Rússia-Ucrânia: porque devemos estar otimistas e porque devemos estar pessimistas

17 fev, 22:18

Ninguém entende Putin - e isso é uma força dele que é uma fraqueza do Ocidente. E perante o indecifrável há sensações - e Biden tem precisamente "a sensação" de que a invasão da Ucrânia vai mesmo ocorrer. Mas será que a guerra não terá já começado e nós é que não lhe chamamos isso? Porque, não esqueçamos, há uma parte daquela região que já está numa espécie de guerra desde 2014. Damos a palavra aos especialistas

“Encenações” de bombardeamentos, diplomatas expulsos e ameaças militares por escrito. Esta quinta-feira marcou uma nova escalada na tensão entre Ucrânia e Rússia, com muito do conflito a fazer-se de ruído e palavras. O presidente dos Estados Unidos até diz que tem a "sensação" de que uma invasão pode ocorrer "nos próximos dias". Mas será mesmo assim?

Para os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, o mais recente clima mostra que estaremos muito mais perto de uma guerra no terreno mas que pode ocorrer também noutros espaços. É isso que refere Lívia Franco, professora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, lembrando que desde 2014 existe algo parecido a uma guerra na região da Crimeia, que foi anexada pela Rússia.

O general Leonel de Carvalho é da mesma opinião, e até dá esse como um exemplo para o que pode acontecer de diferente. De acordo com o militar, a Ucrânia tem agora o que não tinha há oito anos: uma força militar capaz de tentar resistir a uma tentativa russa de tomar a região de Donbass, onde existe uma maioria de separatistas pró-russos.

Também Sónia Sénica, do Instituto Português de Relações Internacionais, lembra que a situação em Donbass tem tido "picos", mas vê os acontecimentos mais recentes como um escalar da situação, admitindo que "qualquer nova movimentação ou passo mal dado" possa despoletar um conflito armado.

Atualmente, e até a julgar por uma carta enviada aos Estados Unidos e que foi assinada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, estará em hipótese uma guerra que extravasa a questão no terreno. A “resposta técnico-militar” mencionada na missiva russa é, para Leonel de Carvalho, uma clara referência a possíveis interferências nas comunicações norte-americanas, desde ataques informáticos até à destruição de satélites, o que levaria o conflito a uma escala nunca vista no panorama internacional.

“Uma resposta técnico-militar pode ter várias leituras, pode ser através de ações ligadas a ataques informáticos pela Internet, pode ser através de ações no Espaço para visar satélites ou comunicações. Terá que ver com uma dessas coisas”, afirma o general.

Na Ucrânia, milhares de civis preparam-se para a guerra em campos de treino militar. Foto: Chris McGrath/Getty Images

Já Lívia Franco vê nesta expressão um vazio, de resto, como vê em todo o discurso russo, que classifica de “ruído”. A professora afirma mesmo que esse tipo de declarações faz parte da estratégia de Vladimir Putin: “O Kremlin está a trabalhar com muito barulho, com pouca clareza. Uma potência verdadeiramente interessada numa via diplomática não faz isto”.

É por isso que a especialista, que faz uma leitura de “pessimismo” depois dos últimos acontecimentos, fala num “afastamento da via diplomática”, dando a expulsão do diplomata norte-americano como o principal exemplo disso mesmo. Também sobre essa expulsão, Leonel de Carvalho antevê uma reação norte-americana, que provavelmente passará pela expulsão do homólogo russo nos Estados Unidos, até porque “Putin está ciente de que se fizer alguma intervenção vai sofrer fortes represálias”.

“A NATO, os Estados Unidos e a Europa só podem interpretar este encadear de acontecimentos e declarações de uma forma: há uma estratégia para criar incidentes. Com que objetivos, não sabemos”, refere Lívia Franco, que admite a hipótese de a Rússia querer criar pretextos para partir para uma invasão, tal como NATO e Estados Unidos disseram ao longo desta quinta-feira.

No fundo, a investigadora diz que esta é uma estratégia de comunicação típica da Rússia de Putin, de as “coisas não serem bem o que são”, havendo “margem para interpretação, o que dificulta o processo”. Lívia Franco nota que esta é uma estratégia que já tinha sido tentada pela Rússia, que utiliza um “racional de provocação” para tentar encontrar um pretexto de invasão.

Sobre a carta enviada pela Rússia, Sónia Sénica vê nisso uma consequência de várias semanas sem se chegar a um consenso negocial, sobretudo na questão da Ucrânia e da NATO: "É normal que ao fim destas semanas seja difícil não tomar uma posição mais assertiva", diz, falando na questão como uma "linha vermelha" russa.

Mais otimista, o major-general Vitor Viana vê este escalar de tensão como um pico de intensidade, algo normal num conflito, afirmando que é necessário que a situação seja "bem gerida".

Ainda assim, o antigo diretor do Instituto da Defesa Nacional avisa, tal como Leonel de Carvalho, que Vladimir Putin não ficará quieto caso haja uma provocação: "Um ataque ucraniano aos separatistas pró-russos ia provocar uma reação, o que se entende, porque internamente não iam aceitar que o líder da Rússia ficasse bloqueado perante um ataque".

Por isso, o militar faz a pergunta: "A quem interessa esta guerra?", respondendo que a Rússia ficaria "isolada internacionalmente" em caso de invasão, lembrando ainda o regresso dos Estados Unidos como grande líder do Ocidente, a quem "interessa esta gesticulação de poder".

O major-general apela ao bom senso dos estadistas, sobretudo Vladimir Putin e Joe Biden, que devem perceber que o envolvimento numa guerra pode escalar para questões nucleares, uma vez que ambas têm essa capacidade.

Se houver: até onde vai a guerra?

“Isto não vai parar, a não ser que a Rússia consiga alguma coisa.” Quem o diz é Leonel de Carvalho, que entende que Vladimir Putin já foi demasiado longe para agora poder voltar atrás, até porque isso enfraqueceria a sua imagem interna e externa.

Seja pela anexação da região de Donbass, onde ficam as cidades de Donetsk e Luhansk, pela garantia de que a Ucrânia não adere à NATO ou, num cenário ideal, por ambas situações, a Rússia terá, na ótica do general, de garantir sempre um destes pontos. Só assim sairá a ganhar de todo este conflito.

Esse será o limite negocial, e também o limite físico. Lívia Franco não acredita que, mesmo a haver uma guerra, que ela ultrapasse as fronteiras separatistas, até porque o grande objetivo russo passa por “influenciar a política ucraniana” através de uma presença mais próxima de Kiev, impedindo o país que um dia pertenceu à União Soviética de fazer alianças com o Ocidente.

Luhansk, na Ucrânia, onde os bombardeamentos destruíram um jardim de infância. Foto: Aleksey Filippov/AFP via Getty Images

É isso que leva Leonel de Carvalho a afirmar que a “Rússia não sai de mãos abanar deste conflito”, uma vez que “todos os meios que pôs junto à fronteira, com toda a pressão diplomática, tem de ter, no mínimo, algum resultado”.

“A Rússia não vai recuar sem ter conseguido alguma coisa, quer em termos territoriais, quer em termos da adesão da Ucrânia à NATO”, vinca o general, que fala em “costas quentes” da Rússia, uma vez que parece ter a garantia de que pelo menos a China não se vai aliar ao Ocidente nesta questão.

Sónia Sénica concorda com essa visão, até porque um estender do conflito ao resto do território ucraniano seria demasiado "oneroso", além de acarretar todas as implicações políticas e económicas, com um provável endurecimento dos pacotes de sanções europeus.

A acontecer, diz a investigadora, a invasão será sempre anunciada pela Rússia como sendo num contexto de "apoio" aos separatistas e nunca uma intenção de chegar a um outro país para conquistar terreno.

Para Vitor Viana, deve existir um "compromisso político" entre a Ucrânia e a Rússia. A Ucrânia deve entender que não pode aderir à NATO, mas a Rússia deve permitir a adesão à União Europeia, caso isso seja desejado pela Ucrânia.

"Os protagonistas têm de ter alguma paciência e estratégias maduras para lidar com a Ucrânia", afirma, apontando também à responsabilidade norte-americana.

Os próximos dias revelarão qual o desfecho, até porque os homens fortes da Defesa de Estados Unidos e Rússia devem encontrar-se na próxima semana, a pedido de Antony Blinken, que convidou Sergey Lavrov para uma reunião na próxima semana.

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