Estados Unidos e Irão enfrentam uma pressão crescente para alcançar um acordo após semanas de conflito. Apesar de divergências, há sinais de aproximação, sobretudo sobre o programa nuclear e a reabertura do Estreito de Ormuz. Ambos os lados necessitam politicamente de apresentar o resultado como uma vitória, num contexto de fragilidade económica, tensões regionais e incerteza quanto ao papel de Israel
Há pouca alternativa para os Estados Unidos e o Irão que não seja chegar a um acordo. A verdade não dita desde o início da guerra mantém-se, e ainda mais nestes últimos cinco dias de cessar-fogo.
Para os EUA, a primeira ronda de negociações em Islamabad, apesar da sua duração maratonista, pareceu uma encenação concertada destinada a reforçar a posição negocial americana. O bloqueio dos portos iranianos seguiu-se tão rapidamente que a Casa Branca provavelmente já tinha esta escalada em mente. Levará tempo até que o impacto económico pretendido pelo bloqueio se faça sentir plenamente no Irão, mas mesmo uma eficácia de 60% agravará ainda mais a ruína da economia de Teerão e dos seus aliados, como a China, dependentes do seu petróleo.
A probabilidade de sucesso numa segunda ronda de negociações aumenta com as exigências políticas e a condição dos intervenientes à mesa. O Presidente dos EUA, Donald Trump, quer abertamente um acordo, e afirma que o Irão também o quer. Mas, acima de tudo – com a inflação e os preços dos combustíveis a subir, e a base MAGA em revolta aberta – Trump precisa urgentemente de um acordo.
É difícil perceber se as posições em constante mudança de Trump resultam de défice de atenção, problemas de memória ou de um génio negocial pouco ortodoxo. Mas dificultar ao adversário a compreensão do que se pretende tem limites como estratégia de negociação, podendo soar a confusão e desespero. E esse cenário – por intenção ou por defeito – acentua o quanto Trump precisa de um acordo.
O Irão – apesar de vencer a guerra dos memes, lançar fogo sem precedentes na região e suportar a devastação brutal do seu governo e aparelho de segurança – precisa de um acordo ainda com mais urgência. A internet da propaganda não é o mundo real, e por mais que as declarações diárias do CENTCOM destaquem a eficácia dos seus ataques, Teerão está em muito pior situação após mais de 13.000 alvos atingidos.
Os danos causados por 39 dias de bombardeamentos são inegáveis. Críticos dos EUA gostam de ironizar que substituíram um aiatola Khamenei por outro – mas Mojtaba ainda não foi visto em público, nem provou de forma convincente estar consciente. O Corpo de Guardas da Revolução Islâmica está já no seu terceiro nível de liderança. Podem ser radicais galvanizados, em busca de vingança sangrenta, mas isso não os isenta dos enormes desafios de governação e de recomposição das suas forças para futuros conflitos. Falar como se se tivesse três metros de altura não aumenta a estatura real.
A aparente força do Irão resulta da sobrevivência e da resistência – de uma notável capacidade de resistência, mais do que de um verdadeiro triunfo militar. Mas encontra-se num momento de fraqueza regional sem precedentes. Atacou militarmente a maioria dos seus vizinhos do Golfo. O Iraque foi parcialmente poupado, mas está dividido no apoio. O Paquistão está a mediar, mas tem um tratado de defesa com a Arábia Saudita que deixa claras as suas lealdades finais. Para os restantes países da região, Teerão mostrou os dentes, mas a um custo enorme. É difícil prosperar quando a vizinhança, em grande parte, o rejeita por ter quebrado a sua aparência de paz e prosperidade.
Salvo imprevistos ou atos irracionais de radicais, um regresso a hostilidades totais parece menos provável do que um compromisso negociado, sobretudo tendo em conta quão próximas estavam as posições dos EUA e do Irão após 16 horas de negociações no Paquistão. A retórica diplomática pode frequentemente dizer o contrário do que se passa: quando as negociações correm mal, fala-se de progressos para incentivar continuidade; quando o sucesso está próximo, destaca-se a existência de obstáculos difíceis para pressionar o adversário.
Mas as duas partes parecem concordar na reabertura do Estreito de Ormuz – sendo que o bloqueio dos portos iranianos reduziu drasticamente a margem de manobra de Teerão nesta questão. O Irão sabe que precisa de permitir um tráfego livre – ou mais livre – para aliviar a pressão sobre a China. O desacordo centra-se agora mais em pormenores do que na substância do acordo.
Estreito de Ormuz tem apenas 38 km de largura no seu ponto mais estreito
O Estreito de Ormuz estende-se entre o Irão e Omã, com as respetivas Zonas Económicas Exclusivas (ZEE) a cruzarem-se no meio. A largura reduzida desta via navegável facilita ao Irão o ataque a embarcações, uma vez que os navios não dispõem de espaço para manobrar nem de tempo de aviso para escapar às ameaças.
Gráfico: Renée Rigdon e Annette Choi, CNN
Ambos concordam numa moratória ao enriquecimento nuclear. O Irão quer que dure cinco anos, segundo um responsável norte-americano – metade do próximo mandato presidencial dos EUA. Os EUA pretendem 20 anos, segundo uma fonte próxima das negociações – empurrando a questão para o longo prazo. Aqui, a matemática simples permite um compromisso fácil. (A negociação sobre o alívio de sanções segue lógica semelhante).
As capacidades de enriquecimento do Irão foram reduzidas pelos bombardeamentos deste e do ano passado. O que resta são mais de 400 kg de urânio enriquecido a 60%, que Trump afirmou estarem enterrados sob os escombros. É pouco provável que Teerão veja este stock como facilmente convertível numa arma nuclear no atual contexto de supremacia aérea e vigilância dos EUA e de Israel.
A questão é mais de soberania iraniana, podendo ser resolvida através da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), com a transferência do material para a Rússia, a sua venda, diluição para níveis inferiores (“downblending”) ou monitorização, no âmbito de uma missão de verificação mais ampla que os EUA querem retomar e que existia antes da guerra.
O fator imprevisível continua a ser Israel. O Irão quer que os seus aliados no Líbano e noutros locais não sejam alvo de ataques. O Hezbollah demonstrou, ao longo de semanas de combates e ataques com rockets, que a guerra de 2024 não o deixou permanentemente enfraquecido. A disposição de Israel para uma ocupação prolongada no sul permanece incerta, e a sua ofensiva parece – com exceção do ataque devastador da semana passada a Beirute – calibrada para manter episódios de violência suficientemente espaçados para evitar a mesma indignação global gerada pelas suas ações em Gaza.
O governo do Líbano está a realizar as suas primeiras conversações diretas com Israel há anos, mas – mais uma vez, como é óbvio – não cumpriu a sua promessa de desarmar o Hezbollah, e é improvável que o faça num futuro próximo. As conversações em curso irão provavelmente separar esta questão num dossier à parte, permitindo que Israel ataque quando considerar oportuno, que o Líbano suporte um ritmo mais moderado de bombardeamentos e uma ocupação menos intensa, e que os EUA sugiram que se registam progressos no sentido de uma solução.
Os principais obstáculos a um acordo entre os EUA e o Irão parecem menos barreiras intransponíveis e mais questões de detalhe, orgulho e posicionamento. Nenhuma das partes pode aceitar um acordo que não consiga apresentar como uma vitória. O Irão precisa de sentir que mantém capacidade de dissuasão militar: que projetou força suficiente para tornar menos provável um novo ataque.
Trump irritou praticamente todos nos últimos dois meses – do Papa Leão a Israel. Precisa de sair da sua primeira grande guerra por escolha própria com um acordo que os seus apoiantes possam apresentar como melhor do que o cenário anterior a 28 de fevereiro – apesar do risco de recessão global e da instabilidade nos mercados energéticos.
Duas questões irão persistir. Qualquer grande acordo com o Irão será melhor do que o assinado por Barack Obama em 2015, que Trump anulou no seu primeiro mandato? Será difícil de avaliar: a infraestrutura nuclear iraniana está fortemente danificada, e Trump procura deixá-la sem material enriquecido ou capacidade de o produzir, o que pode ser alcançado.
A segunda questão é o tipo de Irão que emergirá deste conflito: enfraquecido, devastado, com danos estruturais que podem durar uma geração. Mas a sua resiliência é evidente, e o último ano de guerra terá silenciado vozes moderadas que defendiam que o país não precisava de um forte sistema de defesa.
Trump poderá conseguir um acordo que reduza a capacidade do Irão de desenvolver uma arma nuclear. Mas as consequências imprevistas da sua primeira guerra por escolha própria estão apenas a começar. E a principal é que os setores mais radicais do Irão sentirão, sem dúvida, que precisam de uma bomba mais do que nunca.