Estudo descobre ligação entre medicamentos para tratar asma e alergias e o declínio cerebral

CNN , Sandee LaMotte
11 set, 16:00
Asma

Tomar glucocorticoides orais ou inalados - um tipo de esteroide utilizado para conter a inflamação na asma e outras doenças autoimunes - pode estar ligado a mudanças prejudiciais na massa branca do cérebro, descobriu um novo estudo.

"Este estudo demonstra que tanto os glucocorticoides sistémicos como os inalados estão associados a uma redução aparentemente generalizada da integridade da massa branca", escreveu a autora do estudo Merel van der Meulen, estudante de pós-doutoramento no Centro Médico Universitário de Leiden, nos Países Baixos, num estudo publicado na revista BMJ Open.

A massa branca é o tecido que forma ligações entre as células cerebrais e o resto do sistema nervoso. Ter menos matéria branca pode retardar a capacidade do cérebro de processar informação, prestar atenção e recordar. Níveis mais baixos de massa branca também estão ligados a questões psiquiátricas como depressão, ansiedade e irritabilidade.

"Este novo estudo é particularmente interessante para mostrar até que ponto a massa branca, que é necessária para que os neurónios se liguem entre si, seja afetada pela utilização da medicação", disse Thomas Ritz, professor de psicologia na Southern Methodist University, que investigou o impacto de esteroides em pessoas com asma. Ele não esteve envolvido no estudo.

No entanto, "não há razão para alarme", disse a neuroimunologista Dr. Avindra Nath, diretora clínica do Instituto Nacional de Doenças Neurológicas e AVC, que também não esteve envolvido no estudo. Os médicos sabem há muito que, se derem esteroides aos pacientes, "o cérebro encolhe, mas, quando lhes tiram os esteroides, regenera", afirmou Nath.

Devido à plasticidade cerebral – a capacidade do cérebro de reorganizar a sua estrutura, funções ou ligações – estes podem ser efeitos temporários", disse. "Não têm necessariamente de ser permanentes. A massa branca consegue reparar-se sozinha".

Uso generalizado

Os glucocorticoides são dos medicamentos anti-inflamatórios mais frequentemente prescritos devido ao seu uso generalizado para várias condições, dizem os especialistas.

Além da asma, tanto os glucocorticoides orais como os inalados podem ser usados para tratar alergias, doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), doença de Crohn e outros tipos de doenças inflamatórias intestinais, eczema e outras condições da pele, lúpus, tendinite, esclerose múltipla, osteoartrite e artrite reumatoide.

No entanto, os inaladores com glucocorticoides não devem ser confundidos com inaladores de alívio rápido usados para impedir um ataque de asma. Os inaladores de alívio rápido contêm medicamentos não esteroides que relaxam os músculos dos pulmões, tais como albuterol, levalbuterol e pirbuterol, que conseguem abrir as vias respiratórias em minutos. Os corticosteroides inalados não funcionam em situações de emergência – são receitados para controlo a longo prazo de condições inflamatórias.

Pesquisas anteriores ligaram a utilização a longo prazo de glucocorticoides orais a anomalias estruturais do cérebro e encolhimento de certas áreas do cérebro, bem como problemas de saúde mental, tais como ansiedade, depressão, confusão e desorientação. Estudos também mostraram que as pessoas que sofreram de asma têm taxas mais elevadas de deficiência cognitiva e de problemas de memória, num período mais tardio na sua vida, do que as pessoas sem a doença.

Mas muitas pesquisas anteriores têm sido pequenas em escala e, por vezes, inconclusivas, dizem os especialistas.

O novo estudo utilizou dados do UK BioBank, um grande centro de investigação biomédica que acompanhou 500.000 residentes no Reino Unido, entre 2006 e 2010. A partir dessa base de dados, os investigadores conseguiram encontrar 222 utilizadores de glucocorticoides orais e 557 utilizadores de glucocorticoides inalados que não tinham um diagnóstico prévio de qualquer distúrbio neurológico, hormonal ou mental.

Essas pessoas foram submetidas a testes cognitivos e de saúde mental e fizeram uma ressonância magnética do cérebro. Os investigadores retiraram esses dados e compararam as ressonâncias magnéticas e as descobertas cognitivas a mais de 24.000 pessoas na base de dados que não usavam esteroides.

"Tanto quanto sabemos, este é o maior estudo até à data que avalia a associação entre o uso de glucocorticoides e a estrutura cerebral, e o primeiro a investigar estas associações em utilizadores de glucocorticoides inalados", escreveram os autores do estudo.

Os inaladores tiveram o menor impacto

O estudo encontrou a maior quantidade de danos na massa branca em pessoas que usam esteroides orais regularmente durante longos períodos de tempo. A velocidade de processamento mental dos utilizadores de esteroides orais crónicos era menor, no teste, do que a dos não utilizadores. Os utilizadores de esteroides orais também tinham mais apatia, depressão, fadiga e inquietação do que os não utilizadores de esteroides.

O menor impacto na massa branca ocorreu em pessoas que usam esteroides inalados, segundo o estudo.

Isso encaixa-se com o que os médicos observam na prática clínica, disse o pneumologista Dr. Raj Dasgupta, professor assistente de medicina clínica na Keck School of Medicine da University of Southern California. Ele não esteve envolvido no estudo.

"Não vemos efeitos colaterais com tanta frequência com os glucocorticoides inalados", disse. "E, claro, o pilar da terapia para alergias e asma vai estar sempre a evitar os elementos desencadeadores e fazer modificações de estilo de vida."

Pneumologistas e reumatologistas são cautelosos quanto a prescrever a menor dose de esteroides possível para controlar os sintomas, disse Dasgupta, devido ao grande número de efeitos colaterais provocados pelo uso de esteroides que também pode afetar a saúde, incluindo a saúde cerebral.

"Como clínico, no momento em que começa a medicar-se um paciente com este tipo de medicamentos, pensamos imediatamente: 'Como posso retirar a medicação a essa pessoa em segurança e em tempo oportuno?' Os esteroides podem provocar aumento de peso e o aumento de peso será sempre um risco para o desenvolvimento de diabetes e pressão arterial alta ", disse Dasgupta.

"Quando se dá esteroides a pessoas com diabetes, o açúcar no sangue pode subir", acrescentou. "Quando se toma esteroides com frequência, pode-se ter insónias e problemas para dormir, e quando se toma esteroides a longo prazo, desenvolve-se um risco elevado de infeções porque são um imunossupressor."

Mais pesquisa necessária

O novo estudo tem limitações. Para começar, não foi capaz de determinar a dose de esteroides ou monitorizar o cumprimento, disse Ritz.

"Sabemos que apenas cerca de 50% dos pacientes com asma tomam a sua medicação como prescrito, e o potencial excesso de informação sobre a ingestão também é um problema", disse Ritz. "Deve tomar os seus corticosteroides inalados, que reduzem a inflamação localmente, o mais regularmente possível, embora com a dose mais baixa possível que lhe permite controlar a asma.

"Este estudo dá-nos outra razão para manter as doses baixas", acrescentou.

Outra limitação foi o facto de não ser possível diferenciar as pessoas que tomam comprimidos de esteroides e as que usam infusões, de acordo com os autores do estudo.

"O estudo confirma principalmente o que sabemos há muito tempo na gestão da asma: tome o menor número possível de corticosteroides sistémicos (orais), desde que não seja um paciente com asma severa. Mantenha-se nos esteroides inalados e discuta com o seu médico os planos para abandonar os regimes de medicação durante os bons momentos", disse Ritz.

"É um estudo muito bem feito", disse Nath. "Mas os resultados exigem que seja feito outro estudo para ver quanto tempo estes efeitos duram e como podem ser invertidos."

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