O que não se sabe sobre o balão chinês que sobrevoou os Estados Unidos

6 fev 2023, 21:00
Balão espião chinês (AP)

Polémica entre as duas potências mundiais continua a levantar sérias dúvidas

O balão chinês que sobrevoou os Estados Unidos pode já ter sido abatido, mas permanecem no ar muitas questões por responder. Desde logo, sobressai uma óbvia: quem está a mentir?

Washington D.C. afirmou “com muita segurança” que este aparelho entrou no espaço aéreo do país com o objetivo de recolher informações de locais sensíveis, como bases militares e edifícios governamentais. Por sua vez, o governo de Pequim garante que era um simples balão meteorológico para uso civil, que se desviou da rota e entrou nos Estados Unidos por force majeure (evento ou circunstância imprevisível).

“Foi completamente um acidente”, escreveu o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China num comunicado neste domingo, citado pela CNN Internacional.

Ambos os países defendem de forma firme as suas versões, mas há quem tenha dúvidas da posição dos dois governos. À BBC, Iain Boyd, professor de Engenharia Aeroespacial da Universidade do Colorado, afirma que a verdade pode estar no meio das informações avançadas por Washington D.C. e Pequim. "Há dúvidas de ambos os lados. Em parte, é isso que é tão interessante em tudo isto. Penso que a verdade está algures no meio de tudo isto", diz o académico.

Que tipo de informação é que o balão conseguia processar? Terá conseguido enviar algo para a China?

As respostas a estas duas questões, refere Boyd, dependem da quantidade de instrumentos do aparelho que as equipas das Forças Armadas dos Estados Unidos consigam recolher. Caso a missão de recuperação tenha sucesso, o governo americano poderá ficar a saber não só que tipo de informações este dispositivo conseguia processar, como também se este era controlado remotamente, por exemplo. Mesmo que o software tenha sido danificado ou apagado, diz o professor universitário, os instrumentos podem revelar a resolução e qualidade das eventuais imagens que foram captadas.

"Seria muito surpreendente se houvesse alguma tecnologia neste aparelho que os Estados Unidos não tenham já de alguma forma, mas os serviços de informação podem ficar a compreender a maturidade tecnológica que os chineses têm para este tipo de dispositivos", afirma.

Porque é que o balão não foi abatido mais cedo?

De acordo com fontes oficiais, o balão entrou no espaço aéreo norte-americano a 28 de janeiro, sobrevoando as Ilhas Aleutas e o Alasca, antes de entrar em território canadiano dois dias depois. No dia 31, o aparelho voltou a entrar em território dos Estados Unidos, sobre o Estado do Idaho, antes de sobrevoar o Montana, onde foi pela primeira vez avistado por populares na cidade de Billings, a 1 de fevereiro. Foi também por esta altura que Joe Biden foi informado de que o balão estaria a sobrevoar território americano. O presidente terá, então, decidido mandar abater o aparelho.

No entanto, tanto o secretário de Estado da Defesa, Lloyd Austin, como o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas Americanas, Mark Milley, informaram Biden de que seria demasiado arriscado abater o balão sobre o território do país devido aos potenciais custos humanos e materiais. A justificação é plausível, mas surgiu uma outra questão: se essa era a preocupação, porque é que o balão não foi abatido sobre o Alasca, território mais de sete vezes maior que o Reino Unido, mas com apenas cerca de 730 mil habitantes?

É certo que fontes oficiais de Washington garantem que o balão esteve sempre sob observação e investigação, tendo sido recolhidas informações sobre o mesmo ainda durante o voo. Contudo, os esclarecimentos prestados pela administração democrata não serviram para conter a ira dos republicanos.

"Deixar um balão de espionagem chinês à deriva sobre a América é como ver um ladrão na nossa varanda da frente e convidá-lo a entrar, mostrando-lhe onde guardamos o nosso cofre, onde guardamos as armas, onde dormem os nossos filhos, e depois, educadamente, pedir-lhe que saia. Não faz sentido”, afirmou Mike Gallagher, membro da Câmara dos Representantes pelo 8.º distrito do Wisconsin, citado pela Fox.

Quantos balões chineses já sobrevoaram os Estados Unidos?

Esta questão foi, teoricamente, esclarecida pelo Pentágono esta segunda-feira. "Pelo menos em três ocasiões, os balões de vigilância da República Popular da China transitaram pelo nosso espaço aéreo. Direi que, segundo todos os indícios que temos, isso aconteceu durante breves períodos de tempo, nada parecido com aquilo a que assistimos na semana passada, em termos de duração", afirmou John Kirby, porta-voz da instituição, que adiantou que três destes episódios aconteceram durante o mandato de Donald Trump e um já com a administração de Joe Biden.

No entanto, o ex-presidente dos Estados Unidos rejeita esta avaliação. "A China tinha demasiado respeito pelo 'Trump' para que isto tivesse acontecido, e nunca o fez. É apenas desinformação falsa!", escreveu o antigo chefe de Estado norte-americano na sua rede social, a Truth Social.

Esta segunda-feira, o general Glen VanHercke, comandante do Comando Norte-Americano de Defesa Aeroespacial, revelou que estas travessias não foram detetadas no momento em que ocorreram, pelo que o número exato de balões chineses pode não ser conhecido.

Que consequências terá este episódio para as relações entre Estados Unidos e China?

A resposta a esta questão só poderá ser dada com o tempo, mas o cancelamento da viagem do secretário de Estado dos Estados Unidos, Antony Blinken, à China, antevê um novo agravamento da já tensa relação entre os dois Estados.

"O que os Estados Unidos fizeram teve um sério impacto e prejudicou os esforços e progressos de ambas as partes na estabilização das relações China-Estados Unidos desde a reunião do G20 em Bali", afirmou o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Xie Feng, esta segunda-feira, citado pela CNBC.

Ouvido pelo canal americano, Roman Schweizer, diretor para a defesa do banco Cowen and Company, afirma que este episódio vai ter um “sério impacto” nas relações bilaterais entre os dois países, bem como na opinião pública.

"Os países espiam-se uns aos outros, inimigos e amigos, usando todo o tipo de métodos e tecnologia. Ser apanhado é o risco. A crise do balão provavelmente envergonhou a China o suficiente para tentar retaliar, mudar a narrativa ou, dito de uma forma simples, fazer com que os Estados Unidos pareçam maus de alguma forma", afirmou.

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