Ursula Von der Leyen fez mais um magnífico discurso no debate do Estado da União. Está cada vez melhor. Nunca será um Churchill, mas, de ano para ano, a presidente da Comissão Europeia tem vindo a aprimorar este talento.
Von der Leyen foi a todas e colocou o dedo na ferida em quase tudo o que tocou. Foi dura com a Rússia, com Israel, com o Hamas e com Vicktor Orbán. Foi desafiadora com os Estados-membros. Foi magnânima com os europeus. Foi didática com a saúde global. E foi autojustificativa no tema das tarifas entre a União Europeia e os Estados Unidos.
Do ponto de vista da forma e do conteúdo, o discurso da presidente da Comissão foi exemplar. E agora? Pegamos neste discurso, fazemos um avião de papel e atiramos em direção à Rússia? Pegamos nas palavras de Von der Leyen e pedimos à inteligência artificial que as transforme em competitividade? Que consequência advirá de mais um discurso brilhante?
Não precisamos de puxar o filme muito atrás. Há um ano, por esta altura, Von der Leyen sugeria que utilizássemos os ativos russos que estão congelados e, com esse dinheiro, ajudássemos militarmente a Ucrânia. Aconteceu? Não. Propôs ainda condicionar o acesso a fundos comunitários aos países que não fizessem reformas estruturais para se tornarem mais competitivos. Aconteceu? Também não.
A culpa não é de Von der Leyen. A presidente da Comissão Europeia — esta ou qualquer outra — tem o poder que os Estados-membros lhe quiserem dar. Então, de quem é a culpa? Será dos líderes dos países que compõem a União Europeia? Seguramente. Mas com os problemas internos que têm, quem os pode culpar por não se conseguirem entender? Será de Merkel, a dona disto tudo durante mais de uma década, que acreditou em Putin e na força da diplomacia económica, enquanto virava a cara ao lado a tudo o resto? É, seguramente, uma avaliação que peca por excesso, além de injusta. Será dos europeus, mal habituados a um estado social garantista, a um estilo de vida de fazer inveja a outros continentes e que nem sequer se queriam aborrecer em ir votar de cinco em cinco anos? Ninguém se atreve a verbalizar tamanha desfaçatez. A culpa do estado a que chegou a União Europeia, no fundo, é de todos e não é de ninguém. Será esta, porventura, a única certeza que temos: é que não temos a certeza.
Leio e ouço os “europeístas convictos” muito excitados com a coragem de Ursula von der Leyen. Com o otimismo e a proximidade às instituições que os caracteriza, garantem que é desta. É agora. Este é um ponto de viragem na Europa. Depois deste discurso, nada será como antes, e quem disser o contrário ou sofre de pessimismo crónico ou não é um verdadeiro europeu.
Pois eu, que sou um acérrimo defensor do projeto europeu, tal como ele foi concebido pelos seus pais fundadores, não acredito que alguma coisa de substancial mude na União Europeia enquanto não forem resolvidos dois problemas fundamentais: a sua arquitetura política e a sua liderança. Estamos bloqueados. O poder da Comissão Europeia é insuficiente. O poder do Conselho Europeu é limitado. E o poder do Parlamento Europeu é inexistente.
Mais uma vez, Von de Leyen meteu o dedo na ferida quando disse que “é altura de nos vermos livres das correias da unanimidade”. Ou seja, é preciso mexer nos tratados. Mas esse processo não pode demorar mais dez anos. Tem de ser rápido, cirúrgico e liderado por quem nesta União ainda tenha uma réstia de poder.
Mas quem? É aqui que as coisas se complicam. O Reino Unido já está fora. Macron está em morte cerebral. Meloni provoca desconfiança. A Sánchez ninguém leva a sério. Sobra Mertz, o único a quem ainda podemos dar o benefício da dúvida.
Menos conversa, mais ação
O nosso problema nunca foi um mau diagnóstico da realidade. Foi sempre a falta de pragmatismo e, sobretudo, de ação. A União Europeia é imbatível a fazer duas coisas: debater e a despejar dinheiro para cima dos problemas. Mas é péssima a decidir e a executar.
A guerra da Ucrânia está quase a entrar no seu quinto ano e estamos agora, em 2025, a discutir um programa de defesa para a Europa. “Ah e tal, estávamos a contar com os Estados Unidos, mas o Donald Trump ganhou as eleições e ele não é de confiança”. E agora, como é que vamos rearmar a Europa? Von der Leyen tem a solução: estão aqui 800 mil milhões de euros para gastar. Agora não gastem tudo em vinho e mulheres. Mas vamos comprar a quem? Na Europa não se produzem armas suficientes para nos defendermos. Que chatice, temos de ir comprar aos Estados Unidos.
Há um ano, a Comissão Europeia encomendou a Mario Draghi um relatório sobre a competitividade — ou a falta dela — da União Europeia. O documento chegou muito completo, com o diagnóstico certo, pistas e propostas concretas para recolocar a Europa no tabuleiro dos principais players mundiais e não apenas como um grande mercado de consumidores. Um ano depois, é o próprio Draghi que retira as conclusões. Dizia ele há duas semanas que “durante anos, a UE acreditou que a sua dimensão económica, com 450 milhões de consumidores, lhe conferia poder geopolítico nas relações comerciais internacionais. Este ano será recordado como o ano em que essa perceção se evaporou".
Este já não é o tempo dos discursos. Já não é o momento para investir tempo e dinheiro em encontros, reuniões, cimeiras e outras que tais. Este é o tempo da ação. Até porque, hoje, mais do que nunca, a União Europeia compete a nível global com super potências que não se regem pelos mesmos padrões democráticos e muito menos por tratados ou pela necessidade de unanimismos internos para decidirem. Sempre foi assim na China e na Rússia, mas hoje é também assim nos Estados Unidos. E nós, ou nos libertamos das amarras que fomos construindo durante décadas e começamos a agir em democracia, ou um dia alguém o fará numa qualquer forma de autocracia. Cito Ursula von der Leyen: teremos estômago para isso?
