O destino precário da aliança repousa num presidente que encara o poder militar dos EUA como algo que pode usar sem restrições legais ou constitucionais e que despreza a NATO, considerando-a um esquema de proteção. A anexação da Gronelândia seria um feito histórico maior do que colocar o seu nome no Kennedy Center ou construir um novo salão de baile na Casa Branca. Colocá-lo-ia ao lado de Thomas Jefferson e William McKinley como presidentes que expandiram o território dos Estados Unidos
O presidente Donald Trump lançou a NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte) para aquilo que poderá tornar-se a pior crise da sua história, ao ameaçar impor novas tarifas a aliados dos Estados Unidos que se oponham à sua tentativa de anexar a Gronelândia contra a vontade da sua população.
O risco de a relativa paz mundial ser posta em causa pela fratura da mais poderosa aliança militar do mundo dependerá, em parte, de saber se os republicanos no Congresso demonstrarão uma determinação rara para desafiar o seu presidente imprevisível.
Outro fator-chave é saber se os líderes europeus, que responderam à mais recente escalada com uma unidade firme, irão ameaçar Trump e os EUA com consequências concretas. A União Europeia é um enorme bloco comercial e uma retaliação poderia atingir duramente os mercados bolsistas norte-americanos, que Trump apresenta como barómetro do bem-estar económico. No entanto, represálias comerciais ou a limitação da cooperação militar poderão acabar por prejudicar mais os aliados da América do que o seu protetor.
Os embaixadores da União Europeia realizaram consultas de emergência em Bruxelas no domingo e vários líderes de países aliados da NATO com relações cordiais com Trump telefonaram para expressar firmeza quanto à Gronelândia, um território dinamarquês semiautónomo.
Existe uma preocupação palpável em ambos os lados do Atlântico de que a NATO possa colapsar. Um cenário até agora impensável representaria uma vitória histórica para Rússia e China e seria talvez o resultado mais desestabilizador dos dois mandatos de Trump na Casa Branca.
Há também inquietação no Congresso quanto às atitudes de Trump. Mas existirão republicanos seniores suficientes, tão protetores da NATO - um pilar do poder global dos EUA - que estejam dispostos a arriscar uma rutura raríssima com ele? Surgiram fissuras na base de apoio de Trump no Congresso - nomeadamente em torno dos ficheiros de Jeffrey Epstein -, mas ele continua a ser temido por muitos legisladores republicanos.
Em última análise, porém, o destino precário da aliança repousa num presidente que encara o poder militar dos EUA como algo que pode usar sem restrições legais ou constitucionais e que despreza a NATO, considerando-a um esquema de proteção. A anexação da Gronelândia seria um feito histórico maior do que colocar o seu nome no Kennedy Center ou construir um novo salão de baile na Casa Branca. Colocá-lo-ia ao lado de Thomas Jefferson e William McKinley como presidentes que expandiram o território dos Estados Unidos.
A ameaça tarifária de Trump arrisca uma rutura existencial com os aliados
Trump provocou ondas de choque em todo o Atlântico, no sábado, ao intensificar as suas exigências agressivas sobre a Gronelândia, levando a sua política externa do “Art of the Deal” a extremos. Disse que iria impor uma tarifa de 10% sobre “todos e quaisquer bens” provenientes da Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia a partir de 1 de fevereiro, aumentando para 25% em 1 de junho, até que seja alcançado um acordo.
Trump tem apontado corretamente que muitos países da NATO deram como garantido o guarda-chuva de segurança dos EUA ao reduzirem as suas forças armadas nas últimas décadas. A sua irritação, bem como a ameaça evidenciada pela invasão russa da Ucrânia, levou muitos Estados-membros a prometer aumentos substanciais da despesa em defesa.
Mas, ao recusar excluir o uso da força militar para tomar a Gronelândia, arrisca destruir a NATO e a sua cláusula de defesa mútua do Artigo 5 por causa de uma obsessão pessoal. Isto apesar de não existir qualquer desejo tangível entre os eleitores americanos de possuir a ilha ou de pagar por ela. Estão muito mais preocupados com o elevado custo de vida, um ano após o início do segundo mandato de Trump.
“O presidente já tem pleno acesso militar à Gronelândia para nos proteger de qualquer ameaça. Portanto, se quiser comprar a Gronelândia, isso é uma coisa. Mas uma invasão militar viraria o Artigo 5 da NATO completamente do avesso e, na prática, colocar-nos-ia em guerra com a própria NATO”, afirmou o congressista republicano Michael McCaul, do Texas, antigo presidente das comissões dos Negócios Estrangeiros e da Segurança Interna da Câmara, à ABC no programa This Week.
“Acabaria por abolir a NATO tal como a conhecemos, uma organização que nos protegeu de guerras mundiais”, acrescentou McCaul.
O antigo vice-presidente de Trump no primeiro mandato, Mike Pence, disse à CNN, no programa State of the Union, que, embora os EUA tenham interesse em controlar e eventualmente possuir a Gronelândia, os métodos de Trump são contraproducentes. “Acredito que a postura atual, que espero que mude e se atenue, ameaça fraturar essa relação forte, não apenas com a Dinamarca, mas com todos os nossos aliados da NATO”, afirmou Pence no domingo.
O congressista Mike Turner, do Ohio, que lidera a delegação dos EUA à Assembleia Parlamentar da NATO, concordou que Trump tem preocupações legítimas de segurança nacional em relação à Gronelândia. Mas disse à CBS, no programa Face the Nation, que “não existe qualquer autoridade que permita ao presidente usar força militar para se apoderar de território de um país da NATO”.
Mas fará o Congresso algo para travar Trump?
O senador republicano Rand Paul, do Kentucky, e o senador democrata Tim Kaine, da Virgínia, planeiam criar obstáculos. Disseram, numa aparição conjunta no programa Meet the Press, da NBC, que estão a discutir uma nova resolução sobre poderes de guerra relacionada com a Gronelândia. Pretendem também contestar as novas tarifas e sublinhar uma lei que estipula que um presidente não pode retirar os EUA da NATO sem aprovação do Congresso.
Paul afirmou que Trump está a “abanar a jaula” ao recusar excluir a tomada da Gronelândia pela força. Mas acrescentou: “Não ouvi qualquer apoio republicano a isso, mesmo entre os membros mais belicistas da nossa bancada.”
Alguns republicanos esperam que Trump esteja apenas a adotar uma postura agressiva de negociador imobiliário. “Acho que é simplesmente a forma como Trump lida com as coisas. Ele conseguiu bons acordos assumindo posições agressivas”, disse o senador Rick Scott, da Florida, à Fox News.
Mas uma administração fortalecida após derrubar o presidente venezuelano Nicolás Maduro parece ter deixado para trás o modo de grande negociador. Dias depois de Trump ter afirmado que queria a Gronelândia porque era “psicologicamente importante para mim”, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, pareceu confirmar no domingo a perceção de que a administração acredita que os EUA são suficientemente fortes para tomar o que quiserem.
“Os Estados Unidos são atualmente o país mais forte do mundo. A Europa projeta fraqueza. Os EUA projetam força”, afirmou Bessent no Meet the Press.
A NATO já teve divisões, mas nenhuma como esta
A NATO enfrentou muitas tensões nos seus quase 77 anos. Na crise do Suez, em 1956, os EUA opuseram-se à invasão britânico-francesa de partes do Egito. Nos anos 1990, alguns países europeus frustraram-se com a relutância inicial de Washington em envolver a NATO na guerra da ex-Jugoslávia. No início dos anos 2000, após reflexão sobre o seu papel pós-Guerra Fria, a NATO invocou pela primeira vez o Artigo 5 em defesa dos EUA, após os atentados de 11 de setembro, liderando depois a campanha no Afeganistão. Mas divisões profundas surgiram com a guerra do Iraque.
A pressão de Trump sobre a NATO surge após um período particularmente forte da aliança, com a adesão da Suécia e da Finlândia durante a presidência de Joe Biden, na sequência da invasão russa da Ucrânia. A atual rutura é inédita porque nenhum dos líderes que nutriram a aliança durante sete décadas poderia conceber o cenário de um membro ameaçar outro. O facto de a parte agressora ser os Estados Unidos, o membro mais importante, torna a situação ainda mais chocante.
A obsessão de Trump pela Gronelândia, cada vez mais relevante à medida que se intensifica a corrida pelo controlo do Árctico, faz sentido do ponto de vista estratégico. Mas a justificação para que os EUA tenham de a possuir diretamente é menos clara.
Os EUA têm tratados com a Dinamarca que lhes permitem enviar tropas para o território. Trump afirma que a ilha é vital para o seu projeto de defesa antimíssil Golden Dome. Mas já existe lá uma base da Força Espacial dos EUA focada em sistemas de alerta precoce de mísseis. A Gronelândia e a Dinamarca estão também abertas a acordos comerciais com os EUA para explorar terras raras. E a alegação de Trump de que a China e a Rússia poderiam invadir é enganadora, uma vez que a ilha já é território da NATO, que a defenderia.
Scott Bessent apresentou ainda uma justificação surpreendente que sugere que Trump poderia agir unilateralmente em qualquer questão global. “A emergência nacional é evitar uma emergência nacional. É uma decisão estratégica do presidente”, afirmou à NBC. A invocação de poderes de emergência por Trump para impor tarifas no âmbito das suas guerras comerciais é um ponto central enquanto o Supremo Tribunal analisa se essas tarifas usurparam as prerrogativas comerciais do Congresso.
Porque é que a Gronelândia é tão importante para a Europa
Na sequência das exigências de Trump sobre a Gronelândia, os líderes europeus, que passaram o último ano a tentar apaziguar e lisonjear o presidente dos EUA, endureceram o tom.
A questão não é apenas territorial. Vai ao cerne do ideal europeu, forjado ao longo de séculos de derramamento de sangue no continente: o princípio de que as nações e os povos têm direito à autodeterminação e não são meros vassalos de Estados todo-poderosos.
O presidente francês Emmanuel Macron estabeleceu um paralelo marcante entre Trump e o gangsterismo territorial do presidente russo Vladimir Putin, ao escrever na rede social X que a França defende a independência e a soberania de todas as nações. “Nenhuma intimidação ou ameaça nos influenciará. Nem na Ucrânia, nem na Gronelândia, nem em qualquer outro lugar do mundo quando enfrentamos este tipo de situações”, afirmou.
O primeiro-ministro britânico Keir Starmer e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, ambos a tentar manter boas relações com Trump, falaram com ele por telefone. Meloni, uma conservadora populista, afirmou que “não concorda” com tarifas relacionadas com a Gronelândia.
Mas será preciso mais do que palavras para conter Trump. Poderão os republicanos no Capitólio ou os aliados da NATO mostrar-lhe que existirão consequências pessoais e políticas por transformar a anexação da Gronelândia numa prioridade absoluta?
Há sinais de que as ameaças de Trump poderão comprometer a ratificação de um acordo comercial UE–EUA que oferecia condições vantajosas aos Estados Unidos, em parte porque a Europa sabia que não podia arriscar a retirada do apoio militar norte-americano. O colapso do acordo ou a imposição de tarifas de retaliação poderiam prejudicar Trump, ao provocar um aumento dos preços das importações num ano de eleições intercalares, em que os eleitores se mostram cada vez mais insatisfeitos com o seu desempenho económico.
Uma fragmentação da aliança da NATO poderá acabar por causar problemas aos Estados Unidos, caso implique o encerramento de bases militares no Reino Unido, na Alemanha ou noutros países, que os EUA utilizam para projetar força no Médio Oriente e em África. Poderá também sobrecarregar as forças armadas norte-americanas, já esticadas, com a responsabilidade exclusiva de defender o Árctico.
Um corte nos laços transatlânticos complicaria igualmente outras prioridades de Trump, como o seu desejo de obter apoio e financiamento europeus para a iniciativa de estabilização e reconstrução de Gaza. E, se Trump estiver realmente empenhado em pôr fim à guerra na Ucrânia, tal não poderá ser feito de forma justa sem a Europa. Os Estados-membros da NATO poderão também afastar-se da compra de armamento e do investimento provenientes dos EUA.
Apesar disso, os países da NATO continuam profundamente vulneráveis a Trump. Décadas de subinvestimento na defesa deixaram-nos dependentes do poder militar norte-americano, 80 anos após a Segunda Guerra Mundial e quase 35 anos depois do fim da Guerra Fria.
Existe uma vontade genuína na Europa de alcançar maior independência. Mas serão necessárias décadas para construir escala e resiliência global, partindo do pressuposto de que governos frágeis consigam convencer eleitores descontentes a aceitar sacrifícios em nome do aumento da despesa em defesa.
Em última análise, esta dinâmica desequilibrada no seio da aliança ocidental contribui tanto para o atual impasse quanto o comportamento errático do presidente norte-americano.