O homem-forte da América faz uma grande aposta na Venezuela, mas ressuscita pesadelos de desastres de mudança de regime

CNN , Stephen Collinson
4 jan, 13:02
Declaração de Donald Trump sobre a Venezuela (AP)

Milhões de americanos acordaram com a mesma pergunta no primeiro sábado do novo ano: estamos em guerra com a Venezuela?

A destituição do presidente Nicolás Maduro por Donald Trump tem implicações impressionantes para a Venezuela, para o poder global dos Estados Unidos e para os já fragmentados limites constitucionais ao poder presidencial norte-americano e ao direito internacional.

A justificação ostensiva é que Maduro era o topo de um Estado-cartel que ameaça a segurança dos EUA e o bem-estar dos seus cidadãos através do tráfico de droga. Mas as afirmações de Trump exageram o papel da Venezuela, e o seu prazer evidente em exercer influência no seu quintal geopolítico revela motivos mais ambiciosos.

Poucos cidadãos venezuelanos oprimidos lamentarão a remoção de um ditador que destruiu vidas e arruinou oportunidades económicas.

Mas a operação relâmpago contra Maduro foi chocante. E não apenas porque a destituição de um líder estrangeiro é considerada um ato de guerra.

Toda a filosofia política de Trump assentava em evitar mais operações de “choque e pavor” dos EUA para impor mudanças de regime no estrangeiro, após duas décadas de pântanos militares.

O que aconteceu ao plano de parar de interferir em políticas estrangeiras intratáveis que os EUA não compreendem? O “America First” acabou?

Provavelmente não. Ao contrário disso, está em modo superpotente.

Trump continua a agir na perseguição fria do que considera serem interesses vitais dos EUA. A diferença é que a sua definição desse conceito se expandiu enormemente desde 2016. Também cresceu o seu apetite por exercer poder sem controlo, que já ultrapassou as fronteiras dos EUA e avança pelas Américas e além.

“A América nunca permitirá que potências estrangeiras roubem o nosso povo ou nos empurrem para fora do nosso próprio hemisfério”, advertiu Trump, numa notável conferência de imprensa no sábado, no seu resort de Mar-a-Lago, na Florida. “Com a nossa nova estratégia de segurança nacional, a dominância americana no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionada”.

O último sábado prova que os Estados Unidos regressaram a tempos em que presidentes e serviços de informação procuravam derrubar líderes autocráticos ou incómodos em favor de governos fantoches. Evoca também recordações sombrias de interferência política da CIA, incluindo na América Latina, que muitas vezes teve efeitos contrários aos desejados.

 

Como a operação na Venezuela pode resultar

Se as projeções otimistas da aposta de Trump se concretizarem, a sua exposição política interna poderá ser limitada. Poderá aliviar o sofrimento do povo venezuelano, criar estabilidade no norte da América do Sul, permitir o regresso de refugiados venezuelanos e travar os esforços de rivais dos EUA, como a China e a Rússia, para ganhar uma posição que ameace a segurança e os interesses americanos.

Uma operação militar aparentemente bem-sucedida, sem mortes em combate do lado dos EUA, para capturar Maduro só reforçará a reputação de Trump como orquestrador de demonstrações súbitas de poder militar, após os ataques às instalações nucleares do Irão no ano passado.

O seu culto de personalidade de homem-forte revigorado agradará a alguns eleitores republicanos, tal como a sua afronta aos limites constitucionais e aos críticos liberais. Isto poderá desencorajar rebeliões de dissidentes do GOP que sabem que a Constituição estipula que é o Congresso - e não o presidente - quem declara a guerra.

Mas o presidente está a correr riscos junto de muitos membros da sua base política em erosão, já irritados com os ataques ao Irão, Nigéria, Síria e agora Venezuela, bem como com a aparente indiferença face às difíceis condições económicas internas. Os democratas já estão a explorar este tema como pilar da sua campanha, antes das eleições intercalares de novembro.

É crucial para as perspetivas políticas do GOP que os EUA não se vejam envolvidos na Venezuela com grandes destacamentos de tropas terrestres que recordem o caos das guerras pós-11 de Setembro. Mas, se a queda inicial de Maduro degenerar em violência, como aconteceu em operações anteriores de mudança de regime no Iraque, Afeganistão e Líbia, Trump enfrentará sérios problemas políticos.

 

Foi este o momento “Missão Cumprida” de Trump?

A conferência de imprensa triunfal de Trump, na tarde de sábado em Mar-a-Lago, enquanto Maduro era transferido para uma cadeia em Nova Iorque, transbordava de arrogância. Foi difícil não recordar a volta de vitória de George W. Bush em 2003, no porta-aviões, pouco antes de uma sangrenta insurgência mergulhar o Iraque no caos.

“Nenhum outro presidente alguma vez demonstrou este tipo de liderança, coragem e determinação, a combinação mais poderosa que o mundo alguma vez viu”, exaltou o secretário da Defesa, Pete Hegseth, ignorando o heroísmo de Abraham Lincoln na Guerra Civil, a liderança ousada de Franklin Roosevelt no Dia D ou a firmeza de John F. Kennedy na Crise dos Mísseis de Cuba.

Esta hagiografia poderá ser especialmente perigosa para a mentalidade de um presidente que já se considera infalível e omnipotente.

Os desastres no Iraque, Afeganistão e na Líbia após a queda de Muammar Kaddafi, em 2011, marcaram profundamente os americanos, porque resultaram da negligência de Washington após um triunfo inicial. A Venezuela, com 31 milhões de habitantes, forças de segurança brutais, cultura criminosa e de gangues, e governação e economia fragmentadas, parece um candidato ideal a uma implosão social, comum quando tiranos são subitamente depostos.

Trump foi leviano sobre o que virá a seguir, mas a sua franqueza foi chocante. E os seus verdadeiros motivos parecem apontar para uma forma moderna de colonialismo.

“Vamos administrar o país até ser possível fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”, disse Trump, ecoando todos os clichés da mudança de regime. “Não temos medo de pôr botas no terreno, se for necessário”, afirmou, levantando a possibilidade de enviar forças americanas para um Estado semi-falhado e volátil.

E lembra-se da queixa incessante dos opositores da guerra do Iraque de que essa guerra era “na verdade por causa do petróleo”? Desta vez não há dúvidas.

“As empresas petrolíferas vão entrar. Vão investir dinheiro. Vamos recuperar o petróleo que, francamente, já devíamos ter recuperado há muito tempo”, disse Trump.

No entanto, não apresentou respostas sobre como os EUA iriam “governar” a Venezuela, embora tenha sugerido que Marco Rubio, o chefe do Estado-Maior Conjunto Dan Caine e Hegseth estariam envolvidos.

Qualquer tentativa de revitalizar a indústria petrolífera destruída por Maduro e Hugo Chávez levará anos e exigirá uma enorme presença de segurança dos EUA. Isto não será uma operação rápida. Trump será responsável pelas consequências, quer haja paz, desintegração civil ou um novo tirano.

Ainda assim, ninguém pode prever com conforto o que irá acontecer.

A primeira vaga de críticas à mudança de regime ao estilo de Trump teve um tom de quem está a combater a última guerra. O modelo do Iraque pode não se aplicar à Venezuela. O país não tem as divisões religiosas e tribais nem vizinhos beligerantes como o Irão, que empurraram o Iraque para o inferno em 2003. Além disso, a administração Trump não desmantelou até agora o aparelho do Estado, como fizeram os enviados de Bush em Bagdad, com resultados desastrosos.

Trump deu a entender que a sua administração estaria a falar com a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez, dizendo que ela estaria “essencialmente disposta a fazer o que consideramos necessário para tornar a Venezuela grande outra vez”.

Delcy Rodríguez, contudo, mostrou-se desafiante num discurso em Caracas, acusando os EUA de “sequestrar” Maduro e exigindo o seu regresso. E, embora Trump tenha falado numa transição “criteriosa”, não se comprometeu com um regresso à democracia, deixando implícita a preferência por um regime dócil em Caracas.

 

Democratas furiosos, republicanos alinham com Trump

As ações do presidente já desencadearam uma tempestade política interna.

Enquanto inicialmente se tentou retratar a captura de Maduro como uma operação policial para cumprir uma acusação por narcotráfico, as declarações de Trump sobre dominar o Hemisfério Ocidental e apropriar-se do petróleo venezuelano colocam a operação em bases legais e constitucionais ainda mais frágeis.

Ataques aéreos e terrestres na Venezuela enquadram-se claramente na definição de ação militar dos EUA que exige autorização prévia do Congresso, como aconteceu antes da guerra ao terrorismo e da invasão do Iraque.

“Na noite passada, o presidente Trump fez guerra a uma nação estrangeira sem autorização, sem notificação e sem qualquer explicação ao povo americano”, afirmou o senador democrata Jack Reed. “O que quer que venha a seguir, Trump será responsável pelas consequências”.

Jack Reed acrescentou: “Isto foi um profundo fracasso constitucional. O Congresso - não o presidente - tem o poder exclusivo de autorizar a guerra”.

O senador Tim Kaine reforçou: “O Congresso tem de reafirmar o seu papel constitucional crítico em matérias de guerra, paz, diplomacia e comércio”.

Mas, a curto prazo, Trump parece imune à pressão no Capitólio. As lideranças republicanas manifestaram apoio. Até Rand Paul apoiou a remoção de Maduro, embora lembrando os limites constitucionais.

A base política de Trump, porém, continua frágil. Uma sondagem da CBS, em novembro, mostrou que 70% dos americanos se opõem a uma ação militar. Até figuras do MAGA expressaram descontentamento.

No estrangeiro, o ataque confirmou que a estratégia de segurança nacional de Trump - dominância regional e foco limitado noutros locais - é real. Rússia e China acabarão por usar este princípio do forte sobre o fraco a seu favor.

“O 47.º presidente dos Estados Unidos não é alguém que jogue jogos”, disse Rubio. “Quando diz que vai resolver um problema, fá-lo a sério. Ele age”.

A grande questão sobre Trump é agora mais urgente do que nunca: Até onde irá ele? E quem o irá travar?

E.U.A.

Mais E.U.A.