Rui Mendes: treinou com Nagelsmann e agora é homem-golo nos Países Baixos

27 abr, 09:19
Rui Mendes

Nasceu em Portugal há 22 anos, mas aos sete teve de emigrar com a família para a Alemanha. Fez-se jogador por lá, esteve no Hoffenheim e agora brilha no Emmen, líder da II Liga dos Países Baixos

Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do Mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências. Sugestões e/ou opiniões para djmarques@tvi.pt ou rgouveia@tvi.pt

Há mais de uma semana que o Emmen garantiu a quarta presença na primeira divisão dos Países Baixos em 97 anos de clube. Para isso, muito contribuiu um #7 português, que carrega nas costas o mesmo número de um compatriota goleador e, também, o jeito para fazer a bola entrar nas balizas contrárias.

De 7 de março a 15 de abril não houve um único jogo em que Rui Mendes tivesse dado descanso às redes alheias. Oito jogos, oito golos.

Ao nono, o 36.º do campeonato, Rui descansou e teve piedade do Roda, cujos defesas deviam andar com a cabeça (isso mesmo) à roda para o travarem. O avançado português ficou a um jogo de igualar o recorde na equipa, que vai resistindo desde que em 2001/02 Paul Weerman esteve nove jornadas seguidas a marcar.

«Se senti um vazio? Sinceramente, sim. Fiquei feliz, claro, porque a equipa ganhou, mas já estava habituado a marcar. Mas de qualquer forma sabia que este dia ia chegar e prefiro fazer cinco assistências a marcar um golo», conta ao Maisfutebol.

Mas quem é Rui Jorge Monteiro Mendes, o extremo/avançado de 22 anos sem registos no futebol português e que fez toda a formação na Alemanha?

«Quando eu tinha sete anos, os meus pais decidiram, e hoje só posso agradecer-lhes, emigrar em busca de uma vida melhor para eles e para mim e para o meu irmão. Viemos para a Alemanha, para uma cidade pequena chamada Dissen», introduz.

Com o irmão, Martim Mendes. Tem 18 anos, é defesa-central e joga numa das equipas pelas quais passou Rui, que é fã de Cristiano Ronaldo. «É uma máquina de golos. O número 7? Não tem a ver com ele. Gosto do número, não sei porquê»

A mudança de Gondar, aldeia do concelho de Amarante, para uma localidade da parte ocidental da Alemanha não foi fácil. Rui foi integrado numa turma onde todos falavam alemão.

Todos menos ele. «Os primeiros tempos foram duros. Chorava porque não entendia nada do que diziam e perguntava-me várias vezes porque é que eu estava lá, mas tinha uma prima da minha idade que me ajudava a traduzir as conversas e uns seis meses depois já falava bem alemão.»

Paralelamente, a paixão pelo futebol começou a crescer e não tardou muito até começar a jogar no clube da terra. «Um dia eu estava a jogar num campo que havia ao lado de casa e um homem veio ter comigo e perguntou-me se eu tinha clube. O meu pai foi a casa buscar umas chuteiras e umas caneleiras, participei num jogo e marquei dois golos. Foi assim que comecei, com uns oito ou nove anos.»

Dois anos depois, passou para outro clube de uma povoação vizinha. Subida de nível, bons desempenhos e novo desafio num patamar ainda mais elevado. É aí, no Viktoria Georgsmarienhutte, que Rui Mendes considera que o futebol começou a tornar-se num assunto mais sério, uma ou duas ligas abaixo da Bundesliga de juniores.

Aos 16 anos, foi visto por um scout do Arminia Bielefeld num torneio indoor durante o inverno. «Disseram-me que me queriam no verão. Estive la três anos, joguei sempre e marquei muitos golos. Estava no nível mais alto nos juniores e entretanto disseram-me que me iam fazer um contrato profissional e que ia ter a possibilidade de continuar no clube.»

Rui tinha 18 anos e estava prestes a cumprir um marco importantíssimo na vida de qualquer futebolista jovem, mas num ápice experienciou o outro lado do desporto. «Estava todo contente e até fui com o meu agente ao escritório do presidente do Bielefeld, mas no fim deram o contrato a outro colega meu e eu acabei por não ficar. Fiquei sem clube e essa foi a primeira vez em que eu fiquei…», diz com o final da frase em suspenso.

O Hoffenheim com um fenómeno chamado Nagelsmann

Uma porta fechou-se e outra abriu-se: a do Hoffenheim. No clube, viram alguns vídeos dele, convidaram-no a fazer um teste, gostaram do que viram e deram-lhe um contrato de dois anos, válido de 2018 a 2020.

Apesar de estar integrado na segunda equipa, Rui Mendes era frequentemente chamado a treinar com a equipa principal, então orientada por Julian Nagelsmann, hoje campeão da Alemanha pelo Bayern Munique.

Nagelsmann tinha 31 anos e nas duas épocas anteriores havia conduzido a equipa às melhores classificações de sempre na Bundesliga: quarto lugar em 2016/17 e terceiro em 2017/18 com presença inédita na fase de grupos da Champions.

«Posso dizer que ele era um treinador incrível. As ideias que ele tinha nos treinos e os exercícios eram constantemente de ataque e tinha sempre um plano para atacar a baliza adversária. A ideia era abafar o adversário assim que perdíamos a bola para que o caminho a percorrer até à baliza contrária não fosse tão longo. E conseguiu valorizar muitos jogadores: o Joelinton, que agora está no Newcastle, o Nico Schulz, que foi para o Dortmund, e outros. O Hoffenheim fez muitos milhões devido a ele.»

Rui fala também de um treinador com capacidade para «lidar com os jogadores», que dava bons feedbacks e que sabia como motivá-los. «No meu primeiro treino com a equipa principal, lembro-me da reação dele quando ouviu o meu nome: ‘Uau, com esse nome se não vieres a ser jogar profissional não sei…’», conta.

No Hoffenheim. Apesar dos anos passados na Alemanha, o clube do coração é português. «Sou fã do FC Porto e tenho o sonho de jogar um dia no FC Porto»

Nageslmann deixou o Hoffenheim no final da primeira época do jovem extremo no clube e na segunda a covid-19 criou uma barreira entre a equipa principal e a B, inviabilizando chamadas aos treinos e, por consequência, oportunidades para dar o salto.

O contrato a correr depois de um teste passado com distinção

Rui Mendes ainda ficou uma terceira temporada no Hoffenheim mas, nessa, começou a sentir cedo que estava a chegar a altura de partir. «O clube não queria que eu ficasse e eu também não queria ficar a minha vida numa segunda equipa de um clube. Além disso, estava a ver que o salto para os profissionais não seria possível, porque havia e continua a haver muitos jogadores no plantel principal do Hoffenheim.»

Sensivelmente a meio da época passada, o empresário, que foi também o primeiro treinador dele uns anos antes no Georgsmarienhutte, começou a falar-lhe no Emmen, que lutava para se manter na 1.ª divisão dos Países Baixos.

A queda de patamar do clube situado a poucos quilómetros da fronteira com a Alemanha não travou o negócio, mas Rui, que já tinha andado a fazer pela vida com testes em clubes na Alemanha no verão, teve de provar, ainda antes de assinar contrato, que podia ser um ativo valioso para o objetivo declarado de atacar imediatamente a subida de divisão.

Nesse teste, diante do primodivisionário Heracles Almelo, o jogador português marcou esse belo golo e ainda outro na vitória por 4-1. «Depois desse jogo, o presidente veio a correr ter comigo e disse-me logo que ia dar-me um contrato. Foi fixe», dispara com simplicidade.

Humildemente, Rui assume ter superado as expectativas que tinha em relação a ele próprio para aquela que está a ser primeira época num patamar mais profissional. «Eu pensava que talvez pudesse jogar alguns minutos e ajudar a equipa, mas não esperava jogar tanto e muito menos marcar 16 golos.»

O futebolista português subiu a pulso na equipa. Saiu do banco nos dois primeiros jogos – um empate e uma derrota – e no terceiro foi titular e contribuiu com uma assistência para a primeira vitória no Emmen no campeonato. À sexta jornada, após falhar os dois jogos anteriores devido a uma lesão na coxa, regressou em grande com um hat-trick na goleada caseira por 7-1 sobre o MVV. «Acho que foi o meu melhor jogo na carreira até agora. Nunca me vou esquecer desse jogo.»

Rui Mendes tinha a confiança do treinador e a admiração dos adeptos – que hoje cantam o nome dele – mas nem ele nem o Emmen eram as máquinas afinadas que viriam a ser na segunda metade da época e na reabertura do mercado o clube procurou resolver um problema identificado. «Nós não marcávamos muitos golos e chegaram à equipa três avançados. E eu pensei: ‘Agora vai ser complicado’.»

E foi, mas por pouco tempo. Dois jogos no banco e uma entrada em grande na segunda parte no terceiro, que ajudou a virar o duelo contra a segunda equipa do Ajax, tornaram evidente que o Emmen precisava do número 7 português. «A verdade é que não há muitos jogadores que têm a minha velocidade e que conseguem fazer corridas em profundidade como eu. E isso permite-me criar oportunidades. Às vezes falta correr sem bola e eu sou mais esse tipo de jogador do que aquele que corre com a bola no pé.»

Afinal, que tipo de jogador é Rui Mendes? «Jogo no flanco direito, mas procuro também muito o corredor central. Não sou muito de fintar, como um típico extremo, mas sou rápido e procuro muito o caminho para a baliza, mas também gosto muito de fazer assistências. Talvez me assemelhe com o Diogo Jota, que também não faz tantas fintas e procura a profundidade.»

A mudança de «mindset» na base da melhor fase

É o próprio Rui quem reconhece que talvez tivesse sido necessário ter passado aqueles jogos pelo banco de suplentes. «Se me deu mais motivação? Ja [sim em alemão], acho que sim. E eu nunca deixei de dar 100 por cento nos treinos e de sentir que tinha a confiança do treinador.»

E de um momento para o outro começaram a surgir os golos. Jogo atrás de jogo.

PSV B, Utrecht, Volendam, VVV-Venlo, Telstar, De Graafschap, AZ Alkmaar B e Dordrecht.

«Eu rematava duas ou três vezes por jogo e passei a rematar mais. Além disso, consegui libertar-me mais a nível mental e voltei ao estado em que estava no início da época, em que ninguém me conhecia. Quando estamos cinco ou seis jogos sem marcar, começamos a pensar demasiado nisso e acaba por ser prejudicial. O que eu fiz foi deixar de pensar nisso. Passei a entrar em campo sem pensar que tinha de marcar. Sem pressão. Mesmo antes do jogo, agora procuro não pensar tanto no jogo. Tento relaxar e ouvir um tipo de música que me faça distrair-me um pouco.»

Pequenos exercícios que, está visto, estão a dar resultado.

A 15 de abril após o jogo fora de casa com o Dordrecht. O Emmen venceu por 1-0 com um golo de Rui Mendes que garantiu a subida de divisão (Herman Dingler/BSR Agency/Getty Images)

O peso dos golos e das assistências de Rui Mendes ajudaram o Emmen a tornar-se na primeira equipa a garantir a subida à 1.ª divisão - foi ele o autor do único golo no jogo no qual a equipa consumou a promoção - e a conquista inédita do título na 2.ª divisão está, com duas jornadas por cumprir, à distância de um ponto. O extremo/goleador português está também nomeado para o prémio de jogador do quarto e último período do campeonato.

Nada mau para quem no verão do ano passado estava à experiência.

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