Hugo Firmino: o estrelato no «Benfica da Arménia» depois da II Liga

31 mai, 23:51
Hugo Firmino

Extremo de 33 anos fez uma carreira sólida no segundo escalão português, mas isso nunca lhe permitiu chegar à Liga. «Nunca fui uma pessoa de bajular», diz o jogador que se sagrou campeão nesta época ao serviço do Pyunik

Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do Mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências. Sugestões e/ou opiniões para djmarques@tvi.pt ou rgouveia@tvi.pt

Nasceu em Torres Vedras, mas fez-se jogador no concelho de Almada, margem sul do Tejo. Em quase 15 anos de carreira, mais de dez como profissional, Hugo Firmino sustentou-se como um dos valores seguros da II Liga, onde fez quase 200 jogos ao serviço de clubes como Oriental, União da Madeira, Gil Vicente, Estoril e Cova da Piedade.

Numas épocas atingiu registos muito interessantes para um jogador da posição dele – extremo – mas isso nunca lhe permitiu passar a ponte para a outra margem competitiva: a do principal escalão do futebol português. «Acho que não fui valorizado como devia ter sido», lamenta.

Também por isso, optou por fazer pela vida fora de Portugal. Esteve por Angola, que lhe deu desafogo financeiro, passou por Roménia e Chipre e no verão passado rumou à Arménia.

Ao serviço do Pyunik teve a melhor temporada da carreira, com 18 golos, e foi preponderante para a conquista do campeonato que escapava há sete anos ao clube mais titulado deste país.

 

Maisfutebol – Dezoito golos em 2021/22, 16 deles no campeonato. Aos 33 anos está na melhor forma de sempre?

Hugo Firmino – Foi a minha melhor época de sempre em termos de número de golos. Em número de jogos não, porque já tinha feito mais. Mas a grande realidade é que sinto-me bem em termos físicos, também porque consigo entender que com o passar da idade tenho de me preservar mais, de cuidar mais do meu corpo, que é o meu instrumento de trabalho. Se calhar não estou na minha melhor forma de sempre, mas esta foi a minha melhor época de sempre. Ter conseguido conjugar essas duas coisas – cuidar-me e estar bem fisicamente – levou-me a atingir a minha melhor época de sempre em termos de golos.

MF – Essa sua perspetiva, essa forma de estar, é recente?

HF – Eu fiz várias épocas na II Liga nas quais almejava mais. Infelizmente, isso não aconteceu e a partir de um certo momento comecei a pensar em atingir o mais rapidamente possível a estabilidade financeira. Não é que eu não a tivesse até agora, porque já tinha estado fora em Angola [n.d.r.: entre 2012 e 2015] e lá fui sempre muito bem pago, também porque foi numa altura em que o país estava a investir muito no futebol. Cheguei a ganhar muito dinheiro só em prémios de jogo. E a partir do momento em que não consigo almejar aquilo que eu esperava, depois de várias épocas em que demonstrei a minha qualidade, comecei a optar por outros caminhos. Caminhos que me dessem estabilidade financeira e reconhecimento: fora de Portugal acabamos por ser mais reconhecidos, mais valorizados. Foi esse o caminho que eu tracei e fui atrás disso.

MF – Sente que tem sido mais bem tratado fora de Portugal do que no seu país?

HF – Sinto que fui mais valorizado fora de Portugal. Acho que não fui valorizado como devia ter sido em Portugal, tendo em conta as épocas que eu fiz. Isso deixou-me aquele sabor agridoce, de não saber o que poderia ter acontecido.

MF – Isso que disse que almejava era chegar a uma I Liga portuguesa…

HF – Sim. Tive épocas na II Liga com oito/nove golos, seis/sete assistências. E hoje vejo jogadores a chegarem à I Liga com quatro golos em 30 jogos. Jogadores que podem demonstrar alguma qualidade, mas não é aquela qualidade sólida de que os clubes de I Liga precisam, porque a grande realidade é que a maior parte dos clubes de I Liga que lutam pela manutenção precisam de jogadores experientes.

MF – Entristece-o não ter tido essas oportunidades?

HF – Não posso dizer que não. Fiquei um bocado desiludido, porque achava que já poderia ter tido essa oportunidade que não aconteceu.

MF – O que acha que pode ter contribuído para nunca ter tido essa oportunidade?

HF – Se calhar, não ter do meu lado pessoas influentes. Eu não sou uma pessoa de bajular ninguém e acho que neste mundo o que mais acontece é isso. O futebol é cada vez mais um negócio em que quem tem a sua parte de ganho acaba sempre por facilitar entradas em determinados clubes. Mas eu nunca fui uma pessoa de bajular ninguém. Achei sempre que com o meu trabalho poderia lá chegar. Não consegui. Tenho perto de 200 jogos na II Liga e acho que já provei demasiadas vezes que poderia ter sido uma aposta. Não aconteceu e talvez também o facto de ter optado pela estabilidade financeira desde muito cedo permite-me ter o que muitos jogadores com cinco ou seis anos de I Liga não têm, porque não saem da sua zona de conforto e não procuram outro tipo de coisas que lhes podem dar tranquilidade no pós-futebol.

MF – Voltando ao Pyunik. Os seus golos e assistências foram determinantes para a conquista do título…

HF – Sim. Posso dizer até que no nosso jantar de final de época o meu treinador disse-me que fui eu que lhe dei o campeonato. [pausa] Ele disse-me que eu fui muito preponderante, porque na segunda metade da época fiz muitos golos decisivos. Em janeiro, quando voltámos das férias de Natal, estávamos a oito pontos do primeiro classificado.

MF – O Ararat-Armenia?

HF – O Ararat-Arménia, exatamente. Tínhamos menos oito pontos e conseguimos recuperar. E depois chegámos a estar cinco pontos à frente. Foram 13 pontos que recuperámos. E eu sei que fui preponderante no título. Salvo erro, os meus golos deram 23 pontos à equipa e fico feliz por isso, porque o clube acolheu-me bem desde o primeiro dia. E saio de consciência tranquila.

MF – Não vai continuar no Pyunik?

HF – O clube fez-me várias propostas de renovação, mas não chegaram aos valores que eu pretendia e acabei por não aceitar. Mas sinto-me contente por ter conseguido retribuir ao clube aquilo que ele me deu.

MF – Estive a ver o palmarés do Pyunik. É o clube mais titulado na Arménia, mas não era campeão há já alguns anos. Quais eram os objetivos da equipa no início da época?

HF – Quando cheguei, disseram-me que o objetivo seria andar ali na luta pelo título. O Pyunik não era campeão há sete anos e nos últimos dois não tinha estado na luta. E disseram-me que se conseguíssemos andar na luta pelo título, na reta final ia ver-se o que é que o clube era capaz de fazer. A grande realidade é que em janeiro houve algumas dispensas e algumas contratações. E o treinador sempre foi, entre aspas, o capitão do barco.

MF – Como assim?

HF – Ele sempre nos disse que seríamos campeões. Ele acreditou muito nisso e a realidade é que conseguimos ser campeões. Não é fácil dizer-se que se quer ser campeão quando se tem menos oito pontos. E ele manteve sempre esse discurso, mesmo quando as coisas não estavam a correr tão bem. Sempre achou que o Ararat-Armenia ia perder pontos e que nós íamos ser mais fortes nos confrontos diretos. E tudo o que ele disse acabou por acontecer. E eu sinto-me muito feliz por ter-lhe conseguido retribuir o que ele fez por mim, porque sempre fez tudo para que eu me sentisse bem. Sabíamos que seria difícil sermos campeões, mas ali a partir de janeiro o mote para o título foi dado.

Foto de arquivo pessoal

MF – E explique lá como é que foi parar à Arménia? Não é o primeiro português, mas também não é propriamente o destino mais óbvio, nem perto disso…

HF – Eu tinha outras possibilidades para outros países, mas financeiramente era tudo ali meio «equilibrado». E o empresário que me apresentou esta oportunidade disse-me que o Pyunik pagava prémios de jogo e também se fosse campeão. E os outros clubes não iriam lutar pelo título nos seus países e não se sabia muito bem o que poderia acontecer na época: poderiam fazer uma grande época ou lutar para não descer. E ele disse-me para não me preocupar, porque o Pyunik era o clube mais titulado da Arménia. Para ter mais ou menos uma noção, é comparável ao Benfica em termos de dimensão local. É o maior clube do país.

MF – E ficou convencido.

HF – Sim. Além dos prémios, podíamos ter a possibilidade de jogar pré-eliminatórias da Liga dos Campeões e isso traz sempre prestígio. E podemos sentir coisas que não se sente até na maior parte dos clubes da Liga portuguesa. Acho que optei bem. Fiz uma época muito bem conseguida, fomos campeões e não poderia estar mais feliz.

MF – Não sentiu necessidade de saber mais sobre o país, de fazer uma espécie de trabalho de casa? O Hugo também já tinha jogado na Roménia, em Chipre e em Angola, mas nesses casos estamos a falar de países que tradicionalmente têm um número considerável de portugueses e, no caso de Angola, uma ligação cultural forte, o que ajuda a ter mais informação.

HF – Muito sinceramente, não fiz trabalho de casa. As coisas aconteceram todas muito rapidamente, até porque a equipa já estava em estágio e o treinador gostou muito do meu perfil e queria muito que eu fosse. Naquele momento não havia muito tempo e era sim ou não. E fui. E, quando lá cheguei, acabei por pedir mais algumas coisas ao clube e eles não tiveram problemas nenhuns. Isso ajudou-me a perceber que eu era mesmo desejado. Quando as pessoas fazem tudo para ficarmos, resta-nos retribuir com o nosso trabalho.

MF – Essas propostas que disse que recebeu eram de campeonatos mais competitivos do que o arménio?

HF – Posso dizer que tinha Bulgária, Chipre e Grécia. Eram clubes do meio da tabela para baixo. Mas por mais que o campeonato fosse competitivo não ia poder almejar por títulos. E o facto de poder vir a ser campeão e de sentir um reconhecimento maior fez-me optar por isto e arriscar. Inicialmente, a adaptação não foi fácil, mas depois consegui adaptar-me e as coisas correram da melhor maneira.

MF – O que é que foi mais difícil nessa adaptação?

HF – Senti um bocado um choque de realidade. Saí de Portugal, um país que tem tudo, um país onde as pessoas são civilizadas e educadas. E de dia para dia fui percebendo que lá era um pouco diferente. Ainda assim acabei por conseguir adaptar-me com o passar do tempo.

MF – Dizem que o povo arménio não é propriamente o mais afável do Mundo e que até tem fama de ser desconfiado. Foi sentindo isso?

HF – Nas pessoas em redor do futebol, não. Mas nas outras pessoas senti alguma frieza. Talvez por serem pessoas algo habituados a climas de guerra, com lutas de fronteiras. Como é o caso da Arménia com o Azerbaijão. Não são pessoas tão amáveis e dadas, mas acabamos por nos adaptar e isso acaba por não ser relevante.

MF – O Hugo esteve na época passada no Cova da Piedade, que foi despromovido administrativamente à Liga 3. Estava nos seus planos voltar a emigrar ou essa situação precipitou a decisão que acabou por tomar?

HF – Assim que o clube desceu administrativamente, acabei por traçar alguns objetivos para mim. Se ficasse na II Liga em Portugal, estaria na minha zona de conforto. Se saísse de Portugal, sairia da minha zona de conforto e ia testar-me a mim próprio e saber do que era capaz. Juntando a isto a parte financeira, percebi que seria melhor sair de Portugal. Entretanto, um ano depois consegui um título e fala-se que até posso ser o melhor jogador do campeonato. Estou entre os três jogadores nomeados.

MF – Como é que tem visto, agora de fora, a situação que o Cova da Piedade atravessa, estando na iminência de cair para as divisões distritais?

HF – É uma situação que me deixa muito triste. O Cova da Piedade meteu o nome da cidade um pouco mais acima ao ter conseguido atingir os campeonatos profissionais…

No Cova da Piedade, equipa que representou entre 2017 e 2019 e na segunda metade da época 2020/21 (Gualter Fatia/Getty Images)

MF – Voltando novamente ao Pyunik. O que é que nos pode dizer mais sobre o clube, por exemplo, em termos de condições de trabalho?

HF – Jogamos no estádio nacional, que partilhamos com outra equipa: o Ararat-Yerevan, que ficou em terceiro lugar. No centro de estágio temos quatro relvados e dois sintéticos. Temos boas condições para fazermos o trabalho de que precisamos.

MF – Trace-nos um retrato do futebol da Arménia.

HF – Surpreendeu-me um pouco, porque é um futebol muito físico. Nem sempre bem jogado, mas muito físico e onde os árbitros também deixam jogar muito, não apitando faltas mínimas. Surpreendeu-me a intensidade. Fala-se que o VAR pode ser introduzido na próxima época.

MF – E como é que os arménios vivem o futebol?

HF – Sou da opinião de que a Arménia poderia levar mais gente ao futebol. Pelo que percebo, e segundo me contam os meus colegas, só quando há jogos da seleção nacional é que as pessoas aderem mais ao futebol. Nos nossos jogos o estádio não enche, mas pode-se dizer que fica minimamente composto. Mas a grande realidade é que as pessoas podiam aderir muito mais ao futebol. O futebol também é o desporto-rei na Arménia, mas nem assim as pessoas ligam muito.

MF – Aos 33 anos, o que é que ainda pretende alcançar na carreira?

HF – Foco-me cada vez mais em correr atrás da minha estabilidade financeira para não ter os problemas que muitos jogadores acabam por ter no pós-futebol. A continuar na Arménia, não continuarei no Pyunik, mas também existem outras opções e é uma questão de esperar pelo que o mercado vai ditar. Acredito que esta minha boa época pode abrir boas portas noutros mercados. Fiz 18 golos em 31 jogos, fui preponderante, ganhei prémios de jogador do mês e estou nomeado para melhor jogador do campeonato e isso pode levar a uma análise de outros clubes.

Foto de arquivo pessoal

 

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