Do Amora com Jesus ao Benfica do Ruanda: as aventuras de Jorge Paixão

1 abr, 09:03
Jorge Paixão

Fez parte do primeiro grupo treinado por Jorge Jesus há mais de 30 anos e virou treinador influenciado. Depois de Angola, Qatar, Polónia, Sudão e China, aterrou no Ruanda, onde quer deixar marca dentro e fora do futebol

Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do Mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências. Sugestões e/ou opiniões para djmarques@tvi.pt ou rgouveia@tvi.pt

O treinador português anda por todo o Mundo. Nos principais campeonatos da Europa, na Ásia Oriental, no Médio Oriente, na América do Norte e do Sul. Em África também: Egito, Sudão, Angola, Moçambique, Quénia e, até, Ruanda.

É aí, nesse pequeno país da África Oriental, que encontramos Jorge Paixão, que chegou há dois meses ao Rayon Sports, equipa ruandesa que tem 7 milhões de adeptos.

Do Ruanda sabe-se mais sobre um passado não muito longínquo do que sobre o presente: em 1994, durante 100 dias desencadeou-se um genocídio durante o qual foram mortas entre 500 mil e 800 mil pessoas, quase todas tutsis, vítimas da sede dos hutus de vingar o assassinato do presidente ou de apenas um pretexto para levar a cabo um plano macabro.

Vinte e oito anos depois, o Ruanda está em paz consigo próprio e é apontado como um exemplo em África, apresentando bons índices de crescimento económico, investimento estrangeiro, decréscimo da pobreza, aumento considerável da esperança média de vida e uma capacidade interessante de atração turística. É, no fundo, outro país.

«Quando eu me sinto num sítio como se estivesse em casa, apesar de não ter a minha família comigo, é porque estou bem. E aqui sinto-me assim», conta-nos Jorge Paixão. E não foi sempre assim na vida de quem, aos 56 anos, não quer treinar em Portugal e que já trabalhou na China, na Polónia, no Qatar, em Angola e até, durante um curto período, no Sudão.

Este «Estórias Made In» tem episódios de forças ocultas, presidentes pouco recomendáveis, momentos de «saltar a tampa» e outros que nos fazem a acreditar que é possível mudar o mundo de pessoas com pequenos mas valiosos gestos. E tem, também, Jorge Jesus.

Maisfutebol – Chegou ao Ruanda há menos de dois meses. Não é propriamente um destino óbvio para um treinador português. Porquê esta escolha?

Jorge Paixão – Por mais do que uma razão. Primeiro, porque eu decidi em 2016 que não quero trabalhar em Portugal. Tinha como meta voltar à China, mas o país está fechado por causa da covid e é muito difícil. E porque queria voltar a África, mas a um país que me permitisse trabalhar em condições. Também tenho como objetivo de carreira treinar uma seleção africana e vindo para África estarei mais próximo disso. O que me trouxe para cá foi a grandeza do clube.

MF – Fale-nos disso.

JP – Este clube, o Rayon Sports, é como se fosse o Benfica de cá. Tem 7 milhões de adeptos, 70 ou 75 por cento da população. Em 2020 bateu no fundo, faliu. Tinha outras pessoas à frente dele e entrou numa fase muito má. Esta direção, este comité como eles dizem, pegou depois no clube, mas a pandemia prejudicou um bocado as ideias. Agora, estão a tentar reerguê-lo. Daí nós termos vindo. Não é um trabalho fácil. É estimulante pela grandeza do clube, mas não é fácil. O clube estava habituado a um patamar muito alto onde não está agora. A equipa não é uma equipa que ainda possa lutar pelo título.

MF – E os adeptos compreendem isso? Que o contexto do clube é diferente hoje em dia e que os objetivos têm de ser revistos?

JP – Alguns adeptos compreendem, outros não. O clube está a tentar gerar receita para ficar no patamar de dois ou três clubes que estão aqui e que têm ascendente.

MF – Que clubes são?

JP – Um deles é militar: o APR, que é a equipa que tem mais força… a todos os níveis. Há o Kiyovu, que é um clube de empresários e que está muito bem organizado e é muito forte. E o Mukura, que é de uma outra cidade e também está forte. Nenhum destes clubes tem a grandeza do nosso, mas financeiramente estão mais acima. Temos dois ou três jogadores interessantes que podem ser vendidos para fora. Há aqui jogadores com muita qualidade. As pessoas não têm noção da qualidade do jogador ruandês, porque é um mercado que ainda não está muito aberto.

MF – Há uma espécie de estereótipo do jogador africano. Rápido, com técnica, mas com noções muito básicas do jogo em si. Foi também isso que encontrou aí?

JP – Sim. É um pouco como o jogador chinês e o árabe.

MF – Um treinador tem de dar muitos passos atrás no trabalho com os jogadores?

JP – Tem, mas isso também acontece às vezes em Portugal, dependendo da escola do jogador. Às vezes estamos a explicar aqui coisas que eles deviam ter aprendido com 11 ou 12 anos: receção orientada, o chamado scan, que é olhar em volta, o posicionamento corporal, dos pés, do pescoço. Adoro o jogador africano e África, porque aqui encontramos o futebol de rua, que foi o futebol onde eu cresci. O futebol de rua tem coisas muito boas para o jogo, mas têm de aprender as regras, o saber estar em campo, de entender o jogo e o momento. São esses aspetos em que temos de os educar. Estamos a implementar uma filosofia de jogo de futebol mais com bola. E aqui o futebol é muito direto, porque os africanos gostam muito disso. E o público tem muita influência no jogo. Uma equipa estica a bola na frente e o público fica logo eufórico. E o mesmo acontece quando um jogar dribla em vez de cruzar. Temos de tirar certas coisas do jogador. Tudo bem que queremos chegar lá à frente, mas nem sempre chegar depressa é chegar bem. O processo de treino é muito diferente daquele a que estavam habituados mas eles recebem bem. O jogador africano tem muita qualidade técnica, velocidade e é imprevisível, mas tem de ser educado. Os chineses, por exemplo, têm muitos mais problemas em termos de foco. Ganham muito dinheiro e estes não ganham nada.

MF – É possível a um jogador viver só do futebol no Ruanda?

JP – Temos aqui jogadores de primeira liga, a jogarem na seleção e a ganharem 500 euros. Mas conseguem, porque a vida também não é muito cara.

MF – Tem jogadores com capacidade para atingirem, por exemplo, um patamar profissional em Portugal?

JP – Tenho aqui dois jogadores que entram num plantel de primeira liga portuguesa, não tenho dúvidas nenhumas. Mas a ideia é vender para mercados que tenham muito dinheiro. Ásia, por exemplo, onde há mais dinheiro. O clube precisa de fazer receita para poder fazer uma equipa forte e no futuro lutar pelo campeonato. Vamos tentar a melhor classificação possível, mas o principal objetivo é fazer um brilharete na taça e ajudar a reestruturar o clube.

MF – E que condições encontrou no clube?

JP – O Rayon é patrocinado pela Skol, uma marca de cerveja, água e sumo que preparou o centro de treinos para o clube, onde temos uns quartos e a equipa treina e estagia para os jogos. É um espaço interessante para se poder trabalhar em África. Não é fácil um clube ter umas infraestruturas destas só para ele. Os outros clubes não têm: há seis clubes na Liga nesta cidade [Kigali, a capital] e jogamos todos no mesmo estádio e muitas treinam lá também, mas nós não. Numa vez ou noutra vamos, porque é sintético e no nosso centro treinamos em relva natural. Os estádios aqui têm todos relvados sintéticos.

MF – Voltando aos motivos da sua escolha pelo Ruanda. Aconselhou-se antes de assinar? Tinha alguém na sua rede de contactos que pudesse dar-lhe algumas informações?

JP –  Não. Procurei. Quando recebo uma primeira abordagem, faço logo um diagnóstico: local, país, cultura, cultura do futebol, campeonato, condições de trabalho, etc. E quando pensamos no Ruanda, pensamos logo no genocídio, claro. Mas quando começo a procurar vejo que não tem nada a ver. Vejo um país que está a crescer nos últimos anos, uma boa cidade. Qualidade de vida? Parece-me bem! Quando vejo que o clube com 7 milhões de adeptos, ótimo, apesar de a pressão ser muita. Depois, começam os contactos: um clube que há alguns anos não ganha nada, que tem dificuldades. Acabei por vir para África depois de perceber que havia condições para viver bem e fazer o meu trabalho. É lógico que a qualidade de vida é importante: quando eu me sinto num sítio como se estivesse em casa, apesar de não ter a minha família comigo, é porque estou bem. E aqui sinto-me assim. Tenho uma boa qualidade de vida e a segurança é top neste país. Vemos muita polícia sempre na rua e, tanto quanto sabemos, não há episódios de roubo. É um país muito interessante e Kigali é uma cidade muito limpa, segura e já muito modernizada. Em termos arquitetónicos, na maior parte da cidade sentimo-nos como se estivéssemos na Europa.

MF – (…)

JP – Hoje, o Ruanda é um país exemplo no continente. A FIFA tinha uns escritórios no Gana ou no Quénia e agora fizeram aqui um edifício espetacular. As instâncias importantes de África estão a trazer tudo para aqui, por reconhecerem que é um país em franco desenvolvimento, seguro e onde não há subornos. É um exemplo que a Tanzânia e o Burundi, que são aqui ao lado, estão a tentar seguir. Esse é o caminho.

MF – Quando pensamos no Ruanda vem-nos sempre à memória a questão do genocídio em 1994.

JP – É verdade. Nunca ninguém me informou sobre isso, embora eles falem do genocídio de forma aberta. Mas penso a evolução que este país tem tido, além de se dever muito ao presidente, deve-se também ao facto de quererem muito limpar a imagem do que se passou com o genocídio. Foi um episódio…

MF – (…)

JP – Ainda há duas semanas estivemos na academia que fica na cidade onde o clube foi fundado, que fica a duas horas e meia/três horas de carro. O presidente é dali e tem lá uma quinta grande onde fica a casa na qual nasceu e que reconstruiu. Ele perdeu mais de metade da família durante o genocídio. Ela era militar, capitão, e quando voltou tinha a mãe, três irmãos, três tios e os primos mortos.

MF – Foi ele que lhe falou sobre isso?

JP – Foi. Abertamente. Quando entrámos na quinta, ele pediu que eu e o Daniel Faria, o meu assistente, fossemos com ele ao sítio onde ele tem um memorial numa zona mais afastada. Uma pedra enorme em granito com fotografias e os nomes dos familiares que foram mortos. Foi aí que ele nos contou a história toda. O que aconteceu à família e a estupidez que foi aquela guerra. Todas as guerras são estúpidas, mas esta então…

MF – Voltando ao futebol. Teve de mudar alguns hábitos da equipa quando chegou ao Rayon Sports?

JP – Tive alguns problemas para colocar isto na ordem nos primeiros 15 dias. Porque o clube tem alguns problemas e a questão dos horários também não é fácil. E hoje as coisas estão muito mais organizadas. Temos tudo o que é preciso para uma equipa profissional, mas no começo é preciso algum ‘sangue’ em algumas decisões, como mandar um jogador para casa quando chega atrasado ao treino.

MF – Isso acontece?

JP – Ao início acontecia, mas agora já não. Eles agora cumprem, caso contrário são penalizados. Se evoluírem em todos esses aspetos, estarão muito mais preparados se um dia forem para a Europa. Também estamos a tentar alterar alguns hábitos alimentares, mas há outros hábitos, coisas instituídas, que não vale a pena mudar. É importante não chocar a cultura.

MF – Por falar em cultura, em África há quem dê muita importância às forças ocultas. Já passou por situações desse género?

JP – Tenho uns episódios giros. Em Angola, um dia um jogador zambiano chega ao pé de mim e diz-me: «Coach, domingo não sofremos golos.» «Então?» «Já fechei a baliza.» Ele tinha feito umas rezas. Aos 25 minutos sofremos um golo. Até ganhámos o jogo, mas no fim do jogo fui meter-me com ele por causa disso. Ele disse que a baliza estava fechada, mas que algo tinha saído mal. Em Angola tive muitas cenas dessas. Uma vez, o meu vice-presidente andava mal porque os resultados também não estavam a ser os melhores. Ele um dia diz-me: «Coach, amanhã vens comigo a um sítio.» Quando vamos a entrar no carro, ele diz-me que vai levar-me a um sítio para uma senhora me limpar. Que eu tinha qualquer coisa. Já não fui a lado nenhum.

MF – E mais dessas?

JP – Aqui no Ruanda, a nossa equipa faz o estágio antes dos jogos só com os adjuntos que pertencem mesmo ao clube, enquanto eu e o meu assistente, depois do treino na véspera, só voltamos a estar com os jogadores no dia do jogo. Há três semanas fomos chamados ao estágio porque aparentemente tinha morrido a irmã de um adjunto: ela tinha 19 ou 20 anos e o homem estava no quarto completamente devastado. Estivemos ali, disse-lhe para ir casa, para estar ao pé da família. Entretanto fomos para a zona das refeições e veio o presidente: «Já viu o que é que aconteceu?» O presidente foi ter com o adjunto e passado um bocado voltou ele. «Afinal não morreu!» Então? «Eles fizeram-lhe uma reanimação.» Uns dias depois perguntei ao adjunto pela irmã. O que é que se tinha passado? Ela ia na rua e pisou umas coisas africanas que estavam no chão. «Quando ela as pisou, aquelas coisas entraram dentro dela e mataram-na. E depois disso foi feito um trabalho de reanimação no hospital que acabou agora. Tomou uns produtos que mandámos vir do Congo e ela agora está bem», contou-me ele. Eu sou católico praticante, mas não acredito nessas coisas.

MF – No início da entrevista disse que decidiu há alguns anos não voltar a trabalhar em Portugal. Porquê?

JP – Fiquei desiludido e magoado. Costumo dizer que o futebol português não me faz falta e que eu não faço falta ao futebol português. Sempre levei a vida com seriedade, rigor e profissionalismo. Na minha última equipa em Portugal [Mafra] passei por uma situação dramática. A equipa que eu treinava foi prejudicada num processo de escândalos. Uma coisa que foi pública, vista e que não teve penalização [n.d.r.: alegados pagamentos do então presidente da SAD do Leixões a jogadores da Oliveirense para que perdessem]. Teve há pouco tempo, mas o clube em causa não foi penalizado. O meu clube é que foi penalizado por essas situações fora do campo, acabando por descer de divisão mesmo depois de fazer 31 pontos na segunda volta. Foram situações que me traumatizaram, porque sempre vi o jogo de forma positiva, clara, com regras e ali não houve nada disso. E aí decidi que ia para fora. 'Não me identifico com isto e vou para fora.' Não quer dizer que não volte, mas isso contribuiu para sair de vez. Esse foi o campeonato da mentira. E decidi vir para fora e até hoje estou aqui. Foi também o estrangeiro que me deu a independência para poder escolher, tendo mais dinheiro para isso.

MF – O primeiro clube que treinou o estrangeiro, ainda antes disso, foi o Recretaivo Caála, em Angola.

JP – Foi onde tive a minha pior experiência em termos de qualidade de vida. Estive cinco dias sem tomar banho, porque não havia água. Lavava-me com creme de corpo. E na maior parte das vezes também não tinha luz. Ganhava muito dinheiro, tinha tudo menos qualidade de vida [risos]. Aguentei-me um ano num trabalho muito difícil, mas foi um ano muito bom.

MF – Então?

JP – Apaixonei-me pela parte social desde esses tempos em Angola. Além de treinar, hoje procuro deixar sempre mais coisa para o futuro nos clubes por onde passo, mas também fazer trabalho social. Se vou para um país que me vai ajudar a melhorar a minha situação, também tenho de ajudar. Fiz isso em Angola com crianças, no Qatar com a comunidade indiana, na China também, com crianças com paralisia cerebral e aqui no Ruanda estou a iniciar também um trabalho com crianças na zona onde treinamos, que é mais complicada. Não costumo falar disto, mas é fundamental e faço também esse apelo aos meus colegas que trabalham fora: devemos sempre fazer algo para além do nosso trabalho no futebol. As crianças são o que me toca mais. Em Angola vi muitas crianças mutiladas.

Na China, Jorge Paixão organizava todos os sábados um evento de futebol com crianças com paralisia cerebral. «Foi um bom trabalho, porque fui vendo a evolução de alguns meninos.»

MF – Marcou-o muito?

JP – Conto-lhe uma história rápida de uma lição que eu levei. E levamos muitas, por vezes de quem não esperamos. Eu estava em Huambo, uma cidade muito afetada pela guerra e não havia quase nada lá. Eu e a minha equipa técnica comíamos sempre num restaurante que estava incluído no contrato e num dia vi quatro crianças com os narizes encostados à janela, cheias de fome. Fui lá fora, agarrei nelas e disse ao empregado para juntar umas cadeiras e uma mesa. Passado um bocado, veio ter comigo o dono do restaurante, que era português. Que aquilo era complicado e que podia afastar a clientela. Eu disse-lhes que elas iam sentar-se ali porque eu ia pagar e que se ele não permitisse eu nunca mais ia lá comer. No dia a seguir, ele falou comigo e pediu-me desculpa. Percebi a situação dele, porque podia prejudicar o negócio, mas a partir daquele dia todos os dias ao jantar eu pedia para fazerem comida take-away para eu entregar aos miúdos. No primeiro dia em que eu faço isto, pedi para fazerem uns frangos, arroz e batatas e fui lá fora entregar a comida às mesmas quatro crianças, que estavam sentadas no passeio. E elas ficaram ali. Nós estávamos a jantar, mas olhávamos para fora e víamos que elas não pegavam na comida. Passado um bocado, chegam mais seis ou sete. Juntam-se a elas e aí é que começaram a comer.

MF – Para partilharem…

JP – É uma lição: crianças cheias de fome, algumas mutiladas e outras a dormir na rua. Recebem a comida e o primeiro instinto seria comer depressa antes de chegarem outras: mas esperaram pelos amigos para poderem partilhar. É uma lição! E fui criando uma boa relação com muitos desses miúdos e fiz uma 'sociedade' com eles, que estudavam e engraxavam para ganharem algum dinheiro para ajudarem a família. Todas as sextas-feiras eles tinham de me mostrar o caderno da escola para eu ver a assiduidade das aulas. Se eles tivessem ido às aulas, eu dava-lhes 100 kwanzas para eles comprarem a graxa para engraxarem. E com o dinheiro da graxa, compravam a fubá, que é a farinha, para ajudarem em casa. E criámos uma relação. Quando me vim embora, tinha umas 40 crianças no aeroporto atrás de mim a chorarem e a dizerem-me: «Pai, não vás embora». Até me arrepio a contar isto… Eles ficaram marcados em mim e tenho a certeza que eles também não se esqueceram de mim.

MF – Consegue-se fazer mais a diferença aí fora em países mais carenciados onde o que para muitos de nós é pouco, para essas pessoas significa muito?

JP – Exatamente. Por exemplo, aqui no Ruanda todas as semanas, duas ou três vezes, compro umas caixas com pacotes de biscoitos e de leite que entrego às crianças. E todas elas sabem o meu nome: Jorge. Eu gasto 11 euros a comprar uma caixa de biscoitos que tem 74 pacotes e uma caixa de pacotes de leite. E com 11 euros traz-se uma enorme felicidade a 60, 70 ou 80 crianças. Para estes miúdos isso é uma coisa… Em Angola, eu dava um sambapito – um chupa-chupa com um apito – às crianças e elas olhavam para aquilo como se tivessem recebido uma PlayStation. São pequenas coisas insignificantes no nosso país, mas que noutros lugares fazem toda a diferença.

MF - É também isso que o faz feliz mesmo estando fora do seu país há alguns anos?

JP - Sou uma pessoa realizada. O futebol deu-me muito. Tirou-me também, mas deu-me mais. Sou feliz porque trabalho no meu sonho de criança, porque consegui construir uma carreira à minha maneira, a pulso, perdendo, ganhando, mas aprendendo sempre e sem prejudicar e sem ser mau para ninguém. Sou uma pessoa feliz. Se morresse amanhã, morria realizado.

No Ruanda, a distribuir bolachas a dezenas de crianças à porta do centro de treinos do Rayon Sports

MF – Depois de ter estado em Angola, esteve no Qatar, sensivelmente na altura em que o país ganhou a organização ao Mundial 2022.

JP – Fui para lá ainda antes de ganharem a organização do Mundial e sou do início da construção desta seleção do Qatar. O ponta de lança da seleção, o Almoez Ali, foi lançado por mim na equipa principal do Al-Mesaimeer quando ele tinha 16 anos. Há dois anos foi o melhor marcador da Taça da Ásia, que eles ganharam. Estive lá dois anos, entre 2011 e 2013. Fui o treinador que esteve mais tempo no clube.

MF – E histórias?

JP – Vi coisas terríveis no Qatar ao nível dos direitos humanos. A forma como eles tratam o povo indiano, que é quem mais trabalha.

MF – Isso mexia muito consigo?

JP – Mexia porque são coisas que eu não tolero. Alías, o meu clube tinha 50 indianos ligados a várias áreas – limpeza, equipa, etc. – e posso contar um ou dois episódios. Uma vez, no fim de um treino o comité estava sentado a tomar chá e um empregado indiano estava a servir naqueles copos de plástico. Ele serve e um dos tipos atira o copo para o chão depois de beber o chá. O indiano ia apanhar o copo e eu disse que quem ia apanhar o copo era o elemento do comité. E eles ficaram ali a olhar. Depois, o meu xeque [dono do clube] veio ter comigo e disse-me que eu lhe dei uma lição. Eles têm muito respeito pelos europeus e ouvem-nos. Noutra vez, convidei três managers do clube para jantarem lá em minha casa, mas não lhes disse que tinha convidado também três indianos que também trabalhavam no clube: um deles até era engenheiro, mas trabalhava na limpeza. Os qataris ficaram muito estupefactos por irem comer à mesma mesa dos indianos. E comeram! Passados uns dias, o manager principal chamou-me e disse-me: «Tu gostas de dar lições...»

MF – Não criou alguns anticorpos com isso?

JP – Eles aceitavam e nunca criei anticorpos. Consegui até ganhar muito respeito do meu xeque. E quando chegámos, tive de começar logo a reivindicar os meus direitos.

MF – Então?

JP – Começámos a treinar enquanto o contrato estava a ser preparado – porque era feito pelo comité olímpico – e passado uma semana chamaram-nos para assinar. Tinha acordado um prémio no meu contrato e quando ele chega, esse prémio era 10 por cento do que estava acordado.

MF – E aí?

JP – Ele começa a falar em árabe e eu entretanto ligo para o empresário e digo-lhe que não estava lá o que foi acordado. Passo o telefone ao xeque e eles começam os dois aos gritos um com o outro. Entretanto, o xeque passa-me o telemóvel e o empresário diz-me para não assinar. Era uma quinta-feira depois do treino. Ele disse que não mudava, eu amarrotei o contrato e larguei-o para cima da mesa dele e fui-me embora. Quando eu saio, os meus adjuntos estão do lado de fora sentados à espera e digo-lhes para fazermos as malas. Um gajo mandar o contrato para cima da mesa à frente do xeque está à espera do quê? Vou para o hotel, janto, desligo o meu telemóvel e no dia seguinte ao fim do dia ligo-o e tinha uma data de mensagens e chamadas perdidas do team manager. Passado um bocado ele liga-me: pergunto-lhe se tem a passagem marcada para irmos embora e ele diz-me que o xeque tinha mudado o contrato. Fui lá, ele olhou para mim a sorrir e diz-me: «Tu ganhaste, mas tinhas razão.» E dá-me o contrato para eu assinar. Ganhei o respeito dele com isso. E tenho episóóóóódios…

MF – Venham eles.

JP – Um dia estava a treinar e de repente o meu capitão vem ter comigo a dizer que tinha de sair dez minutos. Tinha comprado um Porsche e tinham ido lá entregar-lhe o carro e só podiam levá-lo àquelas horas. Recebeu a chave e foi treinar outra vez. Aí tive de ter alguma flexibilidade, porque também não podemos alterar tudo.

MF – Acredita que dez anos depois muitas dessas situações já não têm lugar no Qatar? Imagina, por exemplo, um Xavi a passar por isso há bem pouco tempo?

JP – Não. O futebol cresceu, de certeza absoluta. E eles sempre tiveram a preocupação de irem buscar fora pessoas com conhecimento e que pudessem ajudá-los a melhorar: treinadores, jogadores ou pessoas para a direção das instituições. Já quando eu lá estive, apesar de estarem atrasados em termos de futebol, estavam dez anos à frente de Portugal numa coisa. Eu quando fui para lá fiz o meu trabalho com o comité olímpico. O clube é que me requisitou, mas foi o comité olímpico que me entrevistou, que analisou o meu currículo e que me pagava, dava casa e carro, embora através do clube. Para ter uma ideia, de quatro em quatro meses éramos chamados ao comité olímpico para sermos entrevistados. Para saberem o que é que faríamos em determinados contextos de um jogo. «Oh coach, você está aqui neste sistema de jogo, entretanto sofre um golo, está a perder e faltam não sei quantos minutos para terminar o jogo. O que é que faria para mudar as coisas?» Conversávamos com eles e víamos que eles queriam evoluir. E evoluíram. Acredito que o Qatar vai fazer um bom trabalho na fase de grupos do Mundial, mesmo que não passe. Antigamente, o Qatar não ganhava a ninguém e em 2019 já ganhou a Taça da Ásia. E há um carimbo grande da Península Ibérica neste trabalho que têm feito: dos espanhóis e também dos portugueses.

MF – Acredita que não vai parar com o Mundial?

JP – Acredito que não.

MF – Vamos até à Polónia, onde esteve depois, em 2014.

JP – Foi o pior sítio onde estive. Apanhei o pior presidente da minha vida. Ganhei um grande título, a Supertaça, mas apanhei um gangster a presidente. A cidade era boa, tinha qualidade de vida, mas foi o sítio onde tive maior desgaste em termos psicológicos. Aliás, esse presidente acabou por falir o clube.

MF – Interferia no seu trabalho?

JP – Ele queria interferir, mas eu nunca deixei que isso acontecesse. Tenho duas ou três histórias assim na minha carreira. Uma delas em Portugal, onde num clube que não vou dizer o nome o presidente disse que dois jogadores tinham de jogar sempre porque o investidor estava a exigir. Eu disse: «Ok, eles jogam, mas a braçadeira de treinador é para si e a do adjunto é para o investidor.» E interrompi um trabalho que estava a ser muito bom. Fui-me embora nesse dia. Tive essa situação e a da Polónia, onde o presidente na véspera do jogo ligava-me a perguntar se eu tinha convocado um determinado jogador. Eu respondia que sim e ele dizia-me para o tirar porque ele ia ser despedido no próprio dia. Depois, eu ligava ao jogador e perguntava-lhe se o presidente tinha falado com ele. Não tinha e jogava. Era constante fazer isso para eu tirar o jogador que ele não queria que jogasse. Há uma coisa que eu digo sempre à malta nova: o treinador morre sempre pela sua cabeça ou pela dos outros. E é melhor morrermos pela nossa.

Com a Supertaça da Polónia, que venceu ao serviço do Zawisza Bydgoszcz, onde esteve em 2014

MF – Sudão.

 JP – Fui para lá antes de ir para a China, no final de 2017. Este processo começou em outubro e acabou em dezembro. Comecei por ir à Turquia para escolher o local de estágio e cheguei ao Sudão quando faltavam cinco jogos para acabar o campeonato para observar os últimos jogos da equipa e escolher alguns jogadores. E assim foi: estive no Sudão vinte e tal dias e nesse período o presidente do meu clube é preso.

MF – Qual era o clube?

 JP – O Al-Merreikh. Há dois clubes grandes no Sudão: o Al-Hilal e o Al-Merreikh, que ia jogar a Liga dos Campeões africana. Por isso é que eu fui seduzido. Entretanto, o vice-presidente disse-me que não havia problema e que ele ia ser libertado, mas passado uma semana não saiu. Já tínhamos visto a equipa e sinalizado cinco jogadores de outras equipas para contratar e tínhamos dois estrangeiros apalavrados. Ao fim de duas semanas, o vice diz que não estava fácil o presidente sair e que sem ele teríamos de renegociar o contrato. Não aceitei. O clube era giro, porque era grande, ia à Liga dos Campeões e os jogadores tinham muita qualidade. Mas a qualidade de vida era horrível e eu ia sofrer muito. Entretanto, vou para Portugal passar o Natal e três dias depois recebo um convite para ir para a China. Davam-me o dobro do que estava no contrato que eu tinha assinado no Sudão. Falo com o vice-presidente do Al-Merreikh e pergunto-lhe como estavam as coisas. Estavam difíceis e aquilo ainda ia demorar, disse-me ele. E rasgámos o contrato amigavelmente.

MF – E vai logo para a China?

JP – Isto passou-se a seguir ao Natal e no dia 1 de janeiro tinha de ir. Fui treinar os sub-23 do Shenzhen e tinha também a coordenação dos sub-19. Foi um projeto do qual eu gostei muito e a China foi também o melhor sítio onde eu estive por muitas razões: porque estava num clube que me dava todas as condições para trabalhar e porque interessava-me muito o projeto e eu nunca tinha estado num projeto sub-23. Conseguimos colocar cinco jogadores nas seleções e nunca o meu clube tinha tido jogadores nas seleções. Conseguimos colocar jogadores a titulares na primeira equipa. Foi difícil, mas tive a sorte de trabalhar com um treinador espetacular que compreendia o meu trabalho. Apanhei o Juan López Caro, ex-Real Madrid e uma pessoa espetacular com quem fizemos um bom trabalho. Depois, apanhei o Roberto Donadoni, com uma visão diferente, mas conseguimos desenvolver o nosso trabalho. Foi um trabalho que me fez crescer muito como treinador e num país espetacular, onde conheci para aí 30 cidades e tive grandes condições de trabalho.

Na China

MF – E  teve de sair por causa da pandemia.

JP – Consegui sair três dias antes de fechar a fronteira, por volta de 25 de fevereiro de 2020. Estava em Shenzhen e ainda consegui ir para Hong Kong, de onde viajei para Portugal. A pandemia já lá estava desde o ano anterior, mas fora não havia grande informação sobre isso. Em outubro ou novembro viajávamos para os jogos e já havia muito controlo. Só que como a China tem episódios de outros vírus, é usual as pessoas usarem máscaras. Ali em meados de novembro fui a Hong Kong e passou na televisão uma notícia de um vírus em Wuhan, onde tínhamos estado pouco tempo antes. Só que essas notícias não passavam na televisão na China. E em dezembro começou a falar-se mais e em janeiro rebentou e foi o que foi. Interrompi um trabalho que me estava a fazer muito feliz e quando vim embora foi sempre com a premissa de voltar.

MF – Para terminar. O Jorge fez parte do primeiro grupo de jogadores que trabalhou com Jorge Jesus quando ele se iniciou como treinador no Amora.

JP – Fui treinado por ele quatro anos. E há uma coisa engraçada: nunca tivemos uma relação muito boa quando era treinado por ele. Não tinha proximidade nenhuma com ele! Mas foi ele que despertou em mim a vontade de ser treinador. E tive outros treinadores, como o Manuel de Oliveira, Mário Wilson, José Augusto, Vítor Manuel, António Medeiros e Fernando Cabrita na Seleção. Estamos a falar de alguns treinadores que fora top naquela geração. Depois desses treinadores todos, tive o Jorge Jesus. E quando ele começa a trabalhar connosco, penso assim: «Espera lá! Será que os outros é que estavam todos errados e ele é que está certo?» Começo a ver coisas diferentes, coisas mais à frente.

MF – Por exemplo?

JP – Há 28 anos ele já marcava à zona e ninguém marcava à zona. Toda a gente marcava homem a homem. Nós não tínhamos uma boa relação quando eu era treinado por ele, mas agora temos uma relação muito próxima. Há uns anos, durante a primeira passagem dele pelo Benfica ele ligou: «Ouve lá, tens as cassetes dos nossos jogos? Não sabes de ninguém que possa ter? É para eu mostrar a estes gajos que naquela altura não sofríamos golos de bola parada. Era para lhes mostrar o posicionamento!» Foi numa altura em o Benfica sofreu ali dois ou três golos de bola parada num curto espaço de tempo. Naquele tempo, ele também já falava de bola aberta e fechada, encurtamento de espaço, etc. Foi buscar isso ao Sacchi quando esteve em Itália e depois foi a Barcelona. A partir de uma determinada altura fazíamos muitos exercícios com bola de vertente tática. Exercícios específicos, jogos em campo mais reduzido. Partia o grupo, trabalhava sectorialmente. Coisas que não se faziam nessa altura. E preocupava-se muito com questões relacionadas com a alimentação e o descanso.

MF – E histórias caricatas desses tempos. Lembra-se de alguma em particular?

JP – [Risos] Uma vez eu tive uma rotura grande. Até andei a jogar com essa rotura, que abriu mais, claro. E na altura usavam-se umas botas de cowboy em que o salto mete um bocado para dentro. E ele um dia viu-me a chegar, já aleijado, ao Amora. Eu vinha com essas botas, ele está ali no pátio, olha para mim e diz que sabia que a rotura estava relacionada com as botas: que causavam desequilíbrio [risos]. Ele não queria era admitir que fosse por algo relacionado com o trabalho. Eu não deixei de andar com as botas, mas a partir daí assim que eu chegava tirava as botas, Deixava-as no carro e calçava uns ténis.

MF – Porque é que diz que não tinha uma boa relação com Jorge Jesus?

JP – Não tinha proximidade. Eu era um histórico do clube. Joguei lá muitos anos e fui internacional no Amora, o meu pai foi presidente do clube. Ele tirou-me de capitão de equipa e pôs outro jogador a capitão. Eu também tratava o presidente do clube por «tu», porque o conhecia, mas até estive sem falar com ele durante algum tempo por causa de um problema. Mas acho que ele via em mim uma espécie de  sombra, por esse meu estatuto no Amora. Depois, quando deixei de jogar comecei a lidar mais com ele e a ter almoços com ele que duravam horas. As minhas equipas também faziam muitos jogos contra as equipas dele e dava-me um grande gozo desafia-lo. Se calhar, eu fui um dos primeiros treinadores que tinham sido treinados por ele. E ele foi o primeiro treinador que eu tive que me fez pensar o futebol e ver o treino de maneira diferente.

MF – Vê-lo de fora para dentro, digamos assim?

JP – Sim. Até ali, eu tinha tido grandes treinadores – o Mário Wilson marcou-me muito pela liderança e pela pessoa espetacular que era – mas o Jesus fez-me perceber o jogo de maneiras diferentes. Ele falava de outras coisas e fez-me ver o jogo de uma forma mais profunda, mais científica. A questionar-me. E percebi logo ali que ele ia longe e até que eu até podia ser treinador. E foi aí que comecei a pensar nisso. Foi a primeira pessoa de quem eu bebi e foi o treinador mais marcante na minha carreira.

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