E se não for um reality show mas só reality?
Bruno N. perdeu a paciência e chateou-se com toda a gente, mas não tem poder para fazer o que quer. É por isso que precisa da Voz, que até aqui andava ocupada com o Vítor Z. e o Valter P.. Todos eles - cuja identidade vamos detalhar adiante - fazem parte do reality show de Donald Trump, programa que esta semana teve a sua gala mais acesa.
A expressão "reality show" é de Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana que vê na atual administração dos Estados Unidos uma lógica parecida com um Big Brother ou uma Casa dos Segredos.
“Donald Trump gere os Estados Unidos como se estivesse num reality show. E o que interessa são as audiências”, diz Nuno Gouveia à CNN Portugal, dando como exemplo a montanha-russa das tarifas, que tem tido autênticos flic-flac.
“No dia das tarifas houve um crash da bolsa. Depois reverteu tudo sem avisar o principal conselheiro, agindo por instinto porque estava a perder. É fazer da política um espetáculo mediático”, acrescenta Nuno Gouveia.
E foi nessa mesma lógica que a semana se abriu e fechou, como um círculo perfeito, em torno do one man show que vai em busca de um Prémio Nobel da Paz. Mesmo que não seja assumido, Nuno Gouveia entende que esse é um desejo quase óbvio por parte de Donald Trump. Nem que seja por “ciúmes” de Barack Obama o ter conseguido anteriormente.
“Está obcecado e daí vem todo o seu papel de intervenção na Ucrânia para alcançar a paz. E agora na guerra entre o Irão e Israel, a sua iniciativa acabou por forçar um cessar-fogo, não antes sem bombardear o Irão da forma que o fez”, sublinha o especialista.
Tiago André Lopes também vê uma intenção clara do presidente dos Estados Unidos em conseguir o galardão atribuído em Estocolmo. Ainda assim, não acredita que tenha sido esta intervenção na guerra a que o próprio Trump deu nome (“Guerra dos 12 dias”) - e cujo fim foi o próprio a anunciar - a contribuir decisivamente para isso acontecer.
“Não ficou nada resolvido. É um cessar-fogo muito frágil, não me parece que seja por aí que capitalize. Não o põe mais longe, mas não o põe mais perto do Nobel da Paz”, acrescenta o professor de Relações Internacionais da Universidade Lusíada.
Uma fragilidade que ficou mais patente depois de se ter percebido que a intervenção norte-americana na guerra, que se destinava a destruir as infraestruturas nucleares do Irão, teve pouco resultado. Donald Trump já o veio desvalorizar, mas as informações obtidas pelos Estados Unidos e avançadas pela CNN apontam que o programa iraniano continua de pé depois da passagem dos B-2 norte-americanos.

A Voz manda
Se até pode parecer que Donald Trump não tem tanto controlo assim sobre alguns concorrentes do seu reality show (desvendamos agora que Bruno N. é Benjamin Netanyahu, Vítor Z. é Volodymyr Zelensky e Valter P. é Vladimir Putin), há nesta nova temporada quem respeite o comando da Voz.
Para Tiago André Lopes é até mais do que respeito. É “servilismo” e vem com a cara do secretário-geral da NATO, Mark Rutte (chamem-lhe Marco R., se preferirem), que se subjugou totalmente ao todo-poderoso Donald Trump, o verdadeiro patrão da Aliança Atlântica.
“Mark Rutte está muito preocupado em manter o emprego. Está numa posição frágil porque no sul da Europa não se esquecem da linguagem durante a crise das dívidas soberanas. Para manter o cargo, bastante bem pago, por sinal, vai-se subjugando e adotando uma postura servilista, quase de simplório, a pedir atenção ao grande patrono”, aponta o especialista em diplomacia, que vê uma NATO fragilizada politicamente.
E confirmação disso é a pequena ostracização feita por Donald Trump a um dos aliados. No caso Espanha, que se encheu de ar e decidiu chocar de frente com o manda-chuva da Aliança. Pedro Sánchez tem um quê de rebelde no meio disto tudo, mas apanhou com uma espécie de Marco Borges pela frente, mesmo que não tenha havido pontapé físico.
Até por exemplos como o da conferência de imprensa de quase uma hora em que Donald Trump foi rei durante a cimeira em Haia, Nuno Gouveia acredita que esta semana acaba por ser um sucesso para a Casa Branca.
“Conseguiu o que queria na questão da NATO e acabou por obter um sucesso diplomático entre Israel e Irão”, aponta, assinalando uma total fragilidade dos aliados europeus, que acabaram por ter de ir a Haia pagar a talha.
A recuperação do feudalismo é feita por Tiago André Lopes, que vê na relação entre Estados Unidos e os restantes aliados da NATO uma relação entre um “grande suserano, que é Donald Trump”, e os restantes, que “vão à vez fazer o beija-mão, subjugar-se”. No meio de tudo isto, e com “total incapacidade política”, Mark Rutte foi o bobo da corte. E atenção: “Donald Trump gosta disto, mas não respeita. Respeita muito mais Xi Jinping que isto”.
Nuno Gouveia diz que é a visível fragilidade europeia em matéria de defesa que acaba por levar a esta postura. Mark Rutte não faria o que fez se fosse primeiro-ministro dos Países Baixos, diz o especialista em política norte-americana. Mas teve de fazê-lo para garantir que há capacidade de lidar com uma “ameaça crescente a leste”: a Rússia.
“Obviamente que os dirigentes europeus sentem a necessidade de aumentar a capacidade de Defesa. Mas como ela depende dos Estados Unidos, isso coloca-nos numa situação de fragilidade”, afirma.
E é por isso que, no seu entender, acaba por ser normal assistir a alguma “deferência” do secretário-geral da NATO para com um “extremamente deselegante” Donald Trump, que ameaçou deixar a Aliança Atlântica ao abandono caso não viessem atrás dele e do seu objetivo de gasto militar de 5%.
Um número curioso, já agora, tendo em conta que os Estados Unidos nem sequer são dos que gastam mais em Defesa, não alcançando sequer os 4%.
E é também por isso que Tiago André Lopes estranha a “postura de gozo” perante um aliado como Espanha, que quer obrigar a pagar o dobro, num anúncio feito em tom “desnecessariamente agressivo”, levando mesmo os espanhóis a cerrarem fileiras.
O homem que queria tudo

Mas esta semana de sucesso diplomático e estratégico não quer dizer que Donald Trump consiga tudo o que quer só porque adota uma postura de bully e tenta sobrepor-se a todos os outros.
Basta pensar nos inúmeros exemplos que o próprio deu e que, por uma ou outra razão, parecem distantes. A guerra da Ucrânia não acabou em 24 horas. Também não acabou em 100 dias e, praticamente seis meses depois parece pouco provável que possa acabar em breve, já que o outro bully, Vladimir Putin, vai empurrando a questão com a barriga.
Nuno Gouveia não duvida de que o grande interesse de Donald Trump é, pelo menos a curto prazo, a questão económica. “Tem uma visão da política externa bastante comercial, por isso vemo-lo tantas vezes a desprezar os aliados”, aponta, enquanto aparece a “bajular adversário tradicionais” como a Rússia.
“Tem limitações e no primeiro mandato vimos isso”, acrescenta, ainda que aponte os Acordos de Abraão como um feito da primeira administração Trump.
Focando neste novo mandato, a “pressão” para acabar com a guerra da Ucrânia, que foi sobretudo exercida sobre Volodymyr Zelensky, acabou sem quaisquer frutos até agora. As perspetivas de anexação da Gronelândia, do Canadá ou a nacionalização do Canal do Panamá também parecem questões de um outro tempo.
Em todo o caso, Donald Trump tem um mérito e uma vantagem em relação a Joe Biden: “Quer falar com toda a gente”. E isso, diz Tiago André Lopes, permite-lhe ir organizando a política externa e moldá-la conforme lhe dá mais jeito.
Senão vejamos: primeiro tentou agradar a Vladimir Putin e colocar Volodymyr Zelensky de lado, mas agora já vai dando a volta para o outro lado. Em Israel, mostrou-se um indefetível aliado de Benjamin Netanyahu, mas na partida para Haia arrasou o primeiro-ministro israelita e até chegou a agradecer ao Irão pela forma como lançou o ataque à base norte-americana no Catar.
É aquilo a que o professor universitário chama “empresariar” o mundo diplomático. E nesta empresa que vive de audiências, Donald Trump tem um objetivo último e a longo prazo: cimentar o movimento MAGA e abrir, de preferência lentamente, a discussão para a possibilidade de fazer um terceiro mandato. Se isso não for possível, então que venha um sucessor.
Para já, o reality show segue sem expulsões, ainda que todas as semanas os nomeados pareçam totalmente imprevisíveis. A diplomacia segue dentro de momentos.