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O mundo está desesperado por uma solução para o Estreito de Ormuz. Preços do petróleo mostram que ainda não é desta

CNN , Matt Egan
5 mai, 09:58
Petroleiros estão ancorados ao largo do Estreito de Ormuz, nas proximidades de Bandar Abbas, no Irão, no sábado, 2 de maio de 2026. (Amirhosein Khorgooi/ISNA via AP)

ANÁLISE || Há cerca de 170 milhões de barris de petróleo bruto, combustível para aviões, gasóleo e outros produtos refinados retidos no Médio Oriente, a bordo de 166 petroleiros. E mesmo esses são uma gota no oceano em comparação com os 900 milhões de barris que terão sido afastados pelo conflito

Trump tem um novo plano para o Estreito de Ormuz. O mercado não está a acreditar nele

Nova Iorque — O mundo está desesperado por uma solução para acabar com o engarrafamento de petroleiros no Estreito de Ormuz.

A administração Trump está a tentar fazê-lo: anunciou que conseguiu guiar com sucesso dois navios norte-americanos para fora do Estreito na segunda-feira. Mas o seu Projeto Liberdade não parece trazer a viragem necessária para pôr fim à histórica crise energética.

Pelo menos, esta é a mensagem do mercado.

Os preços da energia não caíram depois de o presidente dos Estados Unidos ter anunciado o novo esforço dos EUA para "guiar" navios através do Estreito de Ormuz.

Os futuros do petróleo subiram acima dos 100 dólares por barril e depois subiram ainda mais, à medida que navios e instalações energéticas importantes no Médio Oriente foram alvo de ataques na segunda-feira, levantando questões sobre a durabilidade do cessar-fogo.

Também os futuros da gasolina subiram, sinalizando que o sofrimento nas bombas de abastecimento vai piorar antes de melhorar.

Isso significa que, neste momento, o mercado aposta que o Projeto LIberdade não irá libertar uma vasta quantidade de energia retida no Médio Oriente.

Uma missão incompleta

O cepticismo reflete algumas realidades:

  1. esta não é uma missão de escolta: o Projeto Liberdade (no original, Project Freedom) é um esforço para "restaurar a liberdade de navegação" no Estreito de Ormuz que contará com mais de 100 aeronaves terrestres e marítimas e 15 mil militares, de acordo com o Comando Central dos EUA. Embora o anúncio de Trump mostre que as autoridades norte-americanas estão, com razão, concentradas na reabertura do Estreito de Ormuz, isto não é uma promessa de que as forças armadas dos EUA acompanhem os navios que tentam transitar pela estreita via navegável. Uma autoridade norte-americana disse à CNN que, na verdadem esta não será uma missão de escolta;
     
  2. o Irão afirma que viola o cessar-fogo: as autoridades iranianas responderam rapidamente ao Project Freedom, argumentando que este viola o frágil cessar-fogo com os Estados Unidos. Não só isso, como o Irão pareceu responder com a retoma dos ataques na região;
     
  3. confiança abalada: o setor marítimo tem sido abalado pelo facto de o Irão minar o Estreito de Ormuz e atacar os navios que tentam passar. Os gestores de topo do setor dos transportes marítimos já estão a manifestar cautela em relação ao Projeto Liberdade e não é claro se os proprietários de petroleiros estarão dispostos a correr o risco de tentar transitar pelo estreito.

O que o mercado quer

O Project Freedom fica muito aquém de uma reabertura total do Estreito de Ormuz – um longo processo que os analistas do mercado de petróleo acreditam ser necessário para que o petróleo volte a fluir suficientemente pelo Médio Oriente, de modo a fazer baixar significativamente os preços. O Eurasia Group alertou que, a menos que haja "adesão" por parte do Irão ou uma grande mobilização naval na região, o Project Freedom irá falhar.

"O plano dos EUA não aumentará substancialmente o volume de tráfego marítimo através do estreito a curto prazo", escreveu a empresa de consultoria Eurasia Group num relatório esta segunda-feira.

Esse sentimento foi partilhado por Bjørn Højgaard, CEO da Anglo-Eastern, empresa de gestão de navios.

"É preciso que ambas as partes desbloqueiem a situação — não apenas uma", disse Højgaard. "Qualquer uma das partes pode sinalizar que está disposta a deixar passar certos navios, mas, a menos que o outro lado aceite isso na prática, isso não altera significativamente a realidade no mar."

Novos ataques no Médio Oriente

Essa realidade está a tornar-se ainda mais complicada devido a novos ataques militares na região.

Os exércitos dos EUA e do Irão trocaram tiros na segunda-feira, com os EUA a fazerem explodir pequenas embarcações iranianas em resposta a ataques contra ativos norte-americanos.

Uma explosão abalou um navio ligado à Coreia do Sul no Estreito de Ormuz. A causa da explosão não ficou clara, mas o incidente sublinha as preocupações de segurança para as embarcações que pensam em fazer a viagem.

E depois deflagrou-se um grande incêndio numa importante instalação petrolífera nos Emirados Árabes Unidos, num ataque que as autoridades locais atribuíram a drones iranianos.

O incidente danificou a Zona Industrial Petrolífera de Fujairah, o terminal de um oleoduto utilizado para contornar o Estreito de Ormuz.

O risco da gasolina a 5 dólares nos EUA

Os futuros do petróleo bruto dos EUA caíram inicialmente no domingo à noite com a notícia do Project Freedom, antes de inverterem a tendência. O índice West Texas Intermediate (WTI), a referência dos EUA, subiu até aos 107,46 dólares por barril na segunda-feira e, nas negociações recentes, registou uma subida de 3,5%, para 105 dólares por barril. O petróleo bruto Brent, a referência mundial e um fator-chave para os preços da gasolina, subiu 5%, para 114 dólares por barril.

Os futuros da gasolina nos EUA também subiram na segunda-feira, ganhando mais 4%, ou 15 cêntimos por galão [medida de referência nos EUA: um galão corresponde a cerca de 3,8 litros].

Os preços de retalho nas bombas nos EUA dispararam na semana passada e atingiram um novo máximo de crise de 4,46 dólares por galão na segunda-feira, o nível mais alto em quase quatro anos. 

Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates, disse à CNN que os preços da gasolina provavelmente atingirão os 5 dólares por galão se o Estreito de Ormuz permanecer fechado por mais um mês.

170 milhões de barris de petróleo retidos

O mercado estará atento para ver se o fluxo de tráfego através do Estreito de Ormuz se acelera de alguma forma nos próximos dias.

A esperança é que alguns dos navios retidos no Golfo, transportando abastecimentos cruciais para o resto do mundo, consigam finalmente passar. Mas o Project Freedom, pelo menos nas suas fases iniciais, parece não ter capacidade para resolver rapidamente o significativo congestionamento no estreito.

Existem cerca de 170 milhões de barris de petróleo bruto, combustível para aviões, gasóleo e outros produtos refinados retidos no Médio Oriente a bordo de 166 petroleiros, de acordo com estimativas da Kpler.

"Pode ser um processo muito trabalhoso retirar os petroleiros carregados do Golfo do Médio Oriente — e fazer entrar os vazios —, dado que as rotas marítimas tradicionais não estão a ser utilizadas por receio de minas", afirmou Matt Smith, analista-chefe de petróleo da Kpler.

A Kpler estima que poderá demorar até três meses após a reabertura total do Estreito de Ormuz.

"A ajuda está a caminho"

As autoridades norte-americanas têm tentado tranquilizar os consumidores frustrados com a subida dos preços da gasolina. "A ajuda está a caminho a partir de hoje", afirmou o secretário do Tesouro, Scott Bessent, na Fox News na segunda-feira.

Bessent observou que alguns dos maiores petroleiros retidos no estreito transportam cerca de dois milhões de barris. O governante espera que o Project Freedom consiga colocar esse petróleo no mercado em breve.

"Acho que o mercado vai ficar bem abastecido… Estou confiante de que, quando isto passar, o mundo vai ficar inundado de petróleo", disse Bessent.

Bessent referiu ainda que a OPEP prometeu recentemente aumentar a produção. Mas trata-se de um gesto largamente simbólico, uma vez que o Estreito permanece fechado.

De qualquer forma, as centenas de milhares de barris de produção prometidos pela OPEP são insignificantes em comparação com a perda estimada de cerca de 14 milhões de barris por dia causada pela guerra.

E os 170 milhões de barris de petróleo retidos no estreito são, da mesma forma, uma gota no oceano em comparação com os cerca de 900 milhões de barris de petróleo que os analistas estimam terem sido afastados pelo conflito – uma soma que cresce a cada dia que o Estreito de Ormuz permanece fechado.

 

Foto no topo: petroleiros ancorados ao largo do Estreito de Ormuz, nas proximidades de Bandar Abbas, no Irão, no sábado, 2 de maio de 2026. (Amirhosein Khorgooi/ISNA via AP)

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