Vitória ou derrota, a culpa é de Trump: como se explicam os resultados das eleições nos EUA e o que isso significa para o futuro

9 nov, 19:03
Apoiantes de Donald Trump no Ohio (Michael Conroy/AP)

A vitória republicana também foi uma derrota, e muito disso se deve a Donald Trump, que esta terça-feira ganhou o primeiro grande concorrente às eleições presidenciais de 2024

Era um suposto ter sido um mar vermelho, houve mesmo quem tivesse falado em tsunami, mas as eleições intercalares nos Estados Unidos acabaram com uma “vitória de pirro” do Partido Republicano e uma “derrota honrosa” do Partido Democrata. Tudo jogava a favor do partido de Donald Trump, mas os resultados foram muito aquém dos esperados: a maioria na Câmara dos Representantes deve ser conseguida, mas por números bem menores do que se esperava, enquanto os democratas devem continuar a “mandar” no Senado.

Um resultado que Nuno Gouveia não dissocia de Donald Trump. É do especialista em política norte-americana a expressão “vitória de pirro”, caraterizando um resultado inesperado, sobretudo atendendo às sondagens e às sensações que chegavam a público.

“Para quem esteve atento, a grande dúvida com que partíamos era sobre se a vitória republicana ia ser esmagadora ou confortável. Apesar de ainda não termos os resultados finais, vai ser sempre uma vitória de pirro”, afirma à CNN Portugal.

Já Diana Soller diz não estar surpreendida com os resultados. A investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais, que fala em "derrota honrosa" dos democratas, aponta à CNN Portugal várias questões para esta conclusão eleitoral, destacando uma profunda divisão num país há muito polarizado.

Afinal, como se explicam estes resultados? Inflação, efeito da lei sobre o aborto ou a importância de Donald Trump: tudo teve e vai ter implicações na política norte-americana, não apenas de forma imediata, mas também nas eleições presidenciais de 2024 e nos anos que se seguem.

Inflação vs aborto

Assim que o Supremo Tribunal dos Estados Unidos reverteu o direito ao aborto como lei federal, delegando autonomia em cada um dos 50 estados para decidirem sobre a matéria, os democratas avançaram imediatamente para a campanha intercalar. A partir daquele dia, essa passou a ser uma das grandes bandeiras do presidente, Joe Biden, e dos seus parceiros.

Nuno Gouveia acredita que houve uma influência positiva no eleitorado democrata após a decisão judicial, nomeadamente entre os eleitores mais jovens, franja da população em que a abstenção é historicamente elevada. Desta vez não foi assim.

"Notou-se que o eleitorado jovem se mobilizou e o aborto terá sido uma das causas que os terá levado a votar", afirma, lembrando que esta foi uma das principais bandeiras dos democratas nestas eleições. A outra causa baseou-se numa mensagem de "preservação da democracia", algo que ficou patente no discurso de Joe Biden, que alertou para a necessidade de proteger as instituições e o sistema democrático.

Essa mesma narrativa, que "foi muito martelada pelos democratas", acabou por funcionar, conclui Nuno Gouveia. No fundo, o que era pretendido era passar a mensagem de que, com maiorias na Câmara dos Representantes e no Congresso, uma possível vitória republicana em 2024 podia significar uma tomada do poder por parte dos republicanos.

Joe e Jill Biden à chegada à sede de campanha em Maryland (Susan Walsh/AP)

Diana Soller sublinha que a derrota democrata, ao contrário de outras recentes, como a de Barack Obama em 2010 (perdeu 63 congressistas), representa um "mérito de Joe Biden", mesmo apesar de uma campanha eleitoral que não foi brilhante, mas acabou por ser suficientemente eficaz. A especialista atribui também os resultados à tal mobilização democrata, sobretudo ao nível regional, e que nesta eleição "terá tido mais peso do que o costume".

Ainda assim, e empurrado para baixo pelo peso histórico do partido que está na Casa Branca, que costuma sair sempre derrotado nas intercalares, o Partido Democrata “respirou de alívio com resultados muito melhores do que o esperado”, sublinha Nuno Gouveia, que lembra a campanha até certo ponto agressiva do presidente dos Estados Unidos, que chegou mesmo a dizer que nestas eleições era a democracia que estava em causa.

“Notava-se que havia um sentimento de que as coisas iam correr mal e o que se passou foi precisamente o contrário”, acrescenta o especialista, vincando que o único “roubo” de cargos no Senado aconteceu para o lado democrata no estado da Pensilvânia.

Esse sentimento devia-se, sobretudo, à inflação, que pode chegar ao nível mais elevado em 40 anos. A consequente perda do poder de compra aliada com a crise energética acabou por não ter o efeito esperado pelos republicanos.

A colagem a Trump

Para Nuno Gouveia existe uma resposta mais simples para explicar a pequena vitória republicana: os candidatos serem fracos. Diz o especialista que muitos dos representantes do partido foram mal escolhidos, referindo que os próprios analistas norte-americanos apontaram que, em muitos casos, o candidato mais fraco acabou por ser o escolhido para representar o partido.

“O Partido Republicano perdeu aqui uma grande oportunidade e isso deve-se sobretudo, a alguns candidatos muito fracos”, aponta, referindo que, por muitas vezes, a escolha recaiu em candidatos mais ligados a Donald Trump, o que acabou por ser prejudicial ao partido.

Exemplo disso, segundo Nuno Gouveia, é a escolha do famoso Mehmet Oz, conhecido como o "Doutor Oz" do programa de Oprah Winfrey. O conhecido médico foi apontado pelo Partido Republicano como candidato a uma das duas vagas disputadas no estado da Pensilvânia para o Senado, mas acabou por perder para o democrata John Fetterman. Um erro que custou o lugar naquele que é um dos mais importantes estados do país, uma vez que é um dos apelidados "swing states", em que o voto vai oscilando entre partidos consoante as eleições.

"Esta obsessão por Donald Trump tem trazido dissabores ao partido. Estas eram eleições para vencer claramente, e, se tivessem optado por melhores candidatos, estaríamos a falar num cenário totalmente diferente", afirma, recordando que é costume o "eleitorado penalizar quem está no governo".

É que o antigo presidente dos Estados Unidos é, segundo Diana Soller, uma espécie de “líder informal” do Partido Republicano, e isso acabou por minar a representatividade do partido: "nos últimos dias acabou por transformar a campanha eleitoral quase num referendo à sua própria popularidade e não teve o sucesso que esperaria ter". A juntar aos dois méritos democratas, esta é a terceira razão apontada pela especialista para os resultados: o "demérito" de Donald Trump.

Donald Trump dançou no dia antes das eleições (Michael Conroy/AP)

Já Nuno Gouveia não tem dúvidas: a mensagem republicana foi mal passada, além de também ter sido errada no conteúdo: "continuaram a seguir a cartilha de Donald Trump, a falar nas eleições de 2020, o que pode convencer alguma base, mas não convence o eleitorado independente.

No fundo existe como que uma dependência exagerada do Partido Republicano em relação a Donald Trump. Algo que se vai intensificar no Congresso, onde Diana Soller diz que vão entrar políticos "claramente apoiantes de Donald Trump e do seu ideário". Apesar de não ser uma derrota do ex-presidente, a investigadora não tem dúvidas: "no mínimo, estes resultados são um cartão amarelo a Donald Trump".

No fundo, o Partido Republicano teve os resultados que teve por causa de e apesar de Donald Trump, que, em certos momentos, fez com que o partido conseguisse capitalizar a popularidade do líder, ao mesmo tempo que a sua postura pode ter sido prejudicial para os resultados obtidos.

De Santis a ganhar fôlego

Estas eleições não deixam de ser um referendo a Donald Trump, figura principal do Partido Republicano, mesmo que muitos não o queiram como candidato. Mas das intercalares saiu um outro nome: Ron DeSantis, provável candidato à Casa Branca em 2024, e que pode ser o grande opositor do antigo presidente nas primárias republicanas.

"Já se antevia que Ron DeSantis avançasse, e agora ainda mais, com uma vitória avassaladora e os fracos resultados de candidatos ligados a Donald Trump", afirma Nuno Gouveia, que lembra a imprevisibilidade do eleitorado, ao mesmo tempo que vê "quase como que uma adição do eleitorado mais conservador a Donald Trump".

Ron DeSantis festejou vitória na Florida (Rebecca Blackwell/AP)

"Já aprendemos que não devemos desvalorizar a capacidade de Donald Trump, que continuará a ser um forte candidato", conclui, falando num alerta que deve chegar aos doadores de campanhas, de que os candidatos presidenciais tanto dependem.

Diana Soller vê a situação de outra forma, retirando das eleições uma conclusão: "há dois candidatos Trumpistas", para as eleições de 2024. São eles o próprio Donald Trump e Ron DeSantis, que a especialista vê com um discurso similar ao antigo presidente.

"Esta nota é muito importante: há um segundo Trumpista candidato às primárias", conclui, dizendo mesmo que "o Trumpismo é a ideologia dominante no Partido Republicano.

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