Reuniões e mais reuniões para tentar acalmar o momento. Se isso não acontecer, há quem preveja o desenrolar do conflito
Em novembro de 2021 imagens de satélite mostravam um forte contingente russo junto à fronteira ucraniana. Três meses depois, a tensão escalou de forma clara entre os dois países, o que precipitou uma enorme disputa diplomática. Estados Unidos, Europa, Organização das Nações Unidas (ONU), todos se têm desdobrado em esforços para evitar um conflito armado. A partir daqui, só existem duas vias: uma guerra (que até tinha data marcada para esta quarta-feira) ou a continuação do diálogo.
O primeiro cenário, apesar de ser o menos provável para os especialistas, não é impossível e pode desencadear uma "escalada descontrolada", devido à natureza imprevisível dos conflitos armados. Apesar de todos poderem ter mais a perder do que a ganhar, as motivações de Vladimir Putin colocam um manto de incerteza sobre o desfecho deste conflito. Mas o que quer Moscovo e o que se pode esperar em caso de guerra?
Para o general Leonel de Carvalho, as intenções russas são motivadas por dois objetivos: geoestratégia e política. Por um lado, Putin pretende ganhar acesso à região de Donbass, onde ficam as cidades de Donetsk e Luhansk, controladas por rebeldes pro-russos. Isso pode dar à Rússia um maior poder sobre a Ucrânia, mantendo o país longe das pretensões de adesão à NATO ou à União Europeia.
"Há um interesse geoestratégico em afirmar a Rússia como grande potência em termos militares, uma potência a ser sempre considerada. O outro objetivo é interno e de afirmação. Vladimir Putin não quer que a Ucrânia seja considerada pelos russos como um exemplo de um país em que a democracia ocidental teve êxito", explica o militar.
Esta opinião é partilhada pelo professor Catedrático da Universidade Autónoma de Lisboa, Luís Tomé, que acredita que, apesar de ser "pouco provável" um conflito militar "no sentido clássico", a ocorrer deveria sempre ficar confinado ao território ucraniano, particularmente na parte leste do país, na região do Donbass. "Vladimir Putin não tem um interesse direto em fazer a intervenção. E é por isso que ele ainda hoje insiste que há uma histeria ocidental para além das provocações, porque a Rússia nunca teve a intenção de invadir a Ucrânia", considera o especialista.
Na guerra, uma das primeiras vítimas do conflito são os planos militares. E esse natureza imprevisível dos conflitos armados pode levar a que uma guerra escale "de uma forma descontrolada", admite o professor universitário. "Imaginemos que há uma intromissão de uma aeronave russa no espaço aéreo de um país báltico ou da Polónia, levando ao abate desse avião, como aconteceu não há muito tempo com um avião russo no espaço aéreo da Turquia. Isso pode fazer deflagrar algo que está completamente fora da nossa racionalidade atual", explica.
Em caso de invasão, até onde pode ir a Rússia?
Tanto Leonel de Carvalho como Luís Tomé dão como pouco provável uma invasão russa, mas explicaram à CNN Portugal como a mesma poderá acontecer, tanto a nível territorial como em termos de duração no tempo.
Para o general, caso esse cenário se venha a verificar, "Ucrânia pode resistir durante um certo tempo, mas não tem quaisquer hipóteses" contra um dos maiores e mais avançados exércitos do mundo. Isso, explica o militar, deve-se ao "poderio russo", que, é de tal forma maior que o da Ucrânia, que não deve permitir que a resistência dure muito tempo. No máximo, diz Leonel de Carvalho, as forças ucranianas vão conseguir resistir por meio de um recuo, sendo que "a Rússia tem sempre condições para ir até onde forem os seus objetivos".
Sobre esses mesmos objetivos, Leonel de Carvalho acredita que não vão além da região de Donbass, ainda que seja "relativamente fácil à Rússia penetrar" na Ucrânia, seja através de infantaria, de veículos automóveis ou de até com recurso a barcos. Ainda assim, nota o especialista, esta ação miltiar "seria muito difícil de aguentar ao longo do tempo".
"Logo a seguir à invasão haveria uma reposta tão grande de ponto vista político, económico e diplomático das várias nações ocidentais, e não só, que não me parece que o governo russo insistisse numa ação de avanço no território", acrescenta, falando numa posição de "não atuante" da China. Essa mesma invasão poderia ocorrer em três localizações diferentes, com recurso a diferentes tipos de armamento e de veículos militares.
Rebeldes e hackers: as armas (pouco) secretas de Putin
Outra das hipóteses levantadas pelos especialistas que pode gerar a uma escalada de um conflito armado é a intervenção dos grupos rebeldes armados que operam na região de Donbass. "Os rebeldes do lado russo podem criar alguma situação ou até mesmo alguém do lado ucraniano", refere Luís Tomé.
No entanto, considera que uma escalada terá sempre de passar por estes dois interlocutores: Joe Biden e Vladimir Putin. "É nas mãos deles que está a questão da escala do ponto de vista militar, com retórica e manobras diplomáticas", frisa.
Mas o quão provável é a escalada de um conflito armado? Para Luís Tomé, após o diálogo entre Vladimir Putin e Olaf Scholz na terça-feira, essa probabilidade "não vai além dos 20%". "Se me perguntasse há algum tempo atrás, eu diria que estivemos a 50%", afirma, porém, hoje aponta que a Rússia agora poderá continuar "a lógica de chantagem" sem querer "disparar um tiro". Isto não significa que Putin não planeie continuar um conflito "por outras vias.
"Esta terça-feira, pelos vistos, a retirada de alguns militares russos foi acompanhada por um ciberataque contra o ministério da defesa e bancos ucranianos. Esse tipo de conflito híbrido, assimétrico e de pressão por outras vias para fazer capitular a Ucrânia economicamente, faz mais sentido do que um conflito armado", considera o professor catedrático.
O calendário para evitar o conflito (continuando o diálogo)
A melhor solução, argumenta Luís Tomé, é aquilo a que chama "uma saída em que todos saiam com a face relativamente limpa. "Putin tem de dizer internamente que teve algum ganho com esta manobra. Não pode pura e simplesmente retirar e criar a ideia de que houve um recuo russo, que temeu a reação ocidental, como já afirmaram alguns membros do executivo ucraniano. Putin vai ter de dizer interna e externamente dizer que ganhou algo", aponta o especialista, que acrescenta que o mesmo se deve aplicar aos norte-americanos e aos membros da NATO. Para isso, só existe um caminho: o diálogo.
É com esse objetivo, o de evitar uma guerra e encontrar uma "saída limpa", que se mantém um vasto calendário de reuniões ao mais alto nível, que decorrem desde segunda-feira, com particular destaque para o encontro entre o presidente russo e o chanceler alemão. Sentados na já famosa mesa do Kremlin, Vladimir Putin e Olaf Scholz tentaram avançar nas negociações, que nos próximos dias conhecem novos capítulos.
Esta quarta e quinta-feira, o Parlamento Europeu realiza uma sessão plenária para debater as relações entre a União Europeia e a Rússia, a segurança europeia e a ameaça militar da Rússia na Ucrânia.
Nesses mesmos dois dias, a NATO reúne os titulares das pastas de Defesa com o secretário-geral da ONU, António Guterres. De resto, a NATO é uma das razões para todo o conflito, uma vez que a Rússia rejeita a adesão da Ucrânia àquela organização, criada para combater o bloco soviético que saiu da Segunda Guerra Mundial.
As conversas entre o Ocidente continuam até fim da semana, com a participação da vice-presidente dos Estados Unidos, Kamala Harris, na Conferência de Segurança de Munique, onde se vai encontrar com Olaf Scholz.
Em paralelo, o secretário da Defesa dos Estados Unidos, Lloyd Austin, aterrou esta terça-feira na Europa, onde estão previstas viagens a Bélgica, Polónia e Lituânia.
Na mesma semana, e num debate que é, quase de forma irónica, promovido pela Rússia, o Conselho de Segurança da ONU vai discutir a “manutenção da paz e segurança internacional”.