Autoridades estão assustadas, até porque não há uma única semana em que não apareçam novos casos
Já passou mais de um ano desde o início de um surto de sarampo no oeste do Texas, tendo-se registado novos casos nos Estados Unidos todas as semanas desde então.
O Texas reportou mais de 760 casos - e a morte de duas crianças - antes de declarar o fim do surto em agosto. Foi o maior surto que os EUA viram em décadas e, desde então, outros grandes focos de infeção - um na região norte da Carolina do Sul e outro na fronteira entre o Utah e o Arizona - acumularam centenas de casos cada e continuam a expandir-se.
As duas primeiras semanas de 2026 estão entre as piores de sempre, com registo de exposições em escolas, igrejas, restaurantes, lojas e aeroportos. A propagação contínua do sarampo ao longo do último ano deixa os EUA em risco de perder o estatuto de eliminação, que o país detém desde 2000.
"É assustador, porque há apenas alguns anos o sarampo era muito raro nos Estados Unidos", afirma Caitlin Rivers, epidemiologista e diretora do Centro de Inovação em Resposta a Surtos da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg.
"Agora estamos a ver numa única semana o que poderíamos ter visto num ano normal", acrescenta. "Houve uma mudança real na presença desta doença evitável na nossa vida."
O regresso ao equilíbrio anterior depende da rapidez com que os EUA conseguirem melhorar a cobertura vacinal, dizem os especialistas – o que, em muitos aspetos, se tornou uma batalha difícil.
Os EUA registaram mais de 2.200 casos confirmados de sarampo em 2025 - um número significativamente superior ao de qualquer ano desde que a doença foi declarada eliminada no país, em 2000. Nas duas primeiras semanas de 2026, foram notificados pelo menos 171 casos, o que corresponde quase ao total anual médio registado nesses 25 anos desde a eliminação.
A grande maioria dos casos - mais de 95% - ocorreu em pessoas que não tinham sido vacinadas com as duas doses recomendadas da vacina contra o sarampo, papeira e rubéola (VASPR).
Os especialistas receiam que a situação tenha de piorar muito antes de melhorar.
É particularmente devastador, defendem, porque as doenças e mortes que preveem são quase totalmente evitáveis com a ajuda de vacinas, mas a quebra na cobertura deixou muitos cidadãos vulneráveis.
Risco de perder o estatuto
Ainda não é claro se os EUA manterão o seu estatuto de eliminação do sarampo. Em abril, a Organização Pan-Americana da Saúde, que integra a Organização Mundial da Saúde, tomará formalmente a decisão. O veredito exigirá uma revisão detalhada das evidências epidemiológicas e laboratoriais para compreender os padrões de propagação do sarampo no último ano - incluindo se os surtos mais recentes estão ligados ao do Texas.
Mas os especialistas alertam que a perda formal do estatuto de eliminação seria um sintoma de problemas mais profundos, particularmente os desafios com a vacinação que se têm vindo a acumular há muitos anos.
"Sejamos realistas: quer percamos ou não o estatuto de eliminação na primavera, será que o nosso sistema de saúde pública está realmente bem?", questiona Demetre Daskalakis, antigo diretor do Centro Nacional de Imunização e Doenças Respiratórias do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, que se demitiu em protesto no ano passado.
"A eliminação do sarampo é um sinal vital do nosso sistema de saúde pública. E esse sistema está 'azul' [em estado crítico] nos cuidados intensivos", ilustra. "Não preciso de lhe verificar o pulso para saber [que não está bem]. Sei a resposta."
Uma percentagem recorde de crianças do jardim de infância nos EUA teve isenção de uma vacinação obrigatória no último ano letivo, segundo dados do CDC, marcando o quinto ano consecutivo em que a cobertura com a vacina VASPR ficou abaixo da meta federal de 95%.
O CDC atribui o aumento das isenções a uma "crescente hesitação vacinal". Um inquérito recente realizado pela agência concluiu que a maioria dos pais apoiava os requisitos de vacinação para frequentar a escola. Mas entre aqueles que procuram uma isenção, a razão mais comummente reportada - citada em mais de um terço das vezes - foi uma objeção por crença filosófica ou pessoal à vacinação.
A dificuldade em cumprir os requisitos escolares dentro do prazo foi também reportada como motivo de isenção por cerca de 23% dos pais. Razões médicas foram citadas por mais de um quarto dos inquiridos, mas o CDC ressalva que tal pode incluir pais que consideram as preocupações sobre a segurança da vacina ou efeitos secundários como uma razão "médica" para solicitar uma isenção.
"Eliminámos a memória do sarampo"
"As vacinas são vítimas do seu próprio sucesso. Não eliminámos apenas o sarampo. Acho que eliminámos a memória do sarampo", lamenta Paul Offit, diretor do Centro de Educação sobre Vacinas do Hospital Infantil de Filadélfia.
Offit recorda uma conversa com Maurice Hilleman, microbiologista que desenvolveu a vacina VASPR e dezenas de outras, meses antes da morte deste em 2005. Os casos de sarampo tinham atingido um mínimo histórico em 2004, mas começavam a aumentar novamente, apenas alguns anos depois de os EUA terem alcançado a eliminação após uma longa e dura batalha.
"Perguntei-lhe: 'Acha que conseguimos educar as pessoas sobre a importância da vacina, sobre a gravidade desta doença, ou o vírus tem de voltar?'", conta Offit. O especialista recorda que Hilleman tinha uma lágrima no olho quando respondeu que o vírus teria de voltar para ensinar essa lição.
"Foi uma derrota enorme para ele", diz Offit. "É uma derrota enorme para nós ver, mais uma vez, crianças expostas a algo que as pode matar – e matou – neste país, quando isso era completamente desnecessário."
No entanto, parece cada vez mais que o vírus também não está necessariamente a cumprir essa função educativa, nota Offit.
Registaram-se três mortes por sarampo no ano passado – tantas quantas nos últimos 25 anos combinados –, mas tem sido uma luta aumentar as taxas de vacinação, mesmo em comunidades que sofreram surtos.
O departamento de saúde da Carolina do Sul disponibilizou uma clínica móvel de vacinação desde as primeiras semanas do surto na região norte do estado, mas a epidemiologista estadual Linda Bell classificou a adesão como "dececionante".
Bolsas de subvacinação e o fator político
Os surtos de sarampo tendem a ocorrer em bolsas de subvacinação nos EUA, frequentemente em comunidades muito unidas, como as que partilham certas crenças religiosas.
Daskalakis aponta para um novo tipo de comunidade fechada nos EUA – menos ligada geograficamente, mas unida pela disseminação de mensagens antivacinas, incluindo pelo Secretário da Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., e outros nos extremos do movimento MAHA (Make America Healthy Again).
"A missão desde o início do programa de vacinação na América é que, se podemos prevenir uma doença com uma vacina que tem um perfil risco-benefício extremamente favorável, fazemo-lo", defende Daskalakis. "Parece que o valor dessa estratégia foi minimizado para algumas populações. Não para todos, mas o suficiente para que eu espere que o sarampo faça parte do nosso futuro, pelo menos a médio, se não a longo prazo."
O Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) afirma que Kennedy tem sido "claro e consistente" na mensagem de que a vacinação continua a ser a forma mais eficaz de prevenir o sarampo, mas a agência diz também que "os indivíduos devem consultar o seu prestador de cuidados de saúde" sobre o que é melhor para eles e para as suas famílias.
O HHS fez recentemente alterações profundas ao calendário de vacinação infantil, recomendando agora menos vacinas para a maioria das crianças americanas, numa medida que Kennedy afirmou que "protege as crianças, respeita as famílias e reconstrói a confiança na saúde pública". As recomendações da vacina VASPR não foram alteradas, mas os peritos temem que a decisão possa contribuir para dúvidas mais amplas sobre as vacinas.
Um futuro incerto
Não é claro o que fará mudar as mentalidades individuais sobre a vacinação, dizem os especialistas - talvez uma recalibração da mensagem de saúde pública e mais famílias a temer que o sarampo lhes chegue à porta -, mas o risco de surtos cada vez maiores significa que haverá muitas doenças e mortes evitáveis pela frente.
Já houve mais de 550 casos de sarampo no surto da Carolina do Sul, e pelo menos uma em cada mil pessoas com sarampo pode morrer.
"É uma questão de números. Quanto mais casos houver, mais oportunidades existem para doenças graves", explica Rivers, cuja organização desenvolveu um rastreador de casos de sarampo e trabalhou com departamentos de saúde de todo o país.
Aumentar as taxas de vacinação é a melhor forma de manter os casos no mínimo e prevenir esses desfechos trágicos, reiteram os especialistas.
Isso poderia acontecer numa questão de meses, segundo Rivers. É assim que outros grandes surtos foram travados. Mas o potencial de mudança pode depender da perceção das pessoas sobre se estes surtos ameaçam as suas próprias vidas.
"Com atenção suficiente, motivação e mudanças políticas, como o reforço dos requisitos de entrada na escola, podemos aumentar esses níveis de cobertura muito rapidamente", assegura a especialista. "Temos todas as peças no lugar. Só precisamos que as famílias compreendam o quão importante é, e essa parte pode demorar anos."
O aumento da frequência e dimensão dos surtos de sarampo colocará certamente uma pressão adicional sobre a saúde pública, alerta Daskalakis. Continuar a construir relações e apoiar-se em parceiros de confiança dentro das comunidades locais pode ajudar a reforçar mensagens críticas sobre a importância das vacinas.
Ainda assim, o otimismo persiste.
"É isto que a saúde pública faz", conclui Daskalakis. "A saúde pública nunca é estática. Há sempre um novo desafio, há sempre nova desinformação e, francamente, também nova informação que nos move numa direção diferente."