Quais são os objetivos dos EUA para a Venezuela? O paralelo histórico é o Panamá

CNN , Brett H. McGurk
7 dez 2025, 22:00
Venezuela (Associated Press)

Há mais de duas décadas, a 24 de janeiro de 2004, aterrei em Bagdade como consultor jurídico, tendo-me sido atribuído um escritório no que era então conhecido como a Zona Verde. Estava frio e chovia, e o meu saco de viagem foi atirado para uma poça de água à saída do avião C-130, que acabara de fazer uma descida em espiral para chegar à pista sem risco de fogo terrestre. Fui recebido por jovens soldados americanos enquanto nos amontoávamos num veículo, saindo a toda a velocidade do complexo aeroportuário e seguindo por uma estrada chamada "Autoestrada da Morte" devido aos carros-bomba e atiradores furtivos.

"Em que é que o nosso país se meteu?"

Esse foi o meu primeiro pensamento durante aquela viagem angustiante. Ao longo de um ano no país, e depois através de sucessivas administrações presidenciais, aconselhei muitas vezes prudência e cautela na definição dos objetivos da política externa norte-americana. Especialmente no que toca ao uso de poder militar, cuja aplicação deve estar ligada a objetivos claros, articulados e realizáveis.

Poder-se-ia pensar que a situação atual na Venezuela — para onde os EUA destacaram agora 15% do seu poder naval e onde realizam exercícios terrestres nas proximidades — serviria de alerta para parar antes que o país se encontre, mais uma vez, numa situação que não compreende totalmente e com consequências incertas.

Mas talvez não seja bem assim.

A situação atual na Venezuela tem poucas semelhanças com o Iraque e assemelha-se muito mais ao Panamá de há 35 anos, antes da operação militar dos EUA para remover um ditador e instalar um governo eleito que gozava de vasto apoio da população local. Essa missão foi um sucesso e o Panamá é hoje uma democracia funcional, amiga dos EUA, embora não isenta de problemas, desde a criminalidade à corrupção.

Será possível que estejamos tão paralisados pela experiência do Iraque (e do Afeganistão) que percamos uma oportunidade de melhorar a vida dos venezuelanos e a estabilidade no nosso próprio hemisfério, seguindo o exemplo do Panamá?

O presidente dos Estados Unidos, George H.W. Bush, responde a uma pergunta durante uma conferência de imprensa em 22 de dezembro de 1989. Bush disse que não ficará satisfeito até que Manuel Antonio Noriega, do Panamá, seja levado à justiça e que os Estados Unidos irão persegui-lo “o tempo que for necessário”. (Ron Edmonds/AP)

Venezuela e Panamá: Pretextos semelhantes

A 20 de dezembro de 1989, o Presidente George H.W. Bush dirigiu-se à nação para definir a fundamentação da missão que acabara de ordenar no Panamá. Explicou que o Panamá era liderado por um "traficante de droga acusado", Manuel Noriega, que em breve seria "levado à justiça" nos EUA. Bush acrescentou que Noriega anulara eleições democráticas e que os vencedores dessas eleições tomariam o poder em breve na Cidade do Panamá, provavelmente com amplo apoio. O regime de Noriega também ameaçava e prejudicava americanos, incluindo a morte recente de um soldado americano, abatido pelos serviços de segurança de Noriega.

Por fim, Bush discutiu a importância estratégica do Canal do Panamá e o compromisso de Washington com os tratados existentes que Noriega dificilmente honraria.

Neste cenário, Bush explicou os objetivos da missão: "Salvaguardar a vida dos americanos, defender a democracia no Panamá, combater o tráfico de droga e proteger a integridade do Tratado do Canal do Panamá".

Duas semanas depois, Noriega estava sob custódia dos EUA, o governo de oposição eleito assumiu o poder e as forças norte-americanas começaram a deixar o país.

Falei recentemente com um antigo colega militar dos EUA que participou nesta operação, saltando de paraquedas no Panamá antes do discurso de Bush. "De todas as nossas aventuras militares desde a Coreia", disse-me ele, "o Panamá deve ser considerado uma das mais bem-sucedidas. Ir lá agora é ver um país democrático muito próspero".

Soldados norte-americanos transportam um grande guindaste para a área próxima à Embaixada do Vaticano no Panamá, em 30 de dezembro de 1989. (Corinne Dufka/Reuters)

Olhemos agora para a Venezuela.

O país é governado por Nicolás Maduro, que, tal como Noriega, enfrenta acusações criminais nos tribunais dos EUA. As acusações contra Maduro são mais extensas. A sua acusação de 2020 em Nova Iorque lista crimes de narcoterrorismo, tráfico de droga e corrupção. É também acusado de chefiar a organização de tráfico "Cartel dos Sóis", que o Departamento de Estado acaba de classificar como Organização Terrorista Estrangeira. Washington ofereceu uma recompensa de 50 milhões de dólares a quem ajudar a colocar Maduro sob custódia dos EUA.

Tal como Noriega, Maduro também invalidou eleições sucessivas e suprimiu violentamente movimentos democráticos dentro do seu país. Os EUA e a maioria dos seus aliados ocidentais reconhecem a oposição liderada por Maria Corina Machado como o governo legítimo da Venezuela. Segundo observadores independentes, os partidos da oposição receberam 70% do voto nacional nas eleições presidenciais venezuelanas de 2024, que Maduro afirma ter vencido.

Finalmente, Maduro, tal como Noriega, ameaçou e prejudicou cidadãos americanos, bem como a paz e segurança regionais. Nos últimos anos, tal como os seus aliados no Irão, Maduro tem mantido americanos efetivamente como reféns para manobras diplomáticas com os EUA. Estes reféns incluem um marinheiro americano de férias na Venezuela, residentes americanos de longa data no país e executivos da Citgo, a subsidiária americana da petrolífera estatal venezuelana.

Em 2023, Maduro ameaçou invadir a vizinha Guiana, uma aliada americana, e hoje reivindica soberania sobre dois terços da Guiana, justificando a pretensão — tal como Putin em relação ao leste da Ucrânia — com base numa história falsa e num referendo encenado.

Diferenças significativas

Se Maduro for substituído em Caracas, não há garantia de que as autoridades locais em todo o país trabalhem com o novo governo, abrindo a perspetiva de guerras civis e de uma competição violenta por poder e recursos. Maduro afirma ter recrutado uma milícia na ordem dos milhões para resistir a qualquer operação apoiada pelos EUA e, embora essa afirmação possa ser exagerada, devemos presumir que os cartéis de droga podem assumir o controlo nas zonas rurais, em oposição às forças da democracia que poderíamos esperar ou desejar ver prevalecer.

A Venezuela é mais de dez vezes maior que o Panamá, algo que levaria os planeadores militares a recomendar uma força muito superior aos quase 26.000 efetivos destacados na operação de 1989.

O contexto geoestratégico é também muito diferente. Em 1989, a União Soviética tinha colapsado, com a queda do Muro de Berlim seis semanas antes da invasão do Panamá pelos EUA. A América era a grande potência indisputada no mundo e não havia razão para esperar ou antecipar que outras grandes potências resistissem à operação militar ou fizessem os seus próprios movimentos noutros hemisférios.

Hoje, a Rússia e a China estão alinhadas com Maduro e os seus líderes provavelmente citariam qualquer operação dos EUA na Venezuela como justificação adicional para perseguir as suas próprias ambições hemisféricas, contra a Ucrânia e Taiwan, respetivamente.

Quais são as opções de Trump?

Donald Trump disse na semana passada, de forma enigmática, que tinha "decidido" o curso de ação na Venezuela. Isso seguiu-se a notícias da CNN sobre múltiplas reuniões de alto nível na Casa Branca com comandantes militares acerca de opções após o reforço naval ao largo da costa e exercícios conduzidos pelo Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA (Marines) em áreas rurais e urbanas de Trindade e Tobago.

Maduro parece estar a interpretar estes movimentos como uma possível intervenção americana, convocando as suas milícias ao mesmo tempo que apela ao diálogo, chegando a cantar o hino de paz de John Lennon, "Imagine", num comício recente.

As pessoas observam o USS Gravely, um navio de guerra da Marinha dos Estados Unidos, a partir do Porto de Espanha em 30 de outubro. O navio de guerra norte-americano chegou a Trinidad e Tobago em 26 de outubro de 2025 para realizar exercícios conjuntos perto da costa da Venezuela. (Martin Bernetti/AFP/Getty Images)

Para aumentar a confusão, a administração não tem sido clara quanto aos objetivos do que agora chama Operação Southern Spear. O Secretário da Defesa, Pete Hegseth, descreveu a missão como sendo para "defender a nossa pátria, remover o narcoterrorismo do nosso hemisfério e proteger a nossa pátria das drogas que estão a matar o nosso povo". Embora não tenha havido menção em declarações oficiais ao restabelecimento da democracia na Venezuela, ou a um objetivo de procurar a remoção de Maduro como líder, Trump declarou que os dias de Maduro estão "contados". Os destacamentos militares, incluindo o grupo de ataque de porta-aviões mais avançado do arsenal dos EUA, sugerem ambições para além dos objetivos publicamente declarados da Southern Spear.

Certamente, a remoção de Maduro é do interesse dos EUA e do povo da Venezuela. Antes do governo de Maduro e do seu antecessor, Hugo Chávez, o país estava entre os mais prósperos da América do Sul, ao passo que hoje está em ruínas, com o rendimento per capita a cair 72%, um dos colapsos económicos mais acentuados da história. Sondagens credíveis indicam que mais de três quartos do país se opõem ao seu governo e existe um governo de oposição preparado para tomar o poder se lhe for dada essa oportunidade.

A administração Trump, apesar das demonstrações de força, parece pouco propensa a procurar uma mudança de regime pela via militar, um curso de ação que iria contra a sua aversão declarada a compromissos militares prolongados. Nem eu os aconselharia de outra forma. Nesta fase, as diferenças em relação ao Panamá superam as semelhanças ou a esperança de que uma operação contra Maduro pudesse correr tão bem como no Panamá há mais de três décadas.

Mas a administração não deve retirar a influência que construiu agora contra Maduro, devendo usá-la com eficácia.

Sem recorrer a uma operação militar para derrubar Maduro, a administração pode exigir que ele entregue figuras-chave das redes de tráfico de droga dentro da Venezuela, retire as reivindicações sobre a Guiana e se comprometa a realizar novas eleições com observadores internacionais, que certamente perderia. Para ir mais longe, a administração poderia exigir o seu exílio, talvez para a Rússia, onde se poderia juntar a Bashar al-Assad, o antigo presidente da Síria, outro ditador que destruiu o seu próprio país em prol do poder pessoal. Para que algo disto funcione, a administração precisaria de garantir o apoio de aliados, incluindo na América do Sul, algo que até à data tem sido incapaz ou relutante em fazer no que toca aos seus objetivos na Venezuela.

Membros da Milícia Bolivariana participam de treinamento cívico-militar, em meio a tensões crescentes com os EUA, em Caracas, Venezuela, em 15 de novembro. (Maxwell Briceno/Reuters)

Em qualquer caso, antes de os EUA embarcarem numa política para substituir Maduro, seja por meios militares ou outros, deveria haver um debate no Congresso para pesar os prós e contras, algo que hoje também não acontece devido à disfunção em Washington.

Conclusão

Os EUA, após duas décadas de compromissos militares prolongados no estrangeiro, estão, e com razão, cautelosos quanto a qualquer nova empreitada que preveja uma mudança de regime. Essa cautela é justificada, mas na Venezuela os argumentos para a remoção de Maduro do poder são convincentes e traçam mais paralelos com o Panamá do que com o Iraque. No entanto, o reforço do poder militar ao largo da costa pode ser melhor utilizado para alcançar objetivos que, no final, não exijam o seu uso no país.

E.U.A.

Mais E.U.A.