Estado italiano "ausente" na investigação de abusos sexuais na Igreja

Agência Lusa , AM
18 nov, 10:08
Jesuítas (Artur Widak/Getty Images)

Conferência Episcopal Italiana calculou em 89 as vítimas de abusos entre 2020 a 2021, num processo criticado por associações de vítimas

O Estado italiano mantém-se "ausente" das investigações a abusos sexuais na Igreja, ao contrário de países como Portugal, lamentam associações de vítimas e especialistas, que ainda assim saúdam a divulgação de alguma informação pelas autoridades religiosas.

A Conferência Episcopal Italiana (CEI) divulgou na quinta-feira um relatório sobre abusos sexuais na Igreja, que calculou em 89 as vítimas de abusos entre 2020 a 2021, num processo criticado por associações de vítimas.

“Estamos zangados com a falta total do Estado neste caso", disse à Lusa Francesco Zanardi, presidente da associação Rete l'Abuso (Rede Sobre Abusos), que recolhe denúncias de vítimas.

"Noutros países europeus, entre os quais Portugal, Espanha e França, tem havido uma participação das instituições para fazer luz sobre estes crimes. Em Itália, o Estado nunca quis intervir e o judiciário fá-lo em casos individuais e não de forma estruturada”, criticou Zanardi.

O presidente da associação relata que tentou por várias vezes entrar em contato com as instituições judiciárias italianas, mas "é realmente difícil pedir a sua intervenção porque a Igreja não coopera" e no relatório agora divulgado "não há menção de colaboração" da Justiça com a Igreja, "exceto, claro, quando estão a ser investigados e são obrigados a fazê-lo”.

Os dados contidos no relatório agora divulgado foram recolhidos por centros criados em paróquias italianas e analisados por uma equipa de especialistas da Universidade Católica italiana.

E é justamente a “falta de independência” das pessoas envolvidas na coleta de dados que incomoda as vítimas: “Essas balcões nada mais são do que um canal pelo qual a Igreja impede que essas denúncias cheguem ao Judiciário. Além disso, dizem que oferecem atendimento psicológico, mas quantas vítimas vão querer receber apoio na mesma estrutura que as abusou?”, adiantou Zanardi.

Em última análise, segundo Zanardi, o relatório “falha totalmente na atenção às vítimas, não há referência a indemnizações e também faltam medidas contra os padres pedófilos".

"Parece apenas um exercício de silêncio", considera.

Em fevereiro de 2019, o Comité dos Direitos da Criança da ONU pediu a Itália que criasse uma "comissão de inquérito independente e imparcial para examinar todos os casos de abuso sexual de crianças por religiosos da Igreja Católica", expressando "preocupação" com o baixo número de investigações e processos pelo judiciário italiano".

Federico Tullio, jornalista do semanário Left que há anos recolhe testemunhos de pessoas abusadas por padres ou outros responsáveis da Igreja, defende a criação de uma comissão parlamentar independente de inquérito aos abusos cometidos por padres pedófilos como "única forma de finalmente responsabilizar a Igreja por todos os casos de abuso que guarda e nunca chegaram ao judiciário”.

Segundo Tullio, no entanto, alguns dados relevantes foram divulgados pela Igreja fora do relatório, em particular quantos casos de abuso foram investigados ou estão a ser investigados: são 613 arquivos enviados nos últimos 20 anos pelas diversas dioceses italianas ao Dicastério Vaticano da Doutrina da Fé, "que é uma espécie de judiciário do estado pontifício”.

Durante a conferência de imprensa de divulgação do relatório, o secretário-geral da CEI, Monsenhor Baturi, especificou que "não significa que sejam 613 casos" de vítimas, e que estes podem dizer respeito a queixas apresentadas a casos de abusadores em série.

Piero Schiavazzi, professor de geopolítica do Vaticano na Universidade Link Campus (Roma), disse à Lusa que o relatório deve ser lido no contexto das últimas declarações que o Papa fez sobre o tema da pedofilia, que considera "muito importantes".

"O Papa declarou que já passou o tempo em que um padre pedófilo era transferido de um lugar para outro para evitar investigações. A segunda coisa que ele disse é que há uma forte resistência a que os casos de abuso sejam denunciados às autoridades judiciais depois de identificados", afirmou.

Segundo Schiavazzi, estas resistências à mudança surgem em menções no relatório agora divulgado, que refere que "uma das maiores dificuldades das dioceses nos serviços de protecção de menores é a de gerir as relações com as várias ordens religiosas".

Os institutos dirigidos por ordens religiosas, sublinha Schiavazzi, "são os locais onde ocorrem mais abusos e são os que mais resistem à mudança”.

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