Mulher impedida de abortar nos EUA apesar de se saber que o bebé não sobrevive depois do nascimento: "Horrivelmente cruel”

CNN Portugal , FMC
22 ago, 18:44
Protesto junto ao Supremo. AP Photo/Alex Brandon

Vive num estado onde passou a ser proibido realizar um aborto. Alternativa é fazer 1500 quilómetros para se deslocar a um estado onde o possa fazer. Há uma angariação de fundos em curso

Nacy Davis tem 36 anos e já conta com 13 semanas de gravidez. No início do mês recebeu uma notícia devastadora: o bebé foi diagnosticado com acrania, uma anomalia fetal caracterizada pela ausência parcial ou total do crânio.   

O defeito congénito impede que o bebé sobreviva, estimando-se que o tempo de vida após o nascimento seja de apenas horas ou até alguns minutos. Apesar disso, foi negada a Davis a possibilidade de abortar, devido à anulação da proteção do direito ao aborto decretada no final de junho pelo Supremo Tribunal dos Estados Unidos.  

Residente num dos estados norte-americanos que aderiram à revogação do direito ao aborto, o do Louisiana, restaram-lhe duas opções: avançar com a gestação até ao fim ou viajar para um estado que permitisse a interrupção voluntária da gravidez.   

Nancy Davis contou a história à emissora WAFB, afirmando que “é difícil saber que se está a carregar o bebé para o enterrar”. Na entrevista, Davis apelou a que os legisladores tivessem em consideração este tipo de situações, referindo que a condição em que está "precisa de ser uma exceção" à lei, afirmou citado pelo Guardian.  

Ainda que o estado de Louisiana permita cerca de 25 exceções, a acrania não aparece explicitamente como uma delas, o que conduziu a este desfecho. 

O escritório de Ben Crump, advogado de direitos sociais contratado por Nancy Davis, defendeu que a sua cliente foi colocada numa “posição horrivelmente cruel”. Em comunicado, o advogado alega que as leis estatais estão confusas e abertas a diversas interpretações, conduzindo ao pretendido objetivo dos legisladores - “fazer com que os médicos se recusem a realizar abortos, mesmo quando estes são medicamente necessários, por medo de perderem as suas licenças médicas ou enfrentarem acusações criminais”.  

Crump acusa ainda os legisladores de “infligirem um profundo trauma emocional e físico” a Nancy Davis e a todas as mulheres em situações similares.   

 

Ainda que a senadora do estado, Katrina Jackson, defenda que este caso devia ter sido aceite, o hospital justificou-se afirmando que as leis são complexas e “contraditórias” e que “não há um guia sobre que lei vigora”, noticiou a CNN Internacional. Em declarações ao New York Times, a porta-voz do hospital, Caroline Isemann, apesar de não comentar o caso específico, apontou que os médicos têm de assegurar que proceder ao aborto os deixa isentos de represálias legais.   

Nancy Davis decidiu entretanto viajar para o estado da Carolina do Norte, a mais de 1500 quilómetros de onde vive, uma vez que nesse estado a sua situação é passível do procedimento médico. Dada a longa viagem, Nancy criou uma página de angariação de fundos para ajudar nas despesas.   

Este não é o primeiro relato de mulheres que depois da revogação da lei Roe vs. Wade se veem em situações destas, forçadas a terminar o período de gestação mesmo sabendo que o bebé não é viável fora do útero.  Em junho, Chloe Partridge partilhou nas suas redes sociais uma situação semelhante: grávida de 25 semanas, descobriu que o bebé era “incompatível com a vida” e teve de recorrer a uma clínica noutro estado norte-americano.    

E.U.A.

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