade até Doha, pode ser menos mau do que o seu colapso. A introdução de portagens, mecanismos de regulação marítima e restrições seletivas assinala uma tentativa de institucionalizar o controlo do estreito como fonte de receita e influência, mais além de uma lógica de bloqueio – um pesadelo para qualquer governo da região.

O risco de o conflito recomeçar no dia 22 de abril é real, apesar da reabertura condicionada de Ormuz e do acordo de cessar-fogo entre Israel e o Líbano, que reproduz todos os equívocos do cessar-fogo assinado em novembro de 2024. Pete Hegseth voltou a ameaçar destruir as infraestruturas civis e energéticas do Irão. J.D. Vance continua a acreditar que uma guerra sem objetivos claros pode corresponder a uma guerra justa. E o presidente dos Estados Unidos, um “marxista de direita” que acredita que o mundo se limita a interesses materiais, não é capaz de conceber que um regime fanático que sobrevive à custa do seu próprio povo não claudicará após uma guerra de um mês ou um bloqueio marítimo de uma semana.

Em 1968, na cidade vietnamita de Ben Tre, bombardeada pelas forças americanas para expulsar os vietcongues, ficou associada uma frase que atravessou décadas: “foi necessário destruir a cidade para a salvar”. A sua autenticidade pode ser discutida. A lógica que encerra, não. Quem é salvo quando se destrói aquilo que se diz proteger? A questão deixa de ser quem vence. Passa a ser o que resta. Quando a preservação de uma ordem exige a destruição dos mecanismos que a tornam possível, o resultado dificilmente pode ser descrito como uma vitória.

Certamente não para o povo iraniano.

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