João Amaral: de profissional aos 25 a estrela da Liga polaca aos 30

16 fev, 09:00
João Amaral

Jogador português é uma das principais referências do Lech Poznan, líder da Ekstraklasa, e assume que está a viver a melhor fase de uma carreira profissional que começou já tarde pela porta do V. Setúbal e que teve uma passagem relâmpago pelo Benfica. Entrevista a um «caso de estudo»

Estórias Made In é uma rubrica do Maisfutebol que aborda o percurso de jogadores e treinadores portugueses no estrangeiro. Há um português a jogar em cada canto do Mundo. Este é o espaço em que relatamos as suas vivências. Sugestões e/ou opiniões para djmarques@tvi.pt ou rgouveia@tvi.pt

O trabalho na adolescência numa fábrica de rótulos para garrafas de vinho. As férias passadas a trabalhar num bar no Porto. As memórias do caminho das pedras que João Amaral teve de percorrer até pôr as mãos no sonho de chegar ao futebol profissional já com quase 25 anos estão bem vivas e revive-as sempre que olha para o rosto da filha pequena. E mais ainda quando as coisas lhe correm bem, como é o caso.

Aos 30 anos, Amaral atravessa a melhor fase da carreira naquela que é a segunda oportunidade – «agarrei-a e continuo agarrado a ela» – que tem no Lech Poznan, que deixara há dois anos para época e meia de empréstimo ao Paços de Ferreira.

Outrora quase proscrito na equipa polaca, o jogador português – que se reinventou como número dez – é hoje uma das grandes figuras do atual líder da Ekstraklasa e nesta temporada leva já dez golos e seis assistências na prova, o melhor registo entre todos os jogadores.

Em entrevista ao Maisfutebol, João Amaral fala da ambição do Lech Poznan em voltar a ser campeão da Polónia já nesta época e dos planos que ainda tem para uma carreira que, também por ter começado fora de horas, poderá terminar mais tarde por não tanto desgaste acumulado. «Olho para jogadores com 25 ou 26 anos e não me sinto nada atrás deles fisicamente.»

Uma conversa sobre o presente, o futuro, mas também sobre o passado. Que o levou a saltar do modesto Pedras Rubras para o V. Setúbal, a aprender muito com José Couceiro e a ser jogador do Benfica durante um mês, no verão de 2018. «Sabia que seria difícil, mas como é que eu não haveria de acreditar que podia ficar no plantel quando, com 24 anos, ainda acreditava que ia ser profissional de futebol?», recorda.

O futuro? A curto-prazo ser campeão na Polónia. Depois, quem sabe dar o salto para uma das cinco principais ligas. Mais para a frente? Talvez terminar a carreira onde nasceu para o futebol profissional. «O Vitória Futebol Clube é o clube que nunca esquecerei na vida e dói-me ainda hoje vê-lo onde está. Era perfeito acabar lá e com o Vitória na I Liga.»

Maisfutebol – Melhor marcador da Liga polaca até há uns dias com dez golos e um dos melhores assistentes da prova. Estou a falar com o melhor João Amaral de sempre?

João Amaral – Neste momento estou a conseguir fazer as melhores estatísticas da minha carreira numa época. É a melhor altura da minha carreira, sem dúvida alguma.

MF – O que sente que pode ter mudado para estar a exibir-se a este nível agora?

JA – Na minha situação é difícil dizê-lo. Eu tornei-me profissional só aos 25 anos. Tenho cinco de profissional e são anos que estão muito frescos. Ainda tenho a ambição de fazer o melhor possível. Não criei uma meta, mas quero fazer o máximo possível. Vou com dez golos e seis assistências. Se conseguir fazer mais, e acredito que posso fazê-lo, também pela forma como a equipa joga, claro que seria top. Mas não noto uma diferença enorme em mim. Claro que sou mais jogador e que estou muito mais experiente por tudo o que tenho passado. Ter sido pai, viver há quase oito anos com a minha namorada, tudo isso fez-me crescer também como pessoa, o que é também muito importante, porque se tivermos estabilidade na nossa vida pessoal, a nossa vida profissional também será melhor. A grande diferença é a experiência, que me permite entender melhor as situações e ultrapassar os obstáculos com mais cabeça.

MF – Ter sido pai também o fez olhar para a carreira de um modo diferente? Essa responsabilidade de hoje já não fazer as coisas só por si?

JA – Sim, sem dúvida! Antes já tinha a questão de fazer as coisas por mim e pela minha mulher e de querer dar-nos o melhor futuro possível. Mas claro que tendo uma filha ainda mais, também por tudo o que eu passei quando era miúdo. Não quero que ela passe pelas mesmas dificuldades. Muita gente diz que a vida de jogador profissional é facílima. Não é, mesmo (!), mas claro que tem coisas boas e a parte financeira é uma delas, sobretudo fora de Portugal.

João Amaral com a mulher, Ana, e a filha, Carolina

MF – Normalmente, os jogadores atingem por volta dos 30 anos o ponto de plena maturação da carreira. Onde é que o João sente que está?

JA – Penso que ainda estou a crescer. Independentemente da idade que temos, vamos ter sempre a oportunidade de continuar a aprender e de melhorar. E o nosso Cristiano Ronaldo é o perfeito exemplo disso. É o meu ídolo, um jogador para o qual eu olho como um exemplo. Em todos os anos ele quer aprender, melhorar e mostrar que tem sempre mais para dar mesmo quando as pessoas pensam que ele já não vai dar mais. Eu não vejo desta forma, mas muitos clubes já não olham da mesma forma para os jogadores com mais de 30 anos: mesmo eu, que só sou profissional há cinco anos e por isso provavelmente não terei o meu corpo tão desgastado em comparação, por exemplo, com um jogador que já jogue a um nível competitivo muito elevado desde os 19 anos. Mas esse jogador também teve a oportunidade de ter muito mais preparação e cuidados logo desde o início, o que não aconteceu comigo.

MF – Como assim?

JA – Com 23 ou 24 anos, eu tentava ter algum cuidado, mas não tinha o acompanhamento que agora temos nos clubes. E, sinceramente, não me sinto perto do fim. Sou uma pessoa regrada: não fumo, não bebo álcool e tudo isso é importante. Se conseguir jogar até aos 34 ou 35 anos, será top. Se conseguir mais, melhor ainda. Não sei bem como será comigo, e sei que no futebol só jogadores como o Cristiano e o Ibrahimovic é que chegam perto dos 40 e toda a gente ainda os quer. Tenho noção dessa realidade, mas se eu continuar a mostrar estes números, acredito que conseguirei sempre algo para mim.

MF – Falou desse desgaste que não acumulou ao longo de uma carreira que começou tarde. Sente-se mais fresco do que muitos jogadores da sua idade?

JA – Posso dizer que aqui no Lech [Poznan] olho para jogadores com 25 ou 26 anos e eu não me vejo nada atrás deles fisicamente. Sinto-me ao nível deles. Só para se ter uma ideia, até há uma semana, quando tive de parar por causa da covid, eu era o único jogador do plantel que não tinha falhado mais do que um treino.

MF – Em toda a época?

JA – Desde o primeiro dia da pré-época. E só falhei o primeiro treino nesta pré-época que tivemos recentemente. Senti dor no gémeo e parei um dia para não correr riscos. Tirando os guarda-redes, eu era o único jogador que até aí não tinha falhado um único treino desde o início de julho até janeiro. E joguei também os jogos todos, sempre 60, 70 ou 80 minutos. Não posso dizer que esteja mal fisicamente. Graças a Deus, também nunca fui jogador de grandes lesões.

MF – Mas isso tem só a ver com a forma como se cuida fora do relvado ou pode haver também alguma propensão genética?

JA – Acredito que também tenha algo de genético. Até porque, por exemplo, eu nunca fui muito bom em alongamentos. Sou muito encurtado em questões de alongamentos e sempre fui um jogador rápido e explosivo. Agora até estou a lembrar-me de uma conversa que tive com o Gonçalo Paciência quando estávamos no Vitória de Setúbal…

MF – Conte…

JA – Ele dizia-me que eu era um caso de estudo. Como é que eu podia ser um jogador encurtado e ao mesmo tempo ser um jogador rápido e explosivo e nunca ‘rasgar’? E é verdade: até hoje nunca rasguei um músculo e nunca estive parado por causa de uma lesão muscular. As vezes em que estive parado foram por causa de lesões que não podia controlar e as duas aqui no Lech: uma vez porque rompi os ligamentos de um ombro ao cair mal e num jogo partiram-me o dedo pequeno de um pé. Claro que não estou sempre top fisicamente e há momentos em que estou mais cansado, mas nunca tive uma lesão provocada por desgaste ou cansaço.

MF – O Lech Poznan lidera a Liga polaca à 21.ª jornada. Foi um objetivo traçado logo no início da época?

JA – Sim. Desde o início que falávamos com este treinador [Maciej Skorja] que o nosso alvo seria chegar ao fim da época e sermos campeões. A última vez que o Lech foi campeão foi em 2015 e já procura isso há alguns anos. O Lech é um clube que devia andar a lutar pelo título em todos os anos e este ano o clube encontrou o treinador certo. Um treinador que até já conhecia, porque até foi ele o último treinador campeão pelo Lech. Ele conhece este campeonato melhor do que ninguém, tentou formar bem a equipa e conseguiu isso: temos uma equipa incrível em termos de opções. Por exemplo, temos quatro médios incríveis para as posições 6 e 8 e qualquer um deles pode jogar a titular.

MF – Um deles o Pedro Tiba.

JA – Exatamente! Depois, na minha posição de número dez temos o Dani Ramírez, que é também um jogador incrível. Com a nossa qualidade, temos mesmo de pensar em ser campeões. Claro que sabemos que vai ser difícil, porque o Pogon, que está a dois pontos de nós, é também uma equipa muito forte e vai fazer-nos a ‘vida negra’ até ao final da época. Daqui a duas jornadas até vamos jogar fora contra eles. Será um dos jogos cruciais para nós. O campeonato é o nosso alvo e também queremos ganhar a taça.

MF – Além do Pogon Szczecin, identifica outros potenciais adversários na luta pelo título?

JA – O Pogon é, sem dúvida alguma, o principal. É a segunda melhor equipa do campeonato, tem lá o Luís Mata, joga muito bem e vai conseguir estar na luta connosco até ao final da época. Se não acontecer, espero que seja por estarmos muitos pontos à frente deles. Depois há o Lechia Gdansk, que tem o Flávio Paixão, e o Raków, que também tem portugueses. Penso que estas são as três equipas que nos podem fazer mais frente até ao final da época, mas aqui na Polónia nunca se sabe.

MF – Pela profundidade do plantel que mencionou, por ter várias opções válidas por posição, sente que este é claramente o Lech mais forte que encontrou comparativamente com as outras épocas que passou no clube?

JA – Completamente! Não há comparação possível. Estamos a falar da água para o vinho. Não digo que os outros plantéis eram maus, mas neste momento, em questões de equilíbrio e de profundidade, este plantel é 50 vezes mais forte do que qualquer outro que apanhei no Lech. Temos jogadores incríveis, jogadores internacionais. Quando sai um e entra outro, a diferença não é grande. Há sempre uma diferença, até pelas características dos jogadores, que são sempre diferentes, mas conseguimos manter o nível quando mudamos um ou outro.

MF – Identifica muitas diferenças entre o campeonato polaco e o português?

JA – Em termos de condições de trabalho, a Polónia dá um avanço a Portugal. É financeiramente melhor, os clubes têm muito mais dinheiros e todos eles têm estádios incríveis e tudo e mais alguma coisa para os jogadores. Em Portugal vemos clubes com casas emprestadas, estádios pequenos e quase sem condições. Depois, podem estar a defrontar-se o último contra o penúltimo que há no mínimo 12 a 15 mil pessoas nas bancadas, enquanto em Portugal estão 100 pessoas.

MF – E no jogo propriamente dito?

JA – O futebol é muito mais físico na Polónia. Em Portugal é mais técnico e muito, mas muito mais tático. Apesar de com este treinador fazermos muito trabalho tático, o que não acontecia nos meus outros anos no Lech.

Em ação num jogo contra o Legia Varsóvia e a tentar escapar a um carrinho do compatriota Josué

MF – E o que é que se passa com o Legia Varsóvia, que está em zona de despromoção?

JA – É verdade. E ontem [domingo, 13] perdeu novamente: 1-0 com o Warta Poznan, que é uma equipa que subiu e que fica aqui a uma hora de nós. Não sei o que se passa em concreto, até porque eles também têm um plantel incrível, muito forte e com nomes conhecidos, alguns deles portugueses. No início da época, quando eles começaram a ter maus resultados, nós comentávamos entre nós que isso estava a acontecer porque eles estavam a lutar pela Liga Europa e até ganharam ao Leicester. Estavam dentro e lutaram pela passagem na fase de grupos até à última jornada. Penso que o foco deles estava aí, mas depois disso não sei. Talvez a motivação possa ter ido abaixo por não terem conseguido passar. Não lhes está a correr bem, mas isso é bom para nós. Não me interessa muito o que se passa no Legia. Interessa-me o que se passa aqui e manter este chip que nós temos de querer ganhar e de ficarmos de rastos quando não ganhamos, porque só assim é que podemos ser campeões.

MF – Mas olham para este caso do Legia como uma espécie de aviso? Que se uma equipa que ganha sete campeonatos em nove pode estar na zona de despromoção já na segunda metade da época, também é possível quem vai na frente ter uma quebra acentuada se houver algum descuido?

JA – Na Liga polaca, todos os jogos são difíceis e há muito esse exemplo de a qualquer momento o primeiro classificado poder perder ou empatar com os últimos. E nós fomos um exemplo disso. Na primeira volta fizemos dois jogos seguidos fora com o último e o penúltimo, e não conseguimos ganhar. Empatámos os dois e foram pontos importantes que perdemos. Os jogos aqui na Polónia são difíceis. O futebol é muito físico e as equipas correm muito. A qualidade é importante, claro, mas não importa só isso. E agora notamos que todas as equipas nos querem ganhar, porque somos os líderes da Ekstraklasa e, na minha opinião, sem dúvida a melhor equipa do campeonato.

MF – Sente que os jogos estão cada vez mais difíceis para o Lech, por essa mudança de mentalidade dos adversários?

JA – Sem qualquer dúvida! Um desses exemplos foi o jogo que fizemos em casa com o Warta Poznan ainda na primeira volta. Eles sabiam que ou defendiam muito bem ou saíam daqui com quatro ou cinco, como já aconteceu com muitas equipas, e vieram em 6x3x1. Nem passavam do meio-campo…

MF – E como terminou?

JA – Acabámos por ganhar o jogo por uma sorte que tivemos numa bola parada que nos permitiu marcar o primeiro golo. E, depois, marcámos o segundo porque eles tentaram chegar ao empate. Mas lembro-me de uma conversa que tive durante o jogo com o Mikael [Ishak], o nosso capitão: pedi-lhe ajuda, porque não sabia mesmo o que é que podia fazer para tentar mudar o que estava a acontecer. Não via espaço para mim e ele estava a sentir o mesmo. Os nossos pontos estavam caríssimos naquele jogo. Eram seis defesas e estavam encostados à área deles. É muito complicado defrontar equipas assim. Quando encontramos equipas que vêm mais naquele do ‘olho por olho’, acaba por ser melhor para nós, como aconteceu neste fim de semana com o Termalica: eles não vieram para defender e saíram daqui com 5-0. Com espaço, a nossa equipa é muito perigosa e cria muitas oportunidades para fazer golo.

MF – Como é que um jogador com as características do João ‘sobrevive’ num futebol tão físico como o polaco?

JA – Eu sei que em questões de força física raramente vou conseguir levar a melhor. Ganho algumas vezes e perco muitas vezes: será sempre assim. Tenho de tentar pensar mais rápido, tentar saber o que vou fazer com a bola antes de a receber para que o meu drible ou o meu passe saia antes de eles chegarem. Porque se eles encostarem ao meu corpo vai ser sempre mais difícil. Se eu for ágil e pensar mais rápido, vou fazer a diferença. No meu último jogo, quando fiz dois golos e uma assistência [n.d.r.: empate a três com o Cracovia Krakow], o meu primeiro golo é um momento de inspiração em que na receção tirei logo dois jogadores da frente e isolei-me. Penso que é por aí: se eu receber e deixar que os adversários se encostem a mim, é muito difícil porque eles são muito fortes e lutadores. E dou muito mérito a isso, porque eles trabalham muito. Fisicamente, como costumamos dizer no bom sentido em Portugal, são uns cavalos [riso]. Eu sou pequenino, magrinho e tenho de tentar fazer a diferença na qualidade, no fazer diferente e no ser mais rápido a pensar. E, como número dez, também estou constantemente a tentar receber a bola no espaço entrelinhas.

Veja o primeiro golo de João Amaral diante do Cracovia Krakow a partir dos 1m33s:

MF – Sente que consegue ser um jogador melhor e mais crucial para a equipa a jogar como número dez do que na ala, onde, por exemplo, o víamos a jogar muitas vezes no Vitória de Setúbal?

JA – Sim. E debato isso até com a minha família e com o meu cunhado, com quem falo constantemente de futebol. Ele diz-me que a dez não tenho tanta bola. É verdade que não recebo tantas bolas, porque temos menos espaço, mas ali é onde eu faço mais a diferença. É onde consigo fazer o último passe, onde estou mais perto do golo, da finalização. E consigo também fazer os movimentos para a linha. Se me derem a liberdade que este treinador me dá – de andar para a esquerda e para a direita, para entrar nas costas e vir buscar mais atrás – haverá momentos em que eu vou estar sozinho e em que é possível aproveitar. Sem dúvida que sou um jogador completamente diferente a jogar a dez do que a extremo.

MF – (…)

JA – Mesmo no Vitória de Setúbal, onde eu jogava quase sempre a extremo, os meus movimentos eram quase sempre interiores. Nunca eram abertos na linha. O mister José Couceiro fez um trabalho incrível comigo e aproveito até para falar um bocadinho dele.

MF – Força.

JA – Foi um treinador que me ensinou muito. Esses movimentos interiores, por exemplo, foram-me ensinados por ele e também foi com ele que comecei a jogar a dez. Ele próprio uma vez veio falar comigo para me dizer que eu não era um extremo e que a minha posição era atrás do avançado. E foi assim que eu joguei com o Gonçalo Paciência. E eu também tinha a noção de que tinha de aprender algo mais, porque com o passar dos anos sabia que ia perder velocidade e que ia deixar de ser aquele extremo rápido.

MF – Falou há pouco da liberdade que diz que o treinador do Lech lhe dá. Este foi, até agora, um dos treinadores que melhor o compreenderam enquanto jogador?

JA – O treinador que melhor me entendeu foi o mister José Couceiro. Foi quem viu coisas em mim que ninguém tinha visto antes. Foi quem apostou em mim na I Liga. Quando eu fui para o Vitória de Setúbal não tinha a certeza se ficaria no plantel. Mas ele viu coisas em mim e nunca mais me vou esquecer de uma conversa privada que tive com ele.

MF – (…)

JA – Perguntou-me como é que eu tinha andado tanto tempo nas divisões amadoras. Essas palavras bonitas nunca mais vão sair da minha cabeça. Foi um elogio incrível da parte de um treinador que todos conhecemos em Portugal: alguém muito conhecido, conceituado e que não é por acaso que está a trabalhar para a Federação. Mas o meu atual treinador voltou a dar-me confiança e fez-me recuperar o prazer no futebol, porque tive dois anos não tão bons. Mesmo o ano e meio no Paços de Ferreira por empréstimo não foi top em questões de estatísticas: fiz dois golos e sete ou oito assistências. E este treinador deu-me a oportunidade de jogar a dez e disse sempre que eu seria sempre muito melhor dez do que extremo. Compreende-me de uma maneira diferente e sabe lidar com os jogadores.

MF – Como assim?

JA – Por exemplo, há treinos que não nos saem bem. E com outro treinador menos experiente, se calhar corremos o risco de ficar de fora no sábado ou no domingo. Há treinos em que sentimos que nem sequer lá estamos: ou porque estamos mais cansados, porque dormimos mal e não estamos tão bem-dispostos. E ele não é daqueles treinadores quem vem logo para cima. No meu último treino, na quarta-feira passada, eu não me estava a sentir bem. Estive lá mas não estive, no fundo. Não corria, não me fazia às bolas. Se fosse outro treinador, vinha logo perguntar-me o que é que eu andava a fazer. Entretanto, fiz o teste à covid, testei positivo e depois falei com ele. Ele disse-me que tinha reparado que eu não estava bem, mas não me disse nada porque compreende que há dias assim. Também porque sabe que eu dou tudo nos outros treinos e nos jogos. É importante um treinador conhecer os jogadores. E ele é assim com todos os jogadores. Compreensivo. Claro que, no futebol, é impossível ser-se justo para com todos os jogadores e que há sempre jogadores mais descontentes do que outros. Eu próprio já estive nessa situação no Lech, quando quis sair.

Quando assinou pelo Lech Poznan, em 2018

MF – O que é que contribuiu para essa vontade de sair do Lech Poznan pouco antes do início da pandemia? Sentia que o treinador da altura não o compreendia? Que não conseguia potenciá-lo como jogador?

JA – Eu cheguei a falar sobre essa questão quando dei uma entrevista em Portugal. Isso chegou à Polónia e começaram a dizer que eu tinha falado mal do treinador [Dariusz Zuraw], mas eu nunca falei mal dele. Simplesmente disse que o treinador gostava mais das características de outros jogadores do que das minhas e eu entendo isso perfeitamente. Claro que era algo que não me deixava contente, porque eu queria continuar no Lech e estava bem no Lech. Mas queria jogar mais e, por isso, pedi para sair.

MF – Mas nunca deixou de jogar.

JA – Nunca deixei de jogar, mas não tinham os mesmos números de antes e não era titular. Senti que não tinha aquela confiança da parte do treinador. Mas é um assunto que faz parte do passado. Até já me encontrei com o mister, cumprimentei-o antes de um jogo e desejei-lhe tudo de bom, como desejei quando saí do Lech para o Paços.

MF – Pedro Tiba, Joel Pereira e Pedro Rebocho. Ter esta base de compatriotas também ajuda a ter esse conforto que depois pode refletir-se no desempenho no campo?

JA – Claro que sim. A diferença é enorme. Eu dou-me bem com toda a gente, mas claro que é importante, até para as nossas mulheres. Dos três portugueses, o Joel é aquele com que estou mais vezes, o Rebocho, com que já tinha jogado no Paços, é também um amigo e o Tiba também. Conheci-o cá e joguei um ano e meio com ele antes de sair. Claro que é sempre importante termos alguém do nosso país que entenda as nossas questões. E, como é óbvio, também nos ajudamos muito em campo. É outro conforto.

MF – E como é que os adeptos do Lech Poznan olham para os portugueses da equipa?

JA – [Pensativo] O que é que eles podem dizer? As coisas estão a correr-nos bem. O Joel tem duas ou três assistências e o Rebocho três ou quatro e até um golo. Por acaso tem de me agradecer, porque fui eu que lho dei [gargalhada].

MF – E ele já lhe deu algum?

JA – Por acaso está a falhar [riso]. Mas estamos bem, estamos em primeiro, o Joel está a fazer uma época muito boa, o Rebocho igual e eu estou a fazer a minha melhor época. Quando assim é, olham para nós como pessoas deles, como família. E é dessa forma que nós olhamos também uns para os outros ali dentro: estamos todos a remar para o mesmo lado e também é por isso que estamos em primeiro.

MF – E o João, como uma das principal figuras da equipa que é, já tem algum cântico personalizado?

JA – Por acaso, que eu tenha ouvido, não [riso]. Mas sinto-me muito acarinhado pelos fãs no Lech, agora ainda mais porque as coisas estão a correr bem. Mesmo quando saí, recebi muitas mensagens de pessoas a pedirem-me para voltar e antes desta época começaram a mandar-me mensagens a pedirem-me que voltasse.

MF – Abordam-no muito na rua?

JA – Sim. Jovens e até mesmo pessoas mais velhas passam por nós, pedem-nos para tirar fotografias ou para dar um autógrafo. O Lech é um clube muito grande aqui na Polónia e temos adeptos em todo o lado, até à porta dos hotéis quando vamos jogar fora. É como se fosse um FC Porto.

MF – E que clubes são o Benfica e o Sporting na Polónia?

JA – O Benfica poderia ser o Legia Varsóvia. Mas também podia dizer ao contrário, que o Lech era o Benfica e o Legia era o FC Porto. Mas digo assim porque o Lech é azul e o Legia já usa equipamentos brancos e algum vermelho também. O Sporting voltou a estar agora a um nível top e isso é muito bom para o nosso campeonato. Por isso o Sporting pode ser o Pogon, uma equipa que joga muito bem e que vai lutar connosco até ao fim. Depois, podemos comparar o Raków ao Leicester de há alguns anos: uma equipa que subiu há dois ou três anos e que neste momento é uma das melhores da Polónia.

MF – Essa, além do que já mencionou acima, é uma das principais diferenças que encontra entre um campeonato polaco e um português? A maior frequência com que surgem novas equipas que se vão intrometendo nos lugares cimeiros?

JA – É verdade. Lá está, porque eles aqui têm outro estofo, mais dinheiro e sustentabilidade do que os clubes em Portugal. Eu não vejo uma equipa como o Belenenses a ficar em quinto ou em quarto. E há outra coisa que temos observado: as equipas, fora daquele grupo habitual, que conseguem qualificar-se para as competições europeias, no ano a seguir lutam para não descer, porque não conseguem conciliar as duas coisas. Tivemos isso com o Arouca há uns anos e com o Rio Ave, que no ano passado quase eliminou o Milan e acabou por descer. E este ano passou-se isso com o Santa Clara, que não começou bem a época, e com o Paços, que não está no melhor momento, mas está a melhorar. Na Polónia, as equipas já não sentem tanto essa situação, apesar do exemplo do Legia. Têm outra sustentabilidade: os clubes têm muito mais dinheiro porque também têm mais massa adepta e em Portugal isso não existe.

MF – Voltemos ao Lech. Renovou contrato no final do ano passado até 2024, mas meses antes não havia totais certezas de que ficasse no plantel.

JA – Quando comecei a pré-época ainda havia alguma incerteza. O treinador falou comigo na altura, porque queria saber qual era o meu sentimento em voltar. Disse-me que já tinha visto jogos meus no meu primeiro ano aqui no Lech e também em Portugal e que achava que eu era muito bom jogador, mas que queria saber o que é que eu sentia, porque na altura em que fui para o Paços a ideia que se passou foi a de que eu tinha criado problemas, que tinha sido rude e que tinha feito tudo para sair. O mister disse-me que não queria saber do que tinha ouvido sobre mim, que queria conhecer-me e saber coisas sobre mim. E eu disse que queria que a minha história no Lech terminasse de outra forma e que tinha todo o gosto em voltar se o mister decidisse confiar em mim.

MF – Essa conversa foi importante?

JA – Completamente importante! E não foi só essa conversa. Antes da pré-época, o treinador-adjunto – o braço-direito do mister – foi a Portugal falar comigo. E depois, quando voltei para cá, na pré-época ele quis falar comigo, conhecer-me e saber da minha boca o que se tinha passado, como disse. Eu expliquei-lhe tudo e foi aí que ele me disse que muita gente tinha falado coisas más sobre mim, mas que não queria saber disso para nada e que eu tinha uma oportunidade. Eu disse-lhe que não era essa pessoa que lhe tinham dito e que ia dar tudo para agarrar essa oportunidade. Agarrei-a e continuo agarrado a ela. Não dou nada como certo e por isso continuo a dar tudo por mim, pela minha família e pela minha equipa.

MF – Já falámos sobre a sua história muito particular no futebol e sobre o facto de aos 30 anos ter apenas cinco como profissional. Em tempos, quando ainda estava nos campeonatos amadores, chegou inclusive a pensar em começar a conciliar o futebol com outra atividade para ter a independência financeira que lhe faltava nessa altura. Pensa nesses tempos nesta fase em que as coisas lhe estão a correr bem?

JA – Isso nunca me vai sair da cabeça. Como disse, eu passei por dificuldades. Quando jogava no Campeonato de Portugal, no Pedras Rubras, trabalhava num bar no Porto onde o meu irmão era gerente. Trabalhei lá cinco anos e nesses cinco anos nunca tive férias, porque tinha de trabalhar no verão. Isso está sempre presente, porque agora essas imagens estão na cara da minha filha. Porque não quero que ela passe pelas mesmas dificuldades pelas quais eu passei. Claro que ela vai saber que as coisas não são fáceis, porque eu também pretendo que ela entenda que a vida não é assim tão fácil e que não desista à primeira contrariedade, porque vão surgir obstáculos. Como disse: nunca me vou esquecer dessas imagens. A saída do Pedras Rubras para o Vitória de Setúbal foi o momento em que o sonho se concretizou. O Vitória Futebol Clube é o clube que nunca esquecerei na vida e dói-me ainda hoje vê-lo onde está. Nem consigo imaginar como é que há quatro ou cinco anos estávamos a ver aquele estádio cheio na Liga, com adeptos incríveis, e a irmos à final da Taça da Liga, e hoje vemos o Vitória onde está. É uma dor muito grande e é difícil falar sobre o Vitória, que é um clube que vou amar para o resto da minha vida.

MF – Nota-se que fala do Vitória como se fosse a sua casa…

JA – Não é como se fosse! É a minha casa também. Sempre que lá fui, fui muito bem recebido. E sempre que eu puder, irei passar lá, porque é a minha casa. Eu sou do Vitória Futebol Clube e acredito que, devagarinho, o clube voltará a estar onde merece estar.

MF – Foram dois anos no Vitória e em 2018 muda-se para o Benfica, mas não fez mais do que alguns treinos. É uma mágoa que fica não ter tido sequer a oportunidade de representar o clube em jogos oficiais?

JA – Não vou ser hipócrita ao ponto de dizer que não. Claro que gostava de ter tido a minha oportunidade. Isso não aconteceu, mas eu na altura era extremo e sabia dos extremos de qualidade que o Benfica tinha. Ainda estavam lá o Cervi, o Salvio e muitos outros jogadores de qualidade. Eu sabia que ia ser difícil. Mas não queria falar em mágoa, porque, apesar de tudo, foi uma experiência incrível ter feito aquele mês de pré-época com a equipa e ter conseguido aprender tanto com jogadores com tanta qualidade e ver tudo o que o Benfica é: um clube com condições e uma organização incríveis. Apesar de tudo, aprendi muita coisa e foi uma oportunidade incrível. Mas claro que gostava de ter tido a oportunidade de me mostrar. Mas não sucedeu e é a vida, é o futebol. Não deixei de ser contratado pelo Benfica, que é um clube incrível em Portugal e foi bom pela experiência. Levo comigo a parte positiva.

Quando assinou pelo Benfica, ainda antes do verão de 2018

MF – Esse mês deu para que se sentisse jogador do Benfica?

JA – Sim, claramente! Eu tive o meu espaço no balneário, tinha as minhas roupas. Tinha tudo! Não foi chegar lá e ir embora. Foi um mês em que estive com eles, em que fui de estágio para Troia e em que senti o calor dos adeptos. Fomos a um torneio e aí confesso que ficou mágoa, porque podia ter jogado.

MF – Um torneio em Setúbal…

JA – Essa é a maior mágoa. De não ter tido pelo menos uns minutos no jogo contra o Vitória, o clube de onde eu tinha vindo. Mas já passou e aconteceu o que tinha de acontecer.

MF – Mas quando chega ao Benfica acredita genuinamente que vai ter a possibilidade de ficar no plantel ou no seu íntimo já esperava não ficar na equipa?

JA – Acreditar, acredito sempre! Bem… como é que eu não haveria de acreditar quando, com 24 anos, ainda acreditava que ia ser profissional de futebol? Como é que não ia acreditar que ia ter uma chance no Benfica naquele ano em que fui contratado depois de duas épocas muito boas no Vitória? Se eu antes já tinha acreditado em coisas mais impossíveis, que concretizei, como é que não ia acreditar? E dei tudo nos treinos a acreditar que ainda teria a minha oportunidade. Até chegou a sair uma notícia nos jornais que dizia qualquer coisa do género: ‘João Amaral e Chiquinho mostram trabalho a Rui Vitória’. Se isso saiu nos jornais, era sinal de que eu estava a fazer um bom trabalho. Estou de consciência tranquila porque dei tudo para ter essa oportunidade. Não sucedeu e hoje estou também num clube grande.

MF – Mas como é que se sente no momento em que lhe dizem que não há espaço para si no plantel?

JA – Triste, claro, porque acreditava que ainda poderia ter algum tipo de oportunidade, mas não sucedeu. Lembro-me perfeitamente desse momento e da minha resposta numa conversa com o mister Rui Vitória e o Tiago Pinto, que está agora na Roma. Disse-lhes que só tinha de agradecer a oportunidade que me tinham dado, que aprendi muito e que só o facto de ter estado a treinar com jogadores com tanta qualidade que só via pela televisão e contra os quais só jogava já tinha sido uma experiência incrível que só me tinha crescer como jogador e pessoa. E foi um motivo de orgulho.

MF – Quem é que mais o surpreendeu dos jogadores do Benfica com os quais trabalhou?

JA – Pizzi. É um jogador com uma qualidade incrível. Na minha opinião, houve poucos jogadores no Benfica com a qualidade dele. Mas havia muitos jogadores com muita qualidade na altura. O Jonas, o Luisão, que ainda jogava e era um capitão incrível, e o André Almeida também tinha muita qualidade. Mas quem é que não tem qualidade no plantel de um Benfica, de um Sporting ou de um FC Porto? Mas o que mais me surpreendeu foi o Pizzi. Eu sabia que ele era muito bom, mas ao treinar todos os dias com ele ainda vi mais coisas. E o Jonas nem se fala: é uma coisa à parte.

MF – Voltando ao presente. Trinta anos e a viver a melhor fase da carreira. Até onde é que ainda quer chegar?

JA – E estou num clube grande e quero ser campeão, que é uma coisa que nunca fui na vida. Também nunca ganhei uma taça: fui à final da Taça da Liga quando estava no Vitória e perdemos em penáltis contra o Sporting. Queria pelo menos ser campeão. Podia também dizer dar o salto?! Não deixo de ter esse sonho, mas já estou num clube muito grande.

MF – Pensa por exemplo num campeonato alemão, que fica aí ao lado e que tem historicamente uma relação de proximidade com o polaco?

JA – Porque não? O meu sonho sempre foi jogar numa das cinco melhores ligas europeias, a começar pela Liga inglesa, mas não é fácil. E depois é o que eu já disse: eu tenho 30 anos e há muitos clubes que, por mais que faça bons números, já não querem alguém com a minha idade. ‘Se tem 30 anos, já está a acabar para o futebol.’ Infelizmente é assim que se pensa, embora esteja mais do que visto que há muitos jogadores incríveis com mais idade. Mas e claro que era um sonho que tinha.

MF – Que tinha?

JA – Que tinha e que terei até deixar de jogar.

MF – E pensa em voltar a Portugal?

JA – Não me passa pela cabeça pelo menos nos próximos dois a três anos. Penso, mas para acabar. Adoraria acabar no V. Setúbal na I Liga.

MF – Era simbólico terminar onde começou enquanto profissional…

JA – Não era simbólico. Era perfeito. Mas era perfeito se fosse na I Liga. Não é que eu não quisesse ir para o Vitória no final da minha carreira para tentar ajudar. Aliás, isso é algo que até tenho em mente. Mas a parte perfeita era acabar na I Liga, porque era sinal de que o Vitória estava na I Liga. Era a cereja no topo do bolo.

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