Bobbi estava a apanhar insetos quando um vizinho "assustado" chamou a polícia. Agora, a coleção da menina de nove anos está em exposição na Universidade de Yale

31 jan 2023, 16:00
Bobbi Wilson (Dr. Ijeoma Opara)

O caso ganhou relevância a nível nacional, ao ponto de o presidente da câmara ter contactado Monique e garantido que tanto a mãe como a filha tinham o seu apoio incondicional

Bobbi Wilson tem nove anos e, como grande parte das crianças da sua idade, é fascinada por ciência. As moscas-lanternas-pintadas (Lycorma delicatula) são consideradas espécies invasoras nos Estados Unidos, tanto que o estado de Nova Jérsia incentiva mesmo a que os residentes as matem, e Bobbi não hesitou quando viu no TikTok uma "receita" para eliminar os insetos: água, detergente da loiça e vinagre de maçã. Em outubro de 2022, passeava pelas ruas da vizinhança de borrifador na mão quando foi abordada por um agente da polícia, que tinha recebido uma chamada a alertar para "uma mulher negra pequena" com um comportamento estranho. 

O momento da chegada do agente foi captado pela câmara incorporada no uniforme. A menina murmura "moscas-lanternas-pintadas" às respostas do polícia, quase inaudivelmente, e vai ao encontro da mãe quando a vê a descer a rua. "Estou em sarilhos?", pergunta, ao que a mãe e o polícia se apressam a clarificar que não. A denúncia, explica o polícia perante a confusão da mãe, foi feita por um vizinho da família Wilson. "Ele é louco? Vivemos na casa em frente. Poderia simplesmente ter tocado à campainha", comenta a mãe, Monique. 

O vizinho desculpou-se mais tarde à família, alegando não ter percebido que a pessoa com o borrifador era a sua vizinha de nove anos. De facto, no telefonema com a polícia, diz-se "assustado" com o comportamento de uma "mulher": "Há uma mulher negra pequenina a andar, a borrifar coisas no passeio e nas árvores. Não sei o que raio está a fazer, mas assusta-me." Quando o agente pediu uma descrição mais pormenorizada, o vizinho insistiu: "É uma mulher baixa, mesmo muito pequena. Tem um capuz. É impossível não a reconhecerem." 

Discussões relacionadas com racismo e violência policial são comuns nos Estados Unidos, e o incidente com a pequena Bobbi veio reacender o debate sobre a diferença de tratamento entre pessoas brancas e negras. As estatísticas indicam que as crianças negras têm uma probabilidade seis vezes maior de ser alvejadas fatalmente pela polícia, enquanto uma outra análise sugere que as meninas negras, em particular, são percecionadas como menos inocentes e mais independentes - mais adultas, portanto, tal como sugere a descrição do vizinho. 

Substituir "uma memória triste" pelo aplauso da comunidade

O caso ganhou relevância a nível nacional, ao ponto de o presidente da câmara ter contactado Monique e garantido que tanto a mãe como a filha tinham o seu apoio incondicional. "O facto de esta ser uma família negra num bairro predominantemente branco certamente adicionou a problemática da raça à equação", reconheceu John Kelly em declarações à CNN, elogiando ainda a atitude do agente da polícia que desvalorizou a situação assim que chegou ao local. 

A prioridade de toda a comunidade de Caldwell, em Nova Jérsia, foi unir-se e garantir que "Bobbi Wonder" (ou "Bobbi Maravilha", como é chamada pelos amigos) se sente segura na sua vizinhança. E, acima de tudo, garantir que não perde a curiosidade pelo mundo que a rodeia. Numa iniciativa inédita à instituição, a Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale agradeceu os esforços de Bobbi na erradicação da praga de moscas-lanternas-pintadas e ostenta agora a coleção de 27 insetos no museu da Universidade, com uma nota a reconhecer a menina como a "cientista" que fez a generosa doação. 

O episódio de outubro poderia ter desencorajado a paixão de Bobbi pela ciência, mas parece ter surtido o efeito contrário. A mãe diz-se grata pela reação carinhosa "de toda a comunidade", incluindo "a comunidade científica", e promete ajudar a criança a "alcançar o seu maior potencial". O primeiro passo na sua promissora carreira como cientista está dado: a exposição no museu da Universidade de Yale está aberta ao público e pode ser visitada por qualquer interessado. 

O objetivo de toda esta mobilização é simples, nas palavras de uma professora auxiliar que a acompanhou numa visita guiada à universidade. "Substituir uma memória triste, de ter sido abordada pela polícia quando fazia algo que a entusiasmava, por pessoas a aplaudi-la e a celebrar os seus esforços". 

Bobbi e a mãe foram convidadas a participar numa visita guiada à Universidade de Yale (Instagram: Dra. Ijeoma Opara)

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