Do Benfica ao Al Ain, à procura de talento em estado puro

18 mai, 09:12
Gonçalo Bexiga

Scout Gonçalo Bexiga ajudou a lançar Centro de Formação do Seixal. Agora, está nos Emirados Árabes Unidos, onde acaba de sagrar-se campeão.

Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do Mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências. Sugestões e/ou opiniões para djmarques@tvi.pt ou rgouveia@tvi.pt

Poucos viram tantos jogos e tantos jogadores em tão poucos anos como Gonçalo Bexiga. Começou a carreira cedo, aos vinte anos, especializou-se no scouting e trabalhou na prospeção do Benfica ao longo de quase quinze anos, desde a inauguração do Centro de Estágio e Formação do Seixal.

Um «olheiro» que nos falou da acesa rivalidade com o Sporting nos primeiros anos de trabalho, na caça aos maiores talentos de Portugal. Foi ele que encontrou Gedson Fernandes e Florentino Luís, neste caso, sem o ver jogar, e acompanhou de perto o «surpreendente» crescimento de Rúben Dias no clube. Subiu todos os degraus até chegar à equipa principal, onde trabalhou diretamente com Bruno Lage e Jorge Jesus.

Pelo meio passou também pela Aspire Academy, uma das mais modernas academias do Mundo, no Qatar, e agora é o chefe de scouting e análise de uma das maiores potências do Médio Oriente, o Al Ain, onde acaba de sagrar-se campeão.

Venha daí conhecer o mundo desconhecido do scouting pela mão de Gonçalo Bexiga.

Quarenta anos de vida, vinte anos de carreira. Começaste muito cedo a treinar, como foram esses primeiros passos?

- Sim, comecei como treinador das camadas jovens da Associação Desportiva e Cultural da Encarnação e Olivais (ADCEO). Era ainda jogador e recebi um desafio de outro colega meu que também era jogador e já tinha sido adjunto de uma equipa. Comecei nos benjamins do ADCEO.

Já tinhas alguma formação de treinador nessa altura?

- Não, ainda não. Só um ano e tal depois de começarmos a pegar nessas equipas é que decidimos ir tirar o primeiro nível de treinador na Associação de Futebol de Lisboa. Tirei nessa altura o primeiro, depois em 2006, já no Benfica, tirei o segundo nível, apesar de já não estar ligado ao treino. Na altura não havia formação de scouting. Era o que havia e era o que tirávamos todos.

Depois foste progredindo nos vários escalões da ADCEO, foram importante esses primeiros passos na carreira?

Foi benjamins, depois, infantis, juvenis e juniores, já foi há tanto tempo. Foi a primeira experiência de estar no outro lado. Sempre joguei futebol, nunca cheguei a profissional, mas joguei sempre federado até aos seniores. Todo o tempo que treinei na ADCEO, era jogador lá na equipa de seniores. Ajudou-me bastante passar para o outro lado e começar a olhar para os jogadores dentro de campo noutra perspetiva e, mesmo no balneário, ter outro tipo de relações que tens como jogador. Nesse sentido ajudou-me muito, também me ajudou a olhar para o jogo de uma forma mais global e não tanto individual. Embora eu, como treinador, me tenha focado mais no individual, em desenvolver os miúdos num contexto coletivo.

Em 2006 vais para o Benfica, como surgiu essa oportunidade?

- Um amigo tinha um amigo que estava no departamento de prospeção do Benfica que tinha começado há pouco tempo. O centro de estágios Benfica Campus ia ser inaugurado no Seixal. Estavam à procura de uma pessoa para o distrito de Lisboa que tivesse disponibilidade para aos fins de semana cobrir os jogos nessa área. Esse tal meu amigo falou bem de mim, disse que tinha paixão pelo jogo, sabia do que estava a falar. Depois de uma primeira conversa informal, ele marcou-me uma entrevista com o coordenador de prospeção do Benfica. Fui a essa entrevista já no Seixal que ainda estava em obras e acabei por ficar.

Começaste logo a trabalhar no Seixal?

- Ao início não, só trabalhava em part-time, só trabalhava aos fins de semana a ver os jogos de todos os escalões da formação no distrito de Lisboa. Também estava pressente naquilo a que chamamos vulgarmente as captações onde chamávamos dezenas de miúdos dos outros clubes para virem à experiência. Portanto, o meu trabalho, ao início, era só isso, ver jogos ao fim de semana e ir às captações.

Uma academia nova, por estrear, foi um mundo novo para ti?

- Sim, embora, ao início, não fosse muitas vezes ao Seixal. Os escalões de iniciação estão todos baseados e Lisboa, pelo menos na minha altura era tudo baseado em Lisboa até aos sub-13. Só nos sub-14 é que passavam para o Seixal. Só ia lá para para as reuniões de departamentos. Mas já era uma construção incrível na altura, apesar de já existir a academia do Sporting. Sou um bocado suspeito para falar, porque sou benfiquista, mas por ter sido feito mais tarde e já com o exemplo de Alcochete, ficou muito mais bonito e mais moderno. Na altura ainda não estava como está hoje em dia, mas claro que foi uma grande mudança. Para um clube que andava sempre com a casa às costas em termos de formação, a treinar em três, quatro, cinco campos diferentes, alguns sem as mínimas condições para a prática do futebol, foi uma diferença enorme.

É uma estrutura que está agora a produzir resultados, a formação do Benfica está em alta…

- Foi o que lançou as bases. A força humana que o Benfica foi adquirindo depois do investimento que fez depois de construir o Seixal. Foi a força motriz de passar o Benfica para número um da formação hoje em dia em Portugal. O Benfica domina as convocatórias para as seleções nacionais, lança jogadores na primeira equipa e faz os negócios que são públicos para toda a gente.

O Benfica tem muitos escalões, contratou muitos treinadores na altura, quais eram as tuas funções nesta primeira fase?

- Nas duas primeiras épocas só observava jogos, submetia os relatórios no domingo à noite ou na segunda-feira. À terceira época houve uma reestruturação do departamento, criaram-se novas funções, uma das quais foi a de técnico de prospeção que já era responsável por alguns escalões e era alguém intermédio entre o coordenador do departamento de prospeção e o normal prospetor que era o que eu fazia. Fiquei na altura com a responsabilidade de coordenar os escalões dos sub-10 aos sub-13, quatro anos de nascimento. Fiz isso durante três ou quatro épocas. Quando começamos a criar mais equipas e a ter muito mais atletas, tivemos que nos dividir entre os pupilos e Odivelas. Já era para mim fisicamente impossível controlar os quatro anos de nascimento e fiquei só com os benjamins. Aí já tinha que estar nos treinos, coordenar com os pais os atletas que vinham à experiência, recebê-los, fazer o relatório final dos jogadores. Já era mais a sério, tinha de lá estar praticamente todos os dias.

É nesse período que detetas o Florentino Luís no Real Massamá…

- Não fui eu que o encontrei. Assinei com vários jogadores que acabaram por chegar à primeira equipa. O Gedson, o Florentino, mas com o Florentino assinei contrato sem o ver jogar. É uma história curiosa. Ele já estava muito bem referenciado e, na altura, disse ao Rodrigo Magalhães, treinador do Benfica que ia defrontar o Real, para prestar atenção àquele jogador porque já tínhamos bons relatórios dele. Eu estava em Loures a ver outro jogo e o Rodrigo ligou-me a meio do jogo entre o Real e o Benfica a dizer-me “este miúdo é para ontem, tens de vir rápido”.

E foi nesse próprio dia?

- Eu andava sempre com os contratos debaixo do banco do carro, arranquei logo para Massamá. Falei com os pais e lembro-me de ir a conduzir atrás do carro do pai, porque ele não tinha os documentos todos. Assinamos a ficha que o vinculava ao Benfica em casa dele. É uma história curiosa porque só o vi jogar depois de assinar.

Foi uma aposta ganha, o Florentino acabou por chegar à equipa principal. Na última época esteve emprestado ao Monaco e ao Getafe, tem potencial para voltar agora ao Benfica?

- Acredito que sim, acho que ele tem muito valor. Os timings na carreira dele não têm sido os melhores, não tem tido alguma sorte que faz falta nestes momentos, com trocas de treinador, lesões e outros tipos de coisas que influenciam o contexto. Acho que tem tudo para ser um jogador influente no Benfica se lhe derem as oportunidades. É como outros jovens que o Benfica teve e tem ao longos dos anos. Por vezes, por razão de contexto ou oportunidade, acabam por não ser bem-sucedidos, mas o Florentino ainda é jovem, tem 23 anos. Pelo valor que tem acredito que pode fixar-se no Benfica em definitivo.

Falaste há pouco no Sporting, como é a vida de um scout em Lisboa com dois clubes à caça de talentos? Não se atropelam?

- Há uma rivalidade tremenda, por isso é que estamos a captar os jogadores cada vez mais jovens. Na minha opinião é um pouco errado, mas o contexto é tão competitivo que ou captas os atletas muito jovens ou depois já não tens hipóteses, já os vais encontrar num rival. Tenho uma opinião muito própria sobre o assunto. Acho que a federação devia criar regras até para preservar os clubes mais pequenos. As trocas de atletas só deviam acontecer um pouco mais tarde, talvez na altura do salto pubertário. Só nessa altura é que os jovens deviam ser permitidos a deixar o clube que os formou e saltar para os clubes ditos grandes. É a minha opinião, mas não acredito que vá mudar tão cedo. Há um conjunto de interesses instalados e há uma grande competição muito grande.

Mas como era essa «corrida» com o Sporting, era fácil chegar primeiro?

- Eu fazia o meu papel, fui sempre muito agressivo para tentar captar os melhores para o nosso lado mas, o Benfica obrigava-me a isso, sempre com integridade, tendo em conta os valores do Benfica e os meus valores pessoais.

O nome do Benfica também facilita a aproximação aos pais dos jogadores, não?

- Agora sim, mas na altura, quando comecei, o Sporting era o maior da formação. Senti muitas dificuldades, os primeiros anos foram muito difíceis, tivemos de ir atrás do prejuízo. Na altura, perguntavam-me: “Qual foi o último jogador que o Benfica lançou? Onde é que ele está agora?”. E também diziam: “Olha para o Sporting, olha para o Quaresma, para o Simão, para o Figo, para o Futre”. Eram os próprios pais dos jogadores que diziam isto. Só quando conseguimos demonstrar que o Seixal tinha qualidade a nível de infraestruturas e de staff, que o Benfica estava mesmo a apostar e a investir muito e que os jogadores começaram a chegar às seleções nacionais jovens, é que começou a ser mais fácil vender esta ideia aos pais. Só aí é que começamos a convencer que o nosso projeto era o mais adequado para os miúdos.

A aproximação aos pais devia ser complicada, como é que fazias o primeiro contato?

- É muito importante haver proximidade nos momentos em que tem de haver proximidade e distância também quando é preciso. Eles têm de perceber que nós fazemos o melhor para desenvolver os filhos, mas também temos de ser imparciais na altura de avaliar os seus comportamentos, as suas qualidades e os seus defeitos. É preciso ser muito claro desde o início. Depois tens de ser justo e leal para com todos, sem exceções, não interessa de onde vêm, raça ou credo ou nacionalidade. Temos de ser justos com todos e acho que os pais, quando são sensatos e equilibrados, percebem que não temos de ser todos amigos, temos de ser cordiais e educados uns com os outros e justos, principalmente, com os atletas. Nunca tive grandes problemas com os pais, mas sei que existem.

O Gonçalo também era facilmente conhecido nos campos, como representante do Benfica. Conseguia observar jogadores de forma discreta? Sem dar nas vistas?

- Era logo reconhecido, até os miúdos diziam logo: “Lá vem o olheiro do Benfica”. Era uma frase que ouvia muitas vezes. Os pais, os miúdos, os próprios treinadores, os diretores das equipas. Nós também pedíamos muitas vezes informações e tínhamo-nos de identificar. Gerava-se sempre algum burburinho, não só comigo, mas com qualquer um dos colegas que fosse ver um jogo. No primeiro ano e no segundo ainda conseguia passar despercebido, mas depois já não. Era completamente impossível passar despercebido.

Entre as tuas funções de prospeção, também estiveste em Angola?

- Fui abrir uma escola do Benfica. Foi um projeto muito engraçado, completamente diferente, mas também foi muito gratificante para mim. Fui para lá como coordenador técnico, estive lá cinco anos e correu muito bem. Foi um trabalho muito giro e uma experiência engraçada viver em África. Depois também estive dois anos no scouting da Aspire Academy, das seleções jovens do Qatar. É quando estou no Qatar que recebo um convite do Benfica para regressar, mas desta vez para o departamento de scouting da equipa principal.

Qual era a equipa técnica na altura?

- Apanhei o Bruno Lage e, depois, o Jorge Jesus.

Algum pedido especial dessas equipas técnicas?

- Não posso revelar muito sobre esse período, mas tínhamos uma equipa excelente de pessoas muito capazes, especialista naquilo que fazem. Pessoas muito dedicadas, trabalhavam de sol a sol, sem folgas, sem férias, sem nada. No fundo esta é a vida de um scout do futebol profissional. Estávamos sempre preparados para qualquer eventualidade, qualquer exigência, para diferentes perfis para as diversas posições dentro do nosso modelo de jogo ou mesmo se houvesse uma alteração do sistema tático. Era um trabalho mais preventivo e proactivo do que reativo.

Estiveste quase quinze anos a acompanhar de perto a formação do Benfica, nesse período houve algum jogador que te tenha surpreendido pela forma como evoluiu?

- Não é fácil, mas vou ter de dizer o Rúben Dias. Na altura andámos a vê-lo, a fazer relatórios sobre ele. Sim senhor, era um jogador que tinha muito valor, por isso é que assinou pelo Benfica, mas comparativamente com outros da geração dele não tinha tanto potencial ao início. Depois com a sua força mental e capacidade de trabalho, porque o Rúben é um ser-humano incrível, acabou por surpreender tudo e todos. Foi uma meia surpresa, claro, porque não se chega ao Benfica sendo mau jogador. Mas o percurso dele acabou por surpreender todos até ao nível que está agora, a forma como chegou à equipa principal do Benfica e agora ao Manchester City.

Ele foi promovido à primeira equipa na mesma altura do Ferro, eram muito diferentes?

- Até acho que o Ferro, na altura, tinha um estatuto até um bocadinho superior, diria.

Nos últimos anos têm chegado muitos jogadores da formação à equipa principal. É um reflexo da forte aposta que o Benfica fez?

- É o reflexo do trabalho de centenas de pessoas. Treinadores, jogadores, mesmos os que não chegaram tiveram o seu papel e ajudaram os outros a chegar porque treina-se muito bem e compete-se ao máximo. Isso é que faz com que o topo da pirâmide seja mais forte, é a base. Tudo o que seja delegados ao jogo, que agora se chama team managers, diretores, scouts, fisioterapeutas, médicos. Não me quero esquecer de nenhuma categoria, sei que toda a gente trabalhou para chegar a este sucesso. Foi muito, muito difícil. Custo também muito, muito dinheiro. Deve ter sido um investimento brutal, mas teve um retorno incrível. Hoje em dia até a minha própria carreira, individualmente falando, foi influenciada pela fama que conseguimos adquirir como clube formador e pelos jogadores que fomos lançando e que estão num nível soberbo neste momento.

O Benfica venceu este ano a Youth League, é o expoente máximo da formação. Ainda teve a tua marca esse troféu?

- À quarta foi de vez. Esta geração toda já foi depois de eu sair, nem quero estar aqui a colher louros por uma coisa em que não tive influência. Alguns jogadores já lá estavam desde o meu tempo, como o João Tomé, mais um ou outro. O Henrique Araújo, por exemplo, já estava na formação, mas eu na altura já estava na equipa principal. Que eu me recorde, não tive participação na vinda destes atletas, mas a estrutura ficou, está bem oleada e o sucesso vai continuar de certeza absoluta. Agora é tentar aproveitar, mas com equilíbrio. Tentar fazer uma mescla de jovens com jogadores mais experientes e continuar ativo no mercado. Não se consegue fazer uma coisa sem a participação de todos.

O facto dos jogadores serem integrados muito jovens numa estrutura profissional não pode abafar um pouco o talento inato que alguns jogadores têm? Aquele futebol que vinha da rua não se perde nas academias?

- As pessoas que estão lá são as mesmas do meu tempo e sei que elas tentam recriar, embora seja difícil, um pouco o futebol de rua e a diversão, pelo menos nos escalões de iniciação, nos escalões de base. Há uma preocupação que a criança continue a ser criança. Ainda há pouco tempo o Rui Magalhães, um dos coordenadores técnicos do Benfica, deu uma entrevista em que defendeu que era apologista de se acabar com os campeões nos primeiros anos da formação. Tenho tendência a concordar com ele. Deixar as crianças serem crianças é cada vez mais importante e desenvolvê-las globalmente e não só como atletas.

Também passaste pela Aspire Academy, no Qatar. Que projeto foi esse?

- Já estavam lá uns antigos colegas do Benfica, fui a uma entrevista, correu muito bem e fizeram-me uma proposta. Assinei imediatamente porque estava muito interessado. A Aspire é uma instituição incrível também, não só ao nível das infraestruturas, como também na qualidade do staff que tem lá. É uma mistura muito interessante de pessoas de várias nacionalidades e com um background incrível na área de formação. Para mim também foi uma experiência muito boa, onde aprendi muito como scout.

A Aspire Academy é apontada como uma das academias mais modernas do mundo, é comparável a Alcochete e ao Seixal?

- Sim, em termos de infraestruturas é ela por ela, é top, top, top.

Sentes-te um privilegiado por ter trabalhado em duas das academias com maior prestígio no futebol?

- Muito. Digo isso muitas vezes. Tive a sorte de trabalhar em dois dos sítios mais incríveis e depois visitar alguns outros que também são espetaculares em termos de infraestruturas. Também é verdade que não adianta teres a melhor nave espacial se não tiveres bons astronautas. O factor humano é importantíssimo, é o mais importante. Prefiro um campo pelado e as melhores pessoas para desenvolver os atletas do que uma infraestrutura como a da Aspire Academy e depois não terem material para trabalhar.

Nesse período no Qatar coincidiste com o Xavi, atual treinador o Barcelona. Chegaste a conhecê-lo?

- Conheci. Não tínhamos uma relação muito próxima, mas era uma pessoa muito bem-educada. Depois desse primeiro que tivemos, sempre que nos cruzávamos, ele dizia sempre um olá e tinha uma palavra amiga. Muito humilde. Acredito que vá ter muito sucesso no Barcelona.

Depois do Qatar, regressas ao Benfica para integrar o futebol profissional. Passaste a viajar mais, não?

- Sim, comecei a trabalhar com a equipa A e equipa B. Viajei muito, muito, muito, até ao covid. Praticamente todos os meses tínhamos, pelo menos, uma viagem. É sempre melhor observar os jogadores ao vivo do que por vídeo. O vídeo é apenas um complemento.

Agora estás no Al Ain, nos Emirados Árabes Unidos, ainda te cruzaste com o Pedro Emanuel, não?

- Ele já cá estava quando eu cheguei, mas a minha vinda não teve nada a ver com ele. Eu vim pelo clube para montar de raiz um departamento de scouting que o clube não tinha. Nesta altura, só diretor de scouting e análise. Fazemos as duas coisas.

O Al Ain já ganhou uma Liga dos Campeões asiática, já esteve numa final do Mundial de Clubes e é o atual líder da liga dos Emirados com dez pontos de avanço. É uma potência do Médio Oriente?

- Sim, podemos dizer que é uma espécie de Benfica, é o clube mais titulado, é a equipa com mais fãs. A equipa vem de três épocas e que não esteve à sua altura da sua grandeza, por isso, a meio da época passada, projetaram a criação do departamento de scouting e análise. O ano passado ficámos em sexto, mas agora, com o novo treinador [Serhiy Rebrov] e muitos jogadores novos conseguimos mudar o paradigma do clube para aquilo que é o seu normal. Já somos campeões, temos dez pontos de avanço e só faltam três jogos e ganhamos a Taça da Liga também.

É um plantel que tem quatro brasileiro, um argentino, mas que tem muitos africanos. A prospeção do Al Ain é mais forte em África?

- Tentamos cingirmos a países que tenham uma adaptação fácil em termos de cultura e, sobretudo, em termos de clima. Sabemos que em África é das zonas que faz muito calor, como faz aqui, e também há muitos países onde a maioria das pessoas são muçulmanas, portanto, em termos de transição também não têm grandes problemas em vir para aqui, embora isso não seja um fator sine qua non. Por esses motivos, acaba por ser um mercado em que nós dedicamos alguma atenção, mas olhamos para o mundo todo.

E como são os jogadores locais. O EAU são um país rico, isso reflete-se no comportamento desses jogadores?

- Sim, nota-se muito, embora aqui no Al Ain a mentalidade para vencer é muito grande, a exigência é muito alta e os jogadores são muito acima da média nesse sentido, trabalham muito. Essas diferenças notam-se no dia a dia e em competição. Por vezes sentimos que um ou outro jogador podia dar um bocadinho mais, porque até tem talento para isso, mas, por um motivo ou por outro, acaba-se por não ver nele a mesma resiliência que se vê noutro tipo de jogador.

Já passaram alguns jogadores pelo Al Ain provenientes da liga portuguesa, como foram os casos recentes do Wilson Eduardo e do Nakajima.

- O Wilson Eduardo já tinha saído quando cheguei. O Nakajima, infelizmente, lesionou-se e também saiu. Socialmente estiveram bem integrados, mas o Wilson, em termos de performance, acabou por ter algumas dificuldades e não esteve ao nível que sabemos que ele tem. Depois decidiu dar um passo na carreira dele e acho que agora, na Turquia, está bastante melhor e ainda bem porque ele merece. É uma pessoa espetacular e bom jogador também.

Como foi a tua adaptação aos Emirados, ao calor, à cultura do país?

- Sim, já tinha estado no Qatar, a cultura é semelhante, o calor é igual. Foi uma vantagem que eu tinha. Na altura em que me convidaram para vir também tiveram isso em consideração. Eu já conhecia este lado do planeta.

O que nos podes contar sobre a cidade Al Ain que dá nome ao clube?

- Fica a uma hora e meia do Dubai e a hora e meia de Abu Dhabi. É uma cidade mais tradicional, não é uma cidade costeira, não tem praia, com muita pena minha, porque eu gosto muito de praia. É uma cidade muito diferente daquilo que as pessoas estão habituadas a ver nos Emirados que são os prédios grandes do Dubai, aquela fama toda, a diversão e tudo mais. É uma cidade muito mais tranquila e para mim ainda bem. Estou cá com a minha família e adoro viver aqui. É espetacular, não há trânsito, não há stress, tudo é próximo, há um ambiente muito familiar, acolhedor.

No final do ano vamos ter um Campeonato do Mundo no Qatar. Estás aí perto, já lá estiveste, algum conselho especial para quem lá vai?

- Fala-se muito no calor, mas o Mundial vai ser feito no inverno por causa disso. Em novembro e dezembro as temperaturas aqui são muito boas, muito amenas. Vai ser perfeito para a prática do futebol. As seleções não vão precisar de fazer uma grande adaptação.

Para fechar, vais continuar por aí ou tencionas voltar a Portugal?

- Neste momento tenho contrato durante mais algum tempo e estou feliz aqui. Onde há sucesso e as pessoas reconhecem o meu papel e o papel da minha equipa no sucesso desportivo do clube, como é o caso, a tendência é sempre para querer ficar e continuar. Estou muito feliz aqui. Não é muito normal os scouts falarem publicamente, mas faço minhas as palavras dos treinadores, que dizem que a mala está sempre feita. Como sabemos, no mundo do futebol, hoje somos bestiais e amanhã somos bestas. Tenho o objetivo de continuar como Chief Scouting ou de análise ou, talvez um dia, vir a ser diretor desportivo. Estas duas coisas estão na minha cabeça, se for aqui, melhor ainda. Se não for aqui, é onde a vida me der oportunidade.

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