Stress: quando é motivo de preocupação. Os sinais, as consequências e o impacto na saúde mental

6 fev 2022, 22:00
Stress

Andar stressado pode ter impacto a nível físico e mental. Estar atento aos sinais, como os batimentos cardíacos ou ter vontade de chorar, podem ser sinais de alarme. Especialistas explicam como lidar com este problema que a OMS diz ser a epidemia do Século XXI

Frio, uma doença infeciosa, uma emoção, um choque cirúrgico, condições de vida muito ativa e trepidante. Todos estes estímulos podem, segundo os especialistas, desencadear stress –um conjunto das perturbações orgânicas e psíquicas.  Na prática, trata-se da resposta natural que o organismo dá perante potenciais ameaças, sejam elas reais ou imaginárias - o típico sofrer por antecipação.

O stress é uma resposta fisiológica com papel importante para colocar o organismo num estado de preparação para um desafio físico e cognitivo. O stress tem por base a ativação de mecanismos de luta ou fuga”, explica a à CNN Portugal o médico endocrinologista João Sérgio Neves.

Embora não seja uma doença, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já classificou o stress como a epidemia do século XXI pelo impacto que tem no dia-a-dia das pessoas e, sobretudo, na saúde. 

Qual o papel do stress no organismo?

Antes de mais, nem tudo no stress é mau. O stress é aliado do nosso estado de alerta, dos níveis de energia e da concentração. Em situações de ameaça, é o que nos faz reagir, ativando hormonas no organismo que levam ao aumento do batimento cardíaco, à aceleração da respiração e à contração dos músculos, fatores que servem quase como escudo-protetor.

Quando existe uma situação de stress, dependendo da pessoa e do contexto, pois pode ser um stress físico ou emocional, vamos ter sempre a ativação do sistema nervoso autónomo, que vai levar a um aumento dos níveis de adrenalina e noradrenalina”, responsáveis pelo aumento dos batimentos cardíacos, por exemplo, diz João Sérgio Neves.

Em simultâneo, continua o médico, “há a ativação do eixo HPA [eixo endócrino] com a libertação da hormona ACTH”, que é uma hormona adrenocorticotrófica, que estimula a glândula adrenal a libertar cortisol - a chamada 'hormona do stress'. E é aqui que entra o tão falado cortisol, que “é uma hormona que facilita a resposta ao stress, permite que haja uma maior disponibilidade de glicose e vai até aumentar a nossa atenção”.

Para a psicóloga Catarina Graça, o “stress mais pontual é positivo”: “Muitas vezes pode estar associado à saudável pressão que nos faz estar prontos a enfrentar desafios e superar as dificuldades. E se o conseguirmos fazer, isso traz segurança e aumento de autoestima”. 

Quais os sinais de alerta?

Além do aumento dos batimentos cardíacos já mencionado, de acordo com a psicóloga, “taquicardia, aumento do cortisol e tensão arterial alta” são também sinais de que o stress está a dominar. Mas há mais, diz a especialista: “dores de cabeça, falta de concentração, dores musculares e nas costas, falta de apetite e falta de energia e dificuldade em dormir”.

Quando é que o stress deve ser um motivo de preocupação?

Apesar de ser uma resposta orgânica positiva, o stress pode ter um impacto prejudicial na saúde e bem-estar. Isto quando assume um carácter crónico, ou seja, quando a pessoa vive já refém deste estado, como acontece facilmente em empregos com grande pressão. “Quando estamos expostos a estímulos e agentes stressores mais prolongados pode haver um desgaste, o cortisol vai intoxicar o organismo físico e psicológico e isso vai impactar na nossa vida”, alerta a psicóloga Catarina Graça.

Para a especialista, o stress é um motivo de preocupação quando a pessoa já não se sente bem consigo mesma e aponta alguns cenários: “Quando há vontade de chorar facilmente, quando a pessoa perde interesse pelas coisas que lhe davam prazer ou sente infelicidade, quando há falta de concentração, falta de conexão com os propósitos de vida”, enumera.

Segundo a psicóloga, há outros sinais a ter em conta: “Sentir que não se tem capacidade física e mental, ou que não tem espaço psicológico para conversar e socializar”, é também um alerta ao qual as pessoas devem estar atentas.

Quais as consequências a longo prazo?

Em casos já crónicos de stress “vai haver um aumento da pressão arterial e isso pode levar ao aparecimento de hipertensão”, alerta o médico, que continua: “O cortisol leva a resistência à insulina e aumenta o risco de diabetes, promove o aumento de apetite e maior retenção de gordura na região abdominal, que pode desencadear outras doenças”.

O impacto pode não ser apenas físico. “Pode haver até consequências cognitivas, menor capacidade de memorização e redução da performance cognitiva”.

No caso do stress associado à atividade laboral, por exemplo, o burnout acaba por ser a consequência mais direta, estando classificado como “um sentimento de exaustão, cinismo ou sentimentos negativistas ligados ao trabalho e eficácia profissional reduzida”, segundo a OMS.

Qual o impacto na saúde mental?

Se não for controlado com a ajuda de um profissional, pode levar a “consequências adversas para a saúde mental, como ansiedade, depressão e burnout”, explica o médico endocrinologista. Pessimismo e sensação de infelicidade são também consequências do stress.

Sobre este ponto, a psicóloga Catarina Graça destaca estados de “irritabilidade e alterações de humor” como consequências diretas na saúde mental do stress prolongado. A especialista considera ainda que é um sinal de alerta quando “a pessoa não consegue encontrar prazer e piada no que fazia antes, quando tem dificuldade em relaxar”, sendo este, por si só, um fator stressante, qual círculo vicioso. “Não saber relaxar é um elemento stressor, ficamos mal acompanhados por nós próprios”, esclarece.

Perante um stress já crónico, quando a pessoa não consegue desligar, pode ainda dar-se o “sentimento de solidão”, pois “há reações ao stress que são muito nossas, a pessoa sente-se incompreendida, o que pode levar a um isolamento social até”.

Quem é mais vulnerável?

A psicóloga Catarina Graça diz que, em clínica, associa-se a vulnerabilidade ao stress à incapacidade de dizer não, sobretudo no que diz respeito ao stress causado pelo trabalho, que acaba por ser um dos agentes mais impactantes. “Em contexto clínico, as pessoas que não são tao assertivas, que não conseguem dizer o não no momento certo” são mais propensas ao stress a longo prazo, tal como as pessoas mais inseguras podem, também, ser mais "propensas a elementos stressores”.

Como gerir o stress no dia-a-dia?

“Uma das principais estratégias é identificar a causa, qual a fonte do stress, se é o trabalho, a família, questões sociais, etc.”, diz a psicóloga. “Depois é tentar perceber se tem ferramentas suficientes para mobilizar uma mudança” e caso não tenha, então o melhor é começar por procurar adquirir essas ferramentas junto de profissionais, por exemplo, fazendo psicoterapia.

Mas mudar o estilo de vida, eliminando potenciais gatilhos de stress, fazer exercício físico e ter uma boa higiene de sono são igualmente boas apostas. A dieta, diz o médico João Sérgio Neves, é uma aliada, sobretudo “se for mais variada, mais rica em fruta e legumes, sem excesso calórico e alimentos processados”. 

Embora defenda que cada caso é um caso e que em estados crónicos de stress apenas uma avaliação médica pode encaminhar para o melhor tratamento, o especialista considera que “as técnicas de meditação e as várias atividades que englobam modelação da respiração” podem “ajudar a reduzir os níveis de stress”.

 

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